Sábado, 19 de Maio de 2012
POR JOSÉ MANUEL FERNANDES

Domen Lombergar

 

ACORDO ORTOGRÁFICO

 

“Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam.

Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas.
É um fato que não se pronunciam .
Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se?
O que estão lá a fazer?
Aliás, o qe estão lá a fazer?
Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra.
Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s” ?
Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç” .

Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”.

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z”. Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”.

Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nadade “k”. Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som “ch”. O som “ch” será reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa.

Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”. Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural.

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu? Para qê qomplicar ?!? Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra mud a qe eliminamox.

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam! Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia. É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso!

qe é qe temux o “u”? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu. Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i”. I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”.

Sempre. Simplex i sem qompliqasõex.

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx” . Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu.

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?"

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 08:35
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
INDO A CONTAS

Ron Pfister

 

Vamos a contas. Os reformados da função pública e de outras entidades descontaram catorze meses ao longo da sua carreira contributiva. Fizeram-no com a justa expetativa de quando aposentados receberem na proporção equivalente ao descontado. Mas não. São remunerados apenas dúzia de meses, ficando dois para a má gestão pública. No extremo da linha de pesca dos logros, a vaga promessa governamental de em 2018 talvez a reposição fraccionada do direito por ora retirado. Para ato destes existe palavra significativa: roubo. Mais elaborado, Bagão Félix designa-o por confisco. Bem adivinhava que numa qualquer reviravolta do senhor ainda acabaria por lhe dar razão.

 

Piorando – Manuela Ferreira Leite, a tal senhora dura como granito e outrora tão azeda como hoje a Frau Merkel, assumiu que a insensibilidade social está a gerar alterações conducentes ao aparecimento de novos pobres cujo levantar económico será tardio ou impossível. Não sendo novidade que é chaga sem panaceia à vista, surpreende que quem orbita na orla do poder vigente o censure.

 

Como qualquer ponto requer nó, ambas as declarações devem pingar água do bico. Pelos antecedentes nacionais, o pobre desconfia.

 

Aplauso merece François Hollande pelas decisões primeiras do novo Governo francês: 30% de redução no salário do Presidente e dos ministros, regresso da possibilidade de reforma aos sessenta anos a partir de Junho, embora sob condições por definir. A ver vamos.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Quinta-feira, 17 de Maio de 2012
ARENGA

Jean-Pierre Gibrat

 

Somos rápidos no julgar dos comportamentos alheios. A natural interrogação que assalta após atitude humana por entender soe estar em proporcionalidade direta com implícita condenação. Aconselhável seria, e para mim deixo o recado, esperar até candeia ou luz a jorros iluminar o obscuro.

 

Vem a arenga a propósito do intervalo de tempo em que não tive nem tenho, por enquanto, possibilidade de responder, ainda que nem um fique por ler, aos comentários generosamente deixados no SPNI. Sendo a mudança ingrediente das vidas, épocas existem mais folgadas nas atividades essenciais, outras em que as prioridades tomam, de súbito, rumos inesperados. Penosos alguns deles. Como é o caso.

 

Pergunta legítima a interpor é qual a razão de manter este espaço renovado diariamente, ainda que ventos pessoais o agridam. É a esperança de tempo outro chegar, o carinho reservado a quem o visita que alicerçam a continuidade. Da vida teimo em esperar sempre o melhor. E chega e é recebido como sorriso da madrugada em tons de malva no estio.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Este vídeo, aparentemente lamechas, merece alguma atenção.

 




Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
ENTRE RAIOS E CORISCOS

Edgar Mendoza Mancillas

 

Houve entrega de dossiês ardentes por Sarko, apertos de mão entre o ex e o atual presidente francês, a despedida do casal deposto com sorrisos pálidos e adeuses tímidos da Bruni.

 

Entre raios e coriscos, após a entronização de François Hollande, segue o homem aoencontro da ácida senhora Merkl cujo fácies avinagrado nunca conhecera pessoalmente. Objetivo: _ O costumado que, bem espremido, nenhum sumo favorável aos cidadãos europeus ainda gotejou. No entretanto, a Grécia com as orelhas a arder pela conversa do novo par cimeiro desta Europa em ruína continua sem âncora ou rumo no caldo partidário onde se afunda. Culpa dos gregos? _ Não! Antes a consequência inevitável dum povo que de abúlico nada tem e transpira revolta pelo longo estrangulamento económico.

 

Também os portugueses andam gregos com as traquinices dos «tróikos». Espanhóis e italianos, o mesmo. E a França que tenha a fineza de desistir de se armar em exemplo mandão pois é sabido o desastre da falta de emprego cada vez mais desocupando o povo.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Terça-feira, 15 de Maio de 2012
"DÊ GASÓLEO"

 

Barry, Barclay

 

Bombeiros a vender rifas nos semáforos envolvem-se em confrontos com marinheiros a pedir gasóleo para submarinos

Por Mário Botequilha

 

Vários cruzamentos com semáforos, nas principais cidades portuguesas, foram hoje palcos de violentos confrontos entre bombeiros, marinheiros, veteranos de guerra, exército de salvação, vendedores de pensos rápidos e um ex-chefe da secreta que estava a oferecer relatórios sigilosos do SIED aos automobilistas.

 

Marinheiros, fuzileiros e o ministro Aguiar Branco reagiram, deste modo, à notícia de hoje de que os submarinos Tridente e Arpão estão parados por falta de combustível. As forças da Marinha tentaram abancar nos melhores locais para promover agressivamente a campanha “Dê gasóleo. Pergunte-me como.”.

 

Os bombeiros, que vendiam rifas para comprarem uma ambulância e um espremedor de citrinos, não cederam terreno e acabaram por triunfar com a chegada de reforços dos distribuidores de jornais gratuitos e de dois lavadores de pára-brisas veteranos da Chechénia e do túnel da Luz. MB

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
MAIS DO QUE O DITO

Henryk Fantazos

 

Saudades do levantar de pano que abra a boca de cena. Saudades da expectativa no instante em que os atores iniciam transposição para outras vidas. Saudades de pantominas e teatro de rua. Saudades das emoções que a ópera transmite na maravilha de artes várias conjugadas. Saudades de um concerto, do cerrar de olhos para que somente música seja inspirada e vista dentro - porque a música também alimenta os olhos da consciência. Saudades de mais bailado. Saudades da tela branca no cavalete, do cheiro dos óleos e das misturas que entre si darão forma ao imaginado. Saudades de mais vida.

 

Mergulhar em quotidianos gastos é tentadoramente fácil. Não encontrar motivos pessoais para que o espírito beba de fontes diversas, também. E se os habitantes no interior do país lamentam a escassez de oferta cultural, nas duas grandes urbes que temos onde maioritariamente está concentrada, quem lá vive quantas vezes esquece a variedade do que pode fruir. Aferrolhada no trabalho, havendo, e na casa, na «crise» com cêntimos contados, lateraliza os espetáculos gratuitos oferecidos nestas e noutras cidades. Sobreviver é isto. Viver com alguma qualidade é coisa outra que passa por mais do que ficou dito.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 13:57
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Domingo, 13 de Maio de 2012
MERCADOS

~

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 10:53
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Sábado, 12 de Maio de 2012
NA CORDA BAMBA


Eric Zener

 

Partiu Bernardo Sassetti. Fim precoce para um homem que à música portuguesa tando deu. Fim solitário como quase todos. Tragédia com explicação como quase todas.

 

Na corda bamba da vida, o caminho do músico e compositor terminou. Ficam legados: memórias, obra feita, família hoje derrotada, de breu pelo luto. Amanhã os amores que ficaram progredirão no seu caminho da instabilidade quotidiana. Num dia sem marca no calendário, a esperança chega. Regressarão sorrisos. A tela da vida adquirirá colorido sem que o esquecimento do homem se fine.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 09:15
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
LUTAR É OBRIGAÇÃO

Baseado numa obra de William Bouguereau

 

Falseia a meteorologia, destrói expectativas de sol e mar. Também a vida se encarrega de desmoronar projetos quotidianos que nos do amanhã apenas é certo continuar a degradação social do povo onde somos, esteja cada indivíduo ainda presente ao cimo da Terra ou não.

 

Chegando a degradação pessoal devido a doença insidiosa que o ser transforma, Alzheimer é o caso, engasta na alma dos familiares dor constante. Assistir às mudanças de atitude, às capacidades decrescentes, ao pensamento tornado errático, ao sofrimento do próprio nos parcos momentos de lucidez onde consciencializa o vestígio do passado em que se transformou, é mágoa para os cuidadores.

 

Pela certeza de ausência de melhoria no estado do paciente, os afetos com memórias do ontem e coração repleto de amor pelo doente, correm perigos: resvalar para uma tristeza sem fim, para incapacidade de levar em frente o quotidiano com aparente normalidade. Esvai-se a alegria. Diminuem os momentos felizes. Omissa a vontade de fruir de tempo a só não se interponha crise no entretanto. Lutar contra tudo isto é também obrigação do cuidador familiar.

 

E o nosso amor presente/ausente torna-se num anjo urbano planando acima de nós.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 11:40
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
LAMBIDO O SAL DO COPO

Autor que não foi possível identificar

 

   Podia não ter sido cabra. Mas queria. Foi. Havia escrito o guião do a seguir. Odiava a injustiça. Mais ainda quando de si dava o melhor. Que a condenassem por maus desempenhos, aceitava. Não que precisasse do juízo alheio pela consciência, trabalhada com cinzel implacável no desbaste da matéria bruta, que esculpia dura crítica para si reservada.

   Ao snobismo dos emergentes estava habituada. Que se contivessem. Que não fossem biltres. Que não reproduzissem, pior, o André Cavaleiro descrito na “Ilustre Casa de Ramires”. Podiam agitar as crinas das excelentes montadas «bê emes», «audis» ou topos de gama. Surdamente, repetia com o Eça:
_ Que diabo!, não encontram outro lugar para “encaracolar a pileca”?

  Mesmo quando a pileca tinha cilindrada a menos para ego a mais, o encaracolar irritava-a _ a meia-tigela pretensiosa é tão execrável como a tigela inteira desmentida pelo estar. Andrés Cavaleiros abundam nas artes e ofícios. Identificava-os para cima de um par de léguas bem medidas.

   Sabia ao que ia. Era de artes a noite. Ambiente restrito. Jantar sem história. Medíocre _ obviamente pelintras os acenos das postas de pescada. Cavaqueira depois. Haveria copos e charros passando de boca em boca. Haveria arrotos intelectuais. Básicos da Zara na forma de dizeres. Tudo ouviria lembrando a noite em que fora anfitriã abusada por convidados. Supostos polidos inteligentes e que ignorava burgessos. Logo ela, tão reservada no franquear da porta do apartamento, admitira conhecidos amigos de amiga. Desgraçaram-lhe o serão. Às cinco da manhã, Andrés Cavaleiros saídos, ainda enfiava copos na máquina da loiça e desfazia detritos coisas e mentais. Biltres até nos vestígios.

   Colou à pele dourada brilho e, bem acima do joelho, plissado castanho. Enfiou os pés nas chinelas com saltos himalaicos. No saco mais que mala, pesos ociosos, indispensáveis. Também, enrolado, tapa frio mínimo. A disposição guerrilheira da alma na forma de sorriso e cabelo e unhas cuidadas. Máscara deliberada. Odiava-se naquele modo. Mas era chegado o tempo de tirar do frio o copo gelado onde verteria dignidade e orgulho que, no desempenho da anfitriã perfeita, não lhe havia sobrado disposição para encher.

    Improvisou – detestava obedecer a planos de autor, mesmo sendo dela os direitos (i)legais. Falaram de pintura. Com perversidade e meia dúzia de lérias, derrotou a superficialidade dos que recebera com afabilidade genuína. Mencionaram museus. Cidades repartidas pelo mundo. Conhecia-os e conhecia-as melhor. Podiam ter escolhido referências, e tantas havia!, que ignorava. Mas os melros que eles vomitavam punham-se a jeito dos tiros. Dela. Não falhou um. Quando ferida injustamente, afinava a pontaria que no quotidiano esquecia.

   Lambido o sal do copo, abandonou-os. Sabia terem visitado a performance/instalação duma Luísa outra que desconheciam. Que existia.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
MEMÓRIA

Gustave Courbet

 

De cabalística não sou maskilim e pouco sei além do mistério emprestado ao sete e ao nove. Nela me iniciei às voltas na Regaleira e por ficções de credibilidade duvidosa. Dizem ser o três número mágico – a família clássica confortada pela primeira maternidade, o tempo humano traduzido pelo presente, passado e futuro, o mínimo de pernas para suportar mesa ou assento, a base transgressora da pluralidade nas fantasias eróticas, a conta que Deus fez.

 

Terá sido o acaso ou um capricho da fortuna que nos angulou a geometria? Na ausência da malvasia – casta louvada por Shakespeare –, a mistura de tequila e cointreau se à eloquência do discurso pouco acresceu, soltou as emoções. Desprendeu a fala. Quebrou as rédeas do riso. Restituiu à liberdade os gestos. Não que o embaraço fora previsto – no quotidiano justapunha-mos as vidas. À beira das águas mansas do Tejo, e antes do na tua, na dele ou na minha, abrimos portas à volatilidade das intenções. Não nos satisfez o resguardo meticuloso do passado, o presente arrumadinho, a embalagem conformada ao peso e à medida rígida da expedição postal, o fazer adiado para amanhã que pode nem chegar. Da noite a cumplicidade. Da maresia o odor. Do sal o deleite. E acordámos na frase puída - os “(a)casos” podem não ter finais felizes, mas os começos... Ah, esses!... Felizes são.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Terça-feira, 8 de Maio de 2012
SEM TEMPO

Mihai Criste

 

Bufam autocarros de rolar pesado, apitam condutores desabridos e desavindos com a pressa ou a dolência dos outros, agoiram dramas os sonoros avisos das ambulâncias, roncam ziguezagues as motas no caldo motorizado das vias urbanas. O «encarnado» impacienta pelo vagar, o «verde» angustia por ser curto demais, o amarelo pisca o olho aos peritos em «verde-tinto» - dele conhecem os segundos permitidos ao acelerador. Chiam travões nas passadeiras, rosna a subespécie humana promovida a condutor poderoso que os peões julga detritos dos escoadouros viários. E há o fumar-chupado de um cigarro, a beata largada pela janela, o tamborilar dos dedos no volante ao ritmo da ânsia pela chegada, as notícias e a falta-delas e a música e a patética voz (des)animada do locutor que a sintonia baba e a trauteada leitura do CD – quantas vezes raivosa, quantas entediada. E ao mecânico e rigoroso pulsar do tempo a subjetividade do indivíduo chama mentirosa.

 

Quem do tempo requer tempo para o tempo diário de «ser», começa por fruir desse tempo nos tempos que diria mortos. Sai mais cedo que a pressa. Ao volante, caindo o proibido-avançar, atenta nos enfeites da manhã, em detalhes da arquitetura que o hábito esqueceu. Ouve a cacofonia exterior como o respirar da vida, ou evita-a, cerrando os vidros, para deleite de música harmónica com o instante do «eu». E se é neutro ou soalheiro ou húmido ou frio o dia, quem ama o tempo dele ama e respeita o diverso. Aproveita a consciência do inexorável pulsar atómico para desfrutar do segundo que, ao pensá-lo, já passou.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 11:21
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
BONNE(?) VIEILLE EUROPE

Autor que não foi possível identificar, Alex Khrapko

 

Feliz, sim, com os resultados eleitorais em França. Desaparece o Nicolas, soyez le bienvenu François Hollande! Concedo ter sido digna a despedida de Sarko. Eufórica a celebração de François que lembra homónimo com apelido Mitterrand e tem como mentor. Dizem línguas viperinas que não fora a transformação por especialistas norte-americanos de mercado do ex-cinzento Hollande numa figura correspondente ao respetivo pensar e objetivo de vencer as presidenciais, o Sarko e a Bruni continuariam no Eliseu.

 

É extraordinário como os povos configuram numa personalidade a resolução de todos os problemas que o afligem. Mas o direito à esperança existe. Mas é legítimo que nesta Europa conjugada, até agora a duas vozes – Sarkozy e a da Merkl que de angelical nada tem – outras se ‘alevantem’ e ajam de modo diferente na condução desta bonne(?) vieille Europe.

 

Pelas eleições francesas, as gregas ficaram desfocadas. Na Grécia, o caldo resultante talvez comporte novidade. É na espera que navegaremos até o concreto surgir. Vale saber que «troiquices» não desfiguram a natura grega do azul mediterrânico e branco.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Domingo, 6 de Maio de 2012
MÃES NO MUNDO

Autor que não foi possível identificar, Nguyen Dinh Dang

Janice Huse, Agnès Boulery

Nancy Tilles e autor que não foi possível identificar

 

Que vida florida proteja todas as mães do mundo!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 




Sábado, 5 de Maio de 2012
PORTADAS SENTIDAS

Edward Gordon

 

Janelas. Vida dentro e além das vidraças. Que omite. O silêncio. O tesouro. A paz. Economia na dispersão da consciência que acorda devagar. A solitude quando a casa ainda dorme. Casa outra porque o sossego pinta-a e difere da que aloja o rolar das horas. Gozar. Atentar no prazer de senti-la respirando tranquilamente ao ritmo próprio. Sem passos que a perturbem. Sem dar conta da luz coada que pintalga cadeirões em seus cantos, plantas floridas que no interior das portas-janelas se embriagam com ela. A mulher abre a janela, debruça-se sobre a rua onde o pavimento nada regista. Pegadas em falta de gentes ou automóveis. E ela continua apoiada no peitoril. Inspira a serenidade da manhã. E observa o plátano adolescente plantado no recorte do passeio cujas folhas coloridas pelo verde único primaveril despontam a «olhos vistos». E deixa as portadas abertas. E escreve o sentido. Feliz.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 



publicado por Teresa C. às 10:22
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