Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

SOBRINHA E COMPINCHAS

Teresa C. e Abel Manta

 

Não foi ali que nasceu. Habitada por tias solteiras, mui pias, que nas férias diversas a mimavam - até aos cinco anos enrolavam caracóis desordenados em canudos; anos depois, cruzavam tranças castanho-escuro, serviam almoços saídos do forno a lenha, merendas com pão de trigo, centeio sem mistura, fatiado na hora, com manteiga, cozido no forno comunitário por mulher sabedora e diligente, queijo da serra, compotas e marmelada caseiras. E recusava sesta, prometia baixo o volume de som das risadas e gritos contentes, evitava juras de não andar descalça na terra fofa e grávida de bens. Ansiava pelo silêncio, moldura do sono das ancestrais, como silencioso chamamento da liberdade precária por três horas. Pelas cinco, regressavam normas e interditos, a merenda na sala de estar que agradasse à sobrinha e compinchas - leite com canela, limonada e o mais antes descrito. Com desgosto, a catraia ficava só. No baloiço dependurado na nogueira do jardim traseiro, alma cheia, lia e sonhava. 

 

Pelas sete da tarde estival, regressava à liberdade tolerante do granito dos avós. Às quintas, dia de mercado na Vila, era entregue à vigilância permissiva das empregadas. Com as meninas filhas dos trinta e dois afilhados da avó, na maioria pobres ou com remedeio pouco, trabalhadores unidos por afecto à matriarca bondosa que fazia missão de vida encaminhar para futuros risonhos quem dela dependia, a garota saltava de penedo em penedo na ribeira bordada por margens de floresta, caía e encharcava os vestidos de folhos que serviam de bóia, secava-os a caminho do forno comunitário pedindo por ‘mor de Deus’ centeio e azeitonas. As forneiras riam. Benesses concedidas por acharem graça à miúda mais rural que todas, sazonalmente arribada da cidade grande que raras conheciam. Na criança, viam espontaneidade sem porquês. Talvez razão/fundamento para afectuosas memórias e sorrisos a cada reencontro.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:29
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
14 comentários:
De Veneno C. a 18 de Maio de 2011
Chegada à glória, de braço dado com o AM, só nos deixa baralhados pela dúvida, quem fez o quê? E por outras, como sejam, se uma for 'Vista da cidade de Viseu' a outra é...

E ainda, a Teresa C. pinta? Desde quando? Expõe? Onde? Dados biográficos?

E a propósito, ou não muito?, recordemos o sucessor JAM (dos sete ofícios?)

«Em 1970, com predomínio da fotomontagem, testemunha-se a invasão dos "turistas", assim como a presença de fantasmas do nosso passado no país de opereta.
Em 1971, colaborando com José Cardoso Pires, parte em «Peregrinação pelos territórios da comarca em demanda do BURRO-EM-PÉ, personagem difusa e muito local, mas difícil de apreender em razão das rebeldias e dos caprichos que oculta sob o martirizado pêlo da resignação». É uma viagem gráfico-satírica por este país de surrealismo. Deste ano são também várias experiências abstratizantes, em paródia pelo absurdo.
Em 1972 o jogo humorístico, com o desenvolvimento da cor, da colagem, da abstracção, atinge um dos momentos mais altos da intervenção irónica que, apesar de menos incisiva que outros trabalhos anteriores e posteriores, o leva ao confronto com a lei. Em causa esteve o "poster" Festival, onde havia uma utilização da bandeira para o humor, e que foi publicado a 11 de Novembro de 1972. Dois dias depois o desenho foi denunciado pelo jornal "Época", o órgão da A.N.P., levantando-se consequentemente um processo-crime.»

http://humorgrafe.blogspot.com/2008/01/joo-abel-manta-grfica.html

http://www.youtube.com/watch?v=wUb9wYhFGfA
De Veneno C. a 18 de Maio de 2011
Aproveitando os tags, que venha à cena Isabel Silvestre

"Quando olho para a videira"

http://www.youtube.com/watch?v=xZzZlU_CvOU&NR=1
De Maria Brojo a 18 de Maio de 2011
Veneno C. - os nomes respeitam a ordem das pinturas. A do Abel Manta não representa Viseu, mas cidade outras, na altura, vila. A Teresa C. pinta, sim. Nunca pretendeu expor, porque ruudimentar, o que lhe sai da alma transportada para os pincéis.

O vídeo que consta das 'tags' e refere era o primeiro incluído no café da manhã. Retirei-o pela conversa no final. Agora, substituí por outro em que a maravilhosa voz da Isabel Silvestre está só.
De Maria Brojo a 18 de Maio de 2011
Teresa C. - corrijo 'cidade outra' e 'rudimentar. Sorry.
De Perseu a 18 de Maio de 2011

Saudades sombras e retorno ao que passou.

Memórias e regressos.

Quantas vezes o regresso é mais intenso que o passado.
De c a 18 de Maio de 2011
ou seja, uma espécie de

Mundo ao contrário

http://www.youtube.com/watch?v=sn-X0FZq12M

ou voltando à

Minha casinha

http://www.youtube.com/watch?v=VbaXVooEuWE

ouvindo

Gritos mudos

http://www.youtube.com/watch?v=mIaFKAQAcJo


do saudoso

Homem do leme

http://www.youtube.com/watch?v=9AvUeoH81ZI

De Maria Brojo a 18 de Maio de 2011
C. - boas sugestões! Obrigada.
De Maria Brojo a 18 de Maio de 2011
Perseu - os retornos, tal como escreveu, podem suscitar mágoas quando o tempo estragou o que devia, mais cedo, ter sido preservado. Sem passar deste Verão, algum do esplendor d'antanho voltará.
De António a 18 de Maio de 2011
De Maria Brojo a 18 de Maio de 2011
António - pela «carantonha» não sei o que dizer. ;)
De António a 18 de Maio de 2011
a carantonha a marcar presença é beirã ou lá perto

;_)))
De c a 19 de Maio de 2011
ó da Guarda ;-)

vivó

valente
De Gato a 18 de Maio de 2011
Olá Teresa.

Uma crònica de recordações ou um desejo de voltar a essas recordações?
Sabe,nós os gatos temos uma visão tridimensional, distinguimos três cores,azul,encarnado e verde,por isso a pintira apresentada tem uma perspectiva incorrecta e uma grande pobreZa de cores.
Àh mas salvam-se a crónico e a voz da senhora que canta.
Minhau.
De Cão a 19 de Maio de 2011
Esta agora ... zangou-se com Lisboa? Que não.. já sabemos.
Em tempos de crise e desilusões ainda nos restam os penedos?
Cuidado... que a socrática criatura também é beirâ e sabe-se lá ... dizem prá aí que também tem boas intenções... namorada... e às vezes (pasmemos) sonha....
Gostei.

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