Domingo, 29 de Janeiro de 2012
PÉS PARA QUE VOS QUERO!

 

Quais pertencem a amores meus? Pergunta de difícil resposta, sei. Menos ou mais que meia dúzia? Alguém disse ser a perspicácia quadrada pelos limites?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 11:03
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Sábado, 28 de Janeiro de 2012
AMORES ACIDENTAIS

Julianna

 

No começo, adrenalina do novo, da descoberta dum ser, do caldo fervente que mistura emoções revisitadas, talvez esquecidas, talvez alojadas no canto dentro julgado com ferrolho cuja chave o tempo perdeu. Num momento inesperado - é quase sempre assim! – a chave está na mão que toca outra, no olhar silencioso que subverte o instante e conduz arrepio à pele e torna ébrio o sentir. E os seres misturam emoção com amor, amor com paixão, paixão com vida toda. Cantam almas e corpos até de dois ser feito um. Continuam a folia traduzida no brilho dos olhos, juram, convictos, o ‘para sempre’.

 

Inexoráveis, sucedem horas e dias e meses, anos, quiçá. Sorrateiramente, espia a rotina no seu jeito de borracha dos sentimentos que vai substituindo o desenho inicial por um deslavado de intensidade. Mas fica a posse, as palavras, gestos repetidos sem porquê salvo terem o outro como sentido de vida à maneira de seguro que garante cobertura de estragos se os dias entortarem. Sobrevém o cansaço com capote largo a encobri-lo. É redito o amor por um ou por ambos. Mas não – somente acata o pagar do seguro.

 

CAFÉ DA MANHÃ  

 




Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
SOBRE E À VOLTA DA FELICIDADE

David Ligare e adaptação de obra de Manet

 

É falada a felicidade. Sentir intermitente. Viver cada dia como se fosse último conduz a desmandos pessoais. Vivê-la como projecto obriga a esforço, a ordenar prioridades, ao gozo do instante em que surge inopinadamente. Depois, é fruição, porque, seja ingénua, concordo, o caminho calcorreado por cada um apenas tem esse objectivo. Se em cada amanhecer for objectivo último, é imediatismo. Como projecto de vida obriga a optar entre o fácil e a dificuldade. E nem sempre um obstáculo é entendido como degrau capaz de quem o ultrapassa ascender a paraísos. E surgem. E são memórias e presentes. Porque não aprendemos com passados? _ Por ser milimétrica a capacidade de reter experiências. Mas é necessário delas constituir acervo. Remirá-lo. Jamais remetê-lo ao esquecimento.

 

Recebo, diariamente, sugestões na minha caixa de correio/chaminé virtual propostas de uma qualquer Groupon para “jantar com show de striptease para duas ou quatro pessoas, desde 27 €”, “Lavagem automóvel: 1 ou 3 lavagens completas com limpeza interior e exterior, desde 12€”, “Corpo perfeito: 3 ou 6 sessões de endermologia, desde 29 €”, “Depilação caseira: 1, 3 ou 5 luvas depilatórias e esfoliantes Smooooth Legs, desde 16 €”, “Animais domésticos: puff canino de tamanho normal ou XXL disponível em 5 cores, desde 35 €” e outras sugestões de teor semelhante. Serão propostas de momentos e actos inolvidáveis? De atingir «felicidadezinhas» por encomenda?

 

Haja pudor em tentações(?) mesquinhas que têm o destinatário por incapaz racional.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Por via de Mário de Carvalho, que não o escritor: _ "Orçamento é uma mulher honesta que se prostitui mais tarde."

 




Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
FACTOS E FACTURAS

Autor não identificado, Tom Quellette

 

Anoitece cedo por via da convergência entre fusos e poupança energética. Nada a opor. O cidadão que arriba a casa destroçado, acende luzes até então adormecidas, liga o aquecimento que pela noite o gelo entra nos ossos, cozinha o jantar na placa de vitrocerâmica, esparrama-se no sofá frente à televisão. A criançada estuda ou, o mais provável, está vidrada no computador. São postas a funcionar máquinas de roupa e louça. A mulher, estafada, ainda assim ganha coragem para engomar a roupa da gentiaga doméstica, não domesticada para a economia que de tal há muito desistiu. Confia no acordo com a EDP de pagar menos a horas estabelecidas. Cumpre.

 

Chega o momento aprazado, a factura entra pela frincha da caixa do correio, abre o envelope e tem um «baque»: total de 116 euros, número redondo. Enquanto sobe no elevador ajoujada com pasta e sacos de parcas vitualhas, lê:

 

Descriminação

Taxa

Importância

ELECTRICIDADE
  CONSUMIDA

 

34,00

Taxa RDP e
  RTP

7%

6.80

Harmonização
  Tarifária dos Açores e da Madeira

3%

1,60

Rendas por
  passagem de cabos de alta tensão para Municípios e Autarquias.

10%

5,40

Compensar de
  Operadores - EDP, Tejo Energia e Turbo Gás

30%

16,10

Investimento
  em energias renováveis

50%

26,70

Custos de
  funcionamento da Autoridade da Concorrência e da ERSE

7%

3,70

Soma

 

94,30

IVA

23%

21,70

Total

 

116,00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem fala, mete chave à porta – não atreve tocar a campainha que só os deuses sabem quanto isso custará. Em vez de sopa decide com grelos, alho francês, abóbora, cenoura, cebola e batatas  apresentar 'sushi com todos'. Toma banho gelado e enfia-se na cama. Que a vozearia reclame. Dali não sai.

 

Nota: texto baseado na factura recebida por e-mail.

 

CAFÉ DA MANHà

 

De Telmo Vaz Pereira:

_ "Aníbalice. Nova palavra do dicionário de português. Significados: o mesmo que disparate, asneira, sandice, tolice, toleima, disparate, dislate, despautério, animalidade, burrice, bacorada. Exemplos: não digas aníbalices; contigo não se aprende nada, só dizes aníbalidades; saíste-me cá um aníbal...

 

De José Fernandes:

_ "Vi a fotografia e já percebi porque é que o Jardim assinou o acordo: sentaram-no toda a tarde numa cadeira desenhada pelo Siza Vieira."

 




Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
DA ‘PANTERA’ A BOCELLI

Autores que não foi possível identificar

 

 “Da sanzala para o mundo” veio Eusébio da Silva Ferreira que hoje comemora setenta anos. Foi responsável por muitas alegrias do povo português em tempo de desespero. É dito ser inspiração para musical encenado por Carlos Fragateiro que, deseja, reproduza o ambiente de um estádio, com cantores, actores e acrobatas, porque o futebol também pode ser isto.

 

Podemos desvirtuar a data, dar-lhe somenos importância por se tratar de um ‘homem da bola’. Injustiça - nenhuma actividade é menor quando cumpre o sonho nacional de levar longe o nome do país. E todos precisamos de alegria e esperança chegue donde chegar desde que talento e mérito o justifiquem.

 

Curiosidade: além de trazer para o desporto crianças e jovens arredando-os doutros caminhos, foi mito no mundo, em particular para Andrea Bocelli. A história adaptada: Bocelli sofria de glaucoma congénito e, lentamente, perdia a visão. Aos doze anos, jogava futebol, foi atingido na cabeça, perdeu definitivamente a visão. O ídolo de infância era Eusébio da Silva Ferreira. Quando Andrea Bocelli se tornou famoso, foi Eusébio que o quis conhecer: as posições inverteram-se.

 

Hoje, o ‘Pantera Negra’ celebra aniversário e é homenageado na Luz também pelo lançamento do livro escrito por João Malheiro que afirma: _ “Pretende ser uma «biografia popular e barata» do «maior jogador português de todos os tempos». Cavaco Silva e Luís Filipe Vieira assinam os textos de abertura e o prefácio é do maestro António Victorino d’Almeida.” Algumas «têvês» ajudam à festa – “a TVI emite um especial com Judite de Sousa a entrevistar Eusébio no restaurante A ‘Tia Matilde’, onde almoça há 50 anos; a RTP terá às 21h outro especial com Cecília Carmo a entrevistar ‘O Rei’.”

 

Parabéns Eusébio!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
AINDA QUEIMA

No início, foi o conselho governamental para imigrar quem necessita emprego. Depois, momento maldito – no improviso perante os media, soem desastres do homem. Porque os portugueses são criativos e tendem para o anedotário, veio a figura esmoler.

 

 

Ter no Palácio de Belém dirigente grado sem estofo para improviso mediático com sensibilidade explícita para os concidadãos, tira-lhe o estatuto de 'Provedor do Povo' que devia cuidar.Tão pouco interessa o que queria dizer e não disse.

 

 

A brincar, são denunciados problemas sérios de muitos portugueses. Nem o espírito solidário supre o que devia ser direito de todos.

 

 

Pois se o poder reside nos cidadãos, é difícil entender escolhas por eles/nós feitas. Silêncios ainda menos.

 

 

Certo está o Rui Zink: _ " E ao sétimo dia, a invenção de um novo verbo - "E se cavacássemos daqui?"

Respondo: _ "E depois? Deixávamos a Senhora de Fátima sozinha?"

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Sem vídeos que condigam com o «espalho» do Presidente, duas imagens e uma frase de Ricardo Araújo Pereira nas "Conversas Improváveis: _ "Uma pessoa «morre» e vai para o Céu, um político morre e vai para CEO."

 




Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
FALHAS E FANTASIAS

 

     Norman Rockwel

          

           Assim fora, assim nunca seria. Ela, que «sempre» e «nunca» rejeitava, usava-os vezes demais. A incoerência reclamada como defesa e arma para advires etéreos. Não conjugava futuros. Ou conjugava pelo gozo da negação seguida. Sabia da pequena esfera recolhida junto ao nervo/comando da visão. Talvez morte, talvez vida. Esquecia-a. Lembrava-a se entretinha a tentação do prever. Ceifava-a como na infância vira nas terras fecundas pela natureza e regas.

            Montanha ao alto, vale em música de cantares/alívios de corpos doridos. Os lobos à espreita, as raposas rapinando poedeiras que supriam faltas míseras. Recontos aconchegados nos colos das matriarcas, foram. A menina, ao tempo, das labaredas conhecia as das lareiras confinadas à pedra, castanho velho por remate. Já não assistia às queimadas nos campos nus onde o Outono descia manto de cinza fria.

           A urbe, do centro capital, era dez meses de existir, escola, liceu, faculdade. Na geometria parental, a criança era o terceiro vértice. Vazio o outro que desejava ocupado por laço fraterno. Sem ele, ficava a menina debulhando leituras e, pelo carvão, no «cavalinho» registando falhas e fantasias.            
           O quarto de brincar, excessivo, recolhia a criança só. Sem primos na rua de baixo ou de cima ou na cidade que pelos afectos e birras habitassem a irmandade possível. E lembrava da casa beirã o baloiço pendurado no braço robusto da nogueira velha e formosa. O tecto de folhagem e frutos verdes. O vaivém que, nas férias serranas, o primo de Lisboa arrojava rápido e alto.

             _ Voa!

Voava. Sem medo. No Jorge, constelava universo de confiança. Como no pai, cúmplice e autoridade. Como no tio franciscano. Como no avô que musicava os dias em pautas de alegria, primeiro nos acordes da viola afagada na tarde quase extinta. E havia fogo e turquesa no recorte do vale descido da Estrela até ao Buçaco que os malvas dissolviam. 

             Dos homens e mulheres entendeu o que via entre paredes de amor. Eles laboriosos, providentes e previdentes, ternos, base e fundo da confiança. Elas companheiras, voluntariosas, pondo e dispondo com autonomia sob o tule do véu que levavam à missa de incensos e altares de tranquilidades floridas. Só na aparência submissas. De facto, senhoras donas da família.

            Da crisálida no seu casulo, mais cedo do que o previsto, houve mulher com criança dentro. Porque da dormência das sestas adultas, na infância, constituíra reinos e da precária liberdade experimentara a magia, aprendeu a deter-se. No silêncio, jogar ao faz de conta. Uma e outra e outra figura. Personagens múltiplas que viria a integrar enquanto despia e vestia sedas da mãe copiando gestos de filmes antigos que o preto e branco coloria. 

              Desequilibrada nos saltos, encenava graça e langor no palco que o espelho devolvia. A sedução da mãe, das mulheres de Hollywood repetidas no descalçar da meia e na alça caída do ombro por suave estremecer. Um dia, sua. Egoísta pela relevância do querer, houvesse ou não quarto cheio de homem que a visse.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Domingo, 22 de Janeiro de 2012
HOMENAGEM EM DAMASCO DE SEDA

Era o branco, tons de terra, laranja em detalhes como a lembrar final de Verão quando a folhagem das videiras, pelo cobre na seiva, é paleta variada. Tempo rico, tempo de colher os bens que a lavoura em chão fértil produz pelos cuidados de quem o trabalha e ama e rega e vigia cada rebento nascido. Era um espaço sereno onde os olhos poisavam sem receio de anacronismo que contradissesse o minimalismo presente.

 

Porque há luz a rodos no perto e longe, pelo frio da manhã e da noite que chega cedo demais apeteceu quentura colorida, ir ao baú e descobrir o ajuntado. E lá estava, bem no fundo, a colcha sem era entretecida com seda até compor damasco. Coral o tom. Ofertada pela sogra antes do casamento. A senhora que partiu quando os afectos lhe desejavam o colo de ternura e dádiva por muitos anos mais, guardava peças de enxoval, algumas herdadas, outras saídas da arte que guardava no saber e nas mãos. Artroses doridas torceriam os dedos sem, todavia, impedirem a extremosa dedicação à família.

 

 

A colcha alegre e macia viu o dia. De caminho, rendas e bordados tão antigos e retro como ela saíram do escuro. Pelos desenhos e tecidos, Art Déco. Numa caixa funda, objectos contemporâneos dos outros. Em conjunto, emprestaram nova leitura ao ambiente.

 

 

Mirado e remirado o conseguido. Olhado com desvelo o remate da colcha. Na alma, sentida a benesse de ter privado com mulher/senhora/mãe/avó que, pela amizade de gerações entre duas famílias, quis a fortuna fosse a primeira a visitar recém-nascida que, décadas depois, afagaria a seda. Na altura, disse: _ “Que felicidade! Nasceu a minha futura nora.” Assim foi.

 

 

De amores nas paredes e na cama ficou repleto o espaço. Pontificam magnólias, gosto outro. Pontifica a reserva do todo. Laços de ternura unem mulheres de outrora à que respira a cor da vida.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Sábado, 21 de Janeiro de 2012
VIDA À POTUGUESA

Deborah Poynton

Por este andar de surpresa em surpresa, um destes dias não publico nada que saia do pensar exclusivamente meu.

 

“Nos primeiros 6 meses, o Governo de Passos Coelho fez 618 nomeações de camisolas laranjas, o que dá uma média de 103 nomeações por mês. A partir dessa primeira fase, só pode aumentar o ritmo.”

 

Pelo Telmo Vaz Pereira, esta vem na sequência.

 “O Governo afastou António Mega Ferreira da presidência da do conselho de administração da Fundação Centro Cultural de Belém e entregou a sinecura a Vasco Graça Moura. Aos 70 anos, Graça Moura é convocado a liderar “um novo ciclo de desafios para o cumprimento do serviço público do CCB na área da cultura”, nas palavras sempre lúcidas do Francisco José.

Graça Moura levará consigo Dalila Rodrigues, cujo curriculum é pontuado pelos problemas que criou no Museu Nacional de Arte Antiga e na Casa das Histórias Paula Rego, tendo em ambos os casos sido demitida.

Estou em condições de divulgar, em primeira mão, extractos do discurso de Graça Moura na cerimónia de posse como presidente do conselho de administração da Fundação CCB. Sabe-se que Moura pretende dar um ar da sua graça logo a abrir o discurso:
_ ‘(…) podemos enumerar: a natureza calaceira dos portugueses; o seu feitio de incumpridores relapsos; a sua irresponsabilidade nas exigências desenfreadas; o corporativismo imperante nos sectores sócio-profissionais [sic]; os péssimos níveis de qualificação escolar e profissional; a iliteracia generalizada e irremediável; uma certa propensão para a estupidez e a crendice fácil que explica algumas vitórias eleitorais socialistas; a desagregação e desprestígio de todos os sistemas de autoridade democrática; o arrastamento intolerável da administração da justiça que nos torna uma vil caricatura do Estado de Direito; a neutralização do papel das famílias que são cada vez menos as células-base da sociedade; a falta de coragem e discernimento de alguns sectores da classe política, que não sabem pensar a mais de três meses de prazo e sempre de olho posto na comunicação social... Enfim, a juntar a isto, a crise de todos os valores éticos, identitários e culturais, o espírito de eleitoralismo permanente em que os detentores do poder político nvivem, dos governantes aos autarcas, a pilhagem do aparelho de Estado pelos boys, a promiscuidade entre os grandes interesses económicos e a actividade política - e estou longe de ter esgotado um quadro que nos transformou num país sem alternativas e sem saída.

O regime democrático deveria aprender a pensar-se a partir da única metáfora que seria válida para o mudar nas eleições: a vassourada. Mas talvez ninguém ouse fazê-lo, porque os arranjinhos, os compadrios, o nacional-porreirismo, a falta de nervo, intervêm infalivelmente num país que não chegou a consolidar-se como comunitário e agora enfrenta uma Europa de construção cada vez mais problemática. (…) Portugal está uma porcaria.”

 

E, já agora, fique-se a conhecer o parágrafo final do discurso de Moura, onde volta a dar um ar da sua graça: “A vida dos portugueses é, e vai continuar a ser, uma verdadeira trampa, mas eles acabam de mostrar que preferem chafurdar na porcaria a encontrar soluções verdadeiras, competentes, dignas e limpas. A democracia é assim. Terão o que merecem e é muitíssimo bem feito.”

É esta a escolha da maioria para o CCB.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 




Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
AIROSA E FORMOSINHA

Andrea Kowch, Chris Beck

 

Através de Rui Effe, «estória» reinventada que desconhecia.

 

_ “Era uma vez uma Carochinha muito pretinha e muito luzidia que andava numa dobadoira a arrumar a cozinha. Qual não foi o seu espanto quando achou cinco réis, muito novinhos e amarelinhos.

Carochinha, começou a pular de contente. Depois, acabou de arrumar tudo muito bem arrumadinho, tirou o avental, compôs o vestido preto e foi pôr-se à janela, perguntando a quem passava:

- Quem quer casar com a Carochinha que é airosa e formosinha?

Neste momento passou por ali um porco do Alentejo, muito gordo e bem tratado, que grunhiu duas vezes:

- Quero eu, quero eu.

- Que é que tu comes? – perguntou a Carochinha que era muito lambareira.

- O que Deus dá, - respondeu o porco, que realmente tinha muito boa boca.

- Não me serves, - retorquiu a Carochinha, fazendo um amuo de enfado.

O porco pôs o focinho no chão, muito envergonhado e aborrecido, e foi-se embora.

- Quem quer casar com a Carochinha, que é airosa e formosinha?

- Quero eu, - respondeu o Gato das Botas das Sete Léguas, fazendo uma grande reverência à Carochinha.

- Que é que tu comes?

- Como tudo o que Deus dá, tendo certa preferência pelos carapaus pequeninos.

- Puf! Não me serves. Espero que Deus me há-de dar um marido mais fino do que tu.

O Gato das Botas das Sete Léguas espetou as orelhas, deu à cauda em sinal de despeito, e foi-se embora furioso.

Volta a Carochinha a perguntar:

- Quem quer casar com a Carochinha que é airosa e formosinha?

- Quero eu, - respondeu no seu vozeirão forte, um boi que ia puxar à nora.

- Que é que tu comes? – perguntou a gulosa da Carochinha.

- Como palha, feno, ervas, enfim tudo o que Deus dá para nosso sustento.

- Hum! Não me serves! Quero marido mais delicado do que tu.

O boi que era muito bonacheirão foi ruminando com a palha e as ervas que comera, estas palavras, muito sensatas:

- Forte tola! Deus me livre de tal mulherzinha!

- Quem quer casar com a Carochinha, que é airosa e formosinha? – esganiçou-se a perguntar a presumida da Carocha.

- Quero eu, - respondeu um ladino coelho, que ia a correr para um prado.

- Tu és muito bonito, - disse a Carochinha, a olhar para o pêlo lustroso do coelho. – O que é que comes?

- Ah! minha linda Carocha! Como ervas tenrinhas, troços de couves, cenouras…

A Carochinha fez uma careta de aborrecimento e despediu o coelhinho com estas enfadadas palavras:

- Que porcaria de comida! O meu marido há-de ser uma criatura de gostos mais finos.

O coelhinho que era muito garoto fez uma careta à Carochinha e, pernas para que te quero, aí vai ele até ao prado, onde saboreou uma rica erva que lá existia.

A Carocha, já muito arreliada, tornou a perguntar, esganiçando-se cada vez mais:

- Quem quer casar com a Carochinha, que é airosa e formosinha?

- Quero eu, - disse de além um ratinho de olhitos pretos e vivos, e de orelhas espetadas.

- Que é que tu comes?

- Ora o que há-de ser? Tudo o que é bom e que está nas despensas dos ricos: bom presunto, belo queijo, chouriços, paios, fiambre, toucinho entremeado, carne assada, muito tenrinha…

- Que rico marido eu encontrei, - respondeu radiante a nossa lambareira Carochinha.

Combinado o casamento, fez-se uma festa de truz. Houve um jantar tão cheio de petiscos e iguarias, que toda a bicharada dele falou durante muito tempo.

No Domingo, Carochinha vestiu o seu vestido de cetim preto, pôs um chapeuzinho impertinente com duas aigretes pretas e, toda vaidosa, foi à missa com o marido.

No meio do caminho, Carochinha, reparou que não tinha trazido as luvas. Tolinha como era, ficou muito arreliada com o caso. «O que iriam
pensar dela os bichos da vizinhança?»
Uma senhora tão ilustre sem luvas! O João Ratão – era este o nome do marido da Carochinha – logo, todo
amável, voltou atrás a buscá-las.

Abriu a porta da sua casinha, e o seu paladar foi tentado, pelo rico cheirinho que se espalhava pela casa toda. Um cheirinho a toucinho que era mesmo um regalo. Com a boca cheia de água, o nosso amigo aí vai, já esquecido das luvas, até à panela que fervia em lume brando. João Ratão, destapou a panela e, gulosamente, meteu a mão para tirar um pedacinho do tentador toucinho mas, com tanta infelicidade o fez, que escorregou e caiu dentro da panela.

Carochinha esperou, esperou impacientemente, bateu o seu pézito calçado com botinha de verniz preto e, furiosa, foi a casa pronta a zangar-se com o João Ratão por a ter feito esperar tanto tempo.

Chegou lá e o coração deu-lhe um baque. A panela destapada, fazia com que se espalhasse pelo ar um cheiro a toucinho e a rato cozido.

Ah! o pobre João Ratão fora vítima da sua gulodice! Má hora aquela em que quisera casar com um guloso.

Talvez tivesse sido mais feliz se houvesse casado com um dos primeiros pretendentes: o porco, o gato, o boi… Todos tão simples, e tão frugais que se contentavam com qualquer comida.

Carochinha sentou-se num banquinho da cozinha, lavada em lágrimas. O banco, apesar de ser de pau, lá se comoveu com a sorte da Carochinha, e perguntou-lhe por que estava triste.

- Ora por que há-se ser, meu amigo? É que morreu o meu João Ratão.

- Então eu para compartilhar do teu desgosto, vou-me partir.

E bumba, o banco partiu-se e atirou com a Carochinha de pernas para o ar. Lá ficou a pobrezita deitada de costas a lamentar aquela triste ideia do banco. «Partir-se para quê? Longe de remediar o seu mal, ainda por cima a deixava de costas, numa posição tão incómoda e de que custava tanto
libertar-se.»

Após muitos esforços, conseguiu colocar-se na sua posição habitual e foi esconder-se atrás duma porta, para chorar à vontade a sua dor, sem ninguém a incomodar.

A porta, porém, apercebeu-se das lágrimas da Carochinha, e perguntou-lhe o que tinha.

- Valha-me Deus! Morreu o meu João Ratão.

- Pobre de ti! Quero acompanhar-te na tua mágoa. Vou-me pôr a abrir e a fechar; os meus gonzos chiarão e será esse o meu choro.

Mal dissera aquilo, a porta pôs-se a abrir e a fechar, e a Carochinha, se não desse um pulo, morria esmigalhada.

- Esta só pelo mafarrico! Para que quererão os outros partilhar, aparentemente, uma dor que não é sua?

Carochinha saiu de casa, pensando que ao ar livre estaria melhor. Foi sentar-se à sombra duma nogueira e começou a soluçar baixinho:

- Morreu o meu João Ratão!

A árvore que isto ouviu, pôs-se logo a lamentar a sorte da pobre Carocha e, querendo manifestar-lhe a sua pena, começou a deixar cair sobre ela todas as nozes que tinha. Algumas magoaram bastante a pobrezita que, foi a correr pelos campos fora, sem ânimo para chorar a morte do seu João Ratão, não fossem outras coisas condoer-se da sua desdita e molestá-la mais ainda.

 

Fonte aqui

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
DITOS E «BOCAS»

 

Autor que não foi possível identificar, Tim Obrien

 

Não resisto a transcrever uma pérola do livro “O Medo do Insucesso Nacional” cujo autor é o actual Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira. «Durante séculos, a majestosa cidade de Braga especializou-se na produção de um produto: padres. Basta percorrer as monumentais ruas da cidade para perceber a importância que a religião e a Igreja Católica têm para a região. São edifícios e mais edifícios (muitos deles de grande dimensão) dedicados à produção e formação de sacerdotes. Hoje em dia, a indústria de produção de sacerdotes bracarenses está em declínio”. (…) Porquê? (…) A grande causa do declínio da Igreja Católica em Portugal é simplesmente a falta de competitividade. A indústria de produção de padres perdeu competitividade, pois os custos de produção de novos sacerdotes são demasiado altos e o preço do sacerdócio é extremamente elevado.»

 

Outra afirmação, esta não me surpreendeu, de Otelo Saraiva de Carvalho: _ "O desagrado popular pode conduzir a um golpe de Estado pelos militares, mas, não havendo condições para isso, dependerá dos efeitos da nova lei geral do trabalho." Probabilidade remota e coisa e tal, não estivessem convertidos em yuppies com galões as médias e altas patentes militares que, duvido, trocassem carreira de mandadores pela entrega do poder aos civis. Também estes, sem dinheiro para cravos, não passariam pelo mesmo filme duas vezes, ou não reagissem apenas sob emoção obediente pelas subserviências genéticas.

 

Com 36 anos morreu no dia 19 de Janeiro de 1982. Foi a melhor intérprete de sempre da música brasileira. Seu nome: Elis Regina.

 

CAFÉ DA MANHÃ

                                                                                             Elucidativo e sem nada a opor através de António Eça de Queiroz




Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
IMPOSTURA OU HISTÓRA VERA?

Allan Omarra, autor que não foi possível identificar

 

Fins mal sustentados por provas de personagens com relevo mundial sempre originaram debates entre especialistas, publicações muitas, garantia de interesse por milhões. A morte de Hitler e Eva Braun, como outras, não escapam ao costume. Par de historiadores retomou o tema e o livro “Lobo Cinzento: A Fuga de Adolf Hitler” está nas bancas.

 

A parte sumarenta da obra especula – os autores afirmam provar indubitavelmente - que o casal não se suicidou no bunker berlinense, antes fugiu num submarino alemão. A fuga terá sido preparada com antecedência auxiliada pelos serviços secretos americanos associados ao General Franco tendo como base o acesso à tecnologia nazi. Duplos terão substituído Hitler e Eva Braun nos dias anteriores à queda do regime, permitindo que embarcassem com passagens pela Dinamarca e Espanha. Posteriormente, outro submarino conduzi-los-ia de Espanha até Mar del Plata na Argentina. Ali terão vivido com as duas filhas, divorciado, e aos 62 anos faleceu o responsável último pelo holocausto.

 

Defendem Williams e Dunstan: _ “Não há provas forenses que comprovem a morte do casal e os relatos de testemunhas que confirmam a sua presença na Argentina são extremamente excitantes. As ossadas que alegadamente pertencem a Hitler (e se encontram hoje na Rússia) são de uma mulher de 40 anos, quando Hitler teria, à data da morte, 56 anos.” Guy Walters, respeitado historiador, ridiculariza a tese. Em que ficamos nós, meros leitores? _ Como estávamos, excepto mais enrodilhados os neurónios. Que o livro propicia serões entretidos é certeza.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
PORQUE NÃO ADORNA A MÁFIA PORTUGUESA?

Autores que não foi possível identificar

 

Desapareceu a meia hora extra, ficaram reduzidas férias, punidas faltas que as «pontes» estimulam nos trabalhadores. Aplaudo estes pontos do projecto da nova “Lei Laboral” a bem do acréscimo da tal «coisa» chamada competitividade, conquanto outros de que dei conta en passant,
menor protecção do trabalho seja exemplo, entenda lesivos dos interesses dos assalariados. Serei naïff, mas as medidas citadas primeiro fazem sentido no navegar deste ‘Costa’ nacional com dez milhões de pessoas a bordo antes que adorne como o outro. Na história recente, alguns dos nossos comandantes eleitos também fugiram como ratos sempre que o navio se aprestava a ir ao fundo. Diferença fundamental com o comandante do ‘Costa’ é não terem espreitado o Sol entre grades devido às malfeitorias assassinas contra povo atavicamente indefeso.

 

Surpresa foi saber pronunciada por juiz do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa a ex-Ministra da Educação. O caso insere-se num “ comunicado emitido há meses pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, os quatro funcionários foram acusados por despacho datado de 15 de Junho do ano passado. “Os factos suficientemente indiciados são relativos à adjudicação directa de vários contratos nos anos de 2005, 2006 e 2007 ao arguido professor universitário, com violação das regras do regime da contratação pública para aquisição de bens e serviços”, lia-se na nota. “ Tais adjudicações”, acrescenta-se, “não tinham fundamento, traduzindo-se num meio ilícito de beneficiar patrimonialmente o arguido professor com prejuízo para o erário público, do que os arguidos estavam cientes”. A fonte refere ainda estar em causa “o facto de a ex-governante, actual presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), ter, no exercício das suas funções, estado envolvida na contratação do irmão de Paulo Pedroso para o “beneficiar patrimonialmente”, provocando desta forma um “prejuízo para o erário público. O crime é punido com pena de prisão entre dois e oito anos.” Foram também acusados de co-autores da prevaricação a antiga chefe de gabinete, Maria José Matos Morgado, e o então secretário-geral do ministério, João Silva Baptista.

 

A estes feios relatos do quotidiano português tenho, no que ao SPNI concerne, duas reacções: ou a escrita deambula por eles e denuncio, ou simulo ignorar sem tolher outras reflexões mais apetecíveis. Uma «seca» esta máfia portuguesa!

 

Razão tem o Rui Bebiano: "Na cerimónia de inauguração do 'Costa Concordia' a garrafa de champanhe não se partiu. Quando assim acontes, diz a voz do povo que o navio não vai ter sorte. Entretanto, no "Filme Socialismo do Godard, filmado  em grande parte no 'Costa', falava-se metaforicamente ndo fim do capitalismo e desta Europa política que se afunda. Pelos vistos anda tudo ligado! E que las hay..."

 

Esta outra de Joaquim Alexandre Rodrigues também está do melhor: _”O Prós e Prós está a debitar de Luanda. Caso para perguntar: quando vão a Angola, os vips portugueses vão ensinar mais do que aprender ou vão aprender mais do que ensinar?”

 

Para terminar, escreveu o estimado António Eça de Queiroz a propósito duma notícia da NASA sobre ‘UFOS’: _ “Os do Terreiro do Poço são Umanos Foleiros Ó... (UFÓ's).”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
O DIABO VERMELHO

Vladimir Kush, David Ligare

 

A literatura, quando de qualidade, é fonte de ensinamentos que duram para lá do tempo em que foram. Prova-o este “Diálogo entre Colbert e Mazarino, durante o reinado de Luís XIV, extraído da peça de teatro Le Diable Rouge, de Antoine Rault” que adaptei aqui e ali:

 

"Colbert: _ Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...
Mazarino: _ Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: _ Ah sim? O Senhor acha isso mesmo? Contudo, precisamos de dinheiro. E como havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: _ Criam-se outros.
Colbert: _ Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: _ Sim, é impossível.
Colbert: _ E então os ricos?
Mazarino: _ Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: _ Então como havemos de fazer?
Mazarino: _ Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais!Esses, quanto mais tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório
inesgotável."

 

Numa dezena de «tiradas», os princípios básicos da exploração que nos sujeita e traz acabrunhados. Assim era. Assim será? _ Não creio. Em
2010, 25% das transacções escaparam ao fisco. A percentagem subiu devido ao aumento do IVA. Cerca de quarenta mil milhões de euros são o valor da actual economia paralela. Com isto e mais se desmente parte da argumentação de Mazarino. Nova ordem social terá de ressuscitar parte substantiva deste mundo agonizante.

 

Nota: origem do excerto aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Domingo, 15 de Janeiro de 2012
ESCULTURA, TEJO, BOTÂNICA E MAIS

 

 

Para quem gosta de Arte Sacra, a temporária do Museu de Arte Antiga é mimo raro. “Cuerpos de Dolor – A Imagem do Sagrado na Escultura Espanhola” está patente até 25 de Março e é excelentemente guiada. Difícil destacar as que mais me tocaram. Num esforçado exercício de memória, a Virgem das Dores de José de Mora, a sensualidade de Santa Maria Egipcíaca de Luis Salvador Carmona, o Santo Antão de Benito da Silveira, o São Francisco cujo autor não recordo – deste, tive a agradável surpresa de possuir um das muitas cópias realizadas no século XVIII que na casa da Beira Alta recolhe o silêncio de hoje.

 

Porque adiar visita significa as mais das vezes não a fazer, este domingo cinza pede mais beleza que a sumida pelo Sol avarento.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




pseminveja@hotmail.com

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