Domingo, 22 de Maio de 2011

MÍSCAROS E CARQUEJA

 

A rota de amor começara quase trezentos quilómetros antes. Companhia de viagem: música significante e deslumbre pelo novo acrescentado por via do langor exuberante da Primavera. Deslizando linhas do céu conhecidas, foi tempo de alegria. A Teresa C. amou o percurso mil vezes repetido com a Aguieira nas margens da IP3 - manto de água, espelho de povoados, ilhotas dispersas, barcos ancorados. Na chegada, o perto irrompeu majestoso pela simplicidade vetusta, pelo histórico acumulado. Encimando muitas, a casa aldeã.

 

 

Do outro lado da ponte, sobre a ribeira e lameiros/margens, o registo do lado fronteiro que até às faldas da montanha se escoa. Casario sem plano unificador, mas onde o granito ou impera na totalidade, ou em detalhes denunciadores da matéria-prima que foi rainha na região. O enriquecimento durante e no pós-emigração trouxe algumas, poucas, maisons. Do surto migratório, a consequência maior e danosa para a arquitectura tradicional foi o efeito mimético dos que não arredaram pé da aldeia pobre – quem pela tinta não disfarçasse o granito afirmava a real diferença económica com quem arrojou, nos primórdios, “a salto”, fronteiras outras.

 

 

Nas ruas alcatroadas, outrora de terra batida, os plátanos e espécies outras de árvores viçosas são borda. A floresta próxima cresceu. Ida a que fora horizonte alto. Incêndios em sucessivas levas substituíram as matas por carecas disfarçadas com giestas floridas. Amarelas dominam, as brancas escasseiam. É memória o prazer de, chegado meio de Outubro, na base dos pinheiros encontrar míscaros, guardá-los na sacola para mistura com pedaços de cabrito, pão, carqueja aromática que o lume e a perícia da cozinheira transformavam em ensopado.

 

 

O Inverno chuvoso e frio, os nevões, o assobio do vento mais afiado que lâmina, encharcou os campos. Daí o verde do musgo sobre pedra, hoje, alimentado de quase nada. Mas sabe onde ir buscar o nutriente principal, a água, que à beira não falta e a porosidade da rocha também guarda. 

 

 

Fim de tarde, hora da janta, é deixada para trás a aldeia/Aldeias. Ao estacionar na «vila» como ainda chamo à cidade, um de muitos chafarizes que vertem água do degelo na montanha. Simples, pelos limos e amarelecimento do granito por via metálica grita idade. Ao lado, trepam heras. Selvagens. Livres, conquanto o instinto sobrevivente as amarre à pedra.

 

 

No cimo do chafariz, alguma imponência pelo granito trabalhado onde os séculos deixaram marca. Não fossem as cicatrizes das feridas gravadas pelo tempo, parte do encanto e respeito desvanecer-se-iam. Assim, avançam intactos em cada dia corrente.

 

 

Casa, telhado, ferros, sacada sobre a ruela - Rua da Cardia chamam-lhe. Quem a vir tão preservada e adiante passar ignorará quem lá nasceu. Muitos o fazem. Os mais atentos não perderão pitada como o casal croata que por ali passeava. Parou, à máquina ordenou milhares de píxeis, nariz espetado ao alto. Cliques sucessivos. Eu com eles por gosto e para no SPNI mostrar.

 

 

A placa tudo diz. 

 

 

Cortando na primeira à direita, calçada espevitada que de saltos, para quem os ali tem por base, troça, uns passos e restaurante de truz. Granito dentro e fora. É o Júlio a quem já o Quitério reconhecia mérito e não dispensava. Por ali, encontrei realizadores de cinema, músicos, escritores e gentes tão anónimas como eu que do lugar fazem romaria. Prato escolhido? _ Ensopado de cabrito e míscaros, pois então!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:03
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
6 comentários:
De Perseu a 22 de Maio de 2011

Que pena me dá não conhecer esse cantinho de Portugal.
Fica o sabor da sua crónica/reportagem.
Não sei porquê fazem-me lembrar 'As viagens na minha Terra'
Acredite Teresa que não é bajulação, é tão somente a comparação de um iletrado nestas cousas ' da escrita.
De Maria Brojo a 23 de Maio de 2011
Perseu - exagero seu, bondade sua que me contentaram - é sempre bom sonhar atingir mais além. Obrigada.
De c a 23 de Maio de 2011
começo por achar exagero no amor aplicado à viagem. será que o amor, por tão maltratado e desvalorizado, fica bem nos quilómetros?

depois... o langor (da primavera?) não me parece capaz de acrescentar nada de notável. talvez o langor exuberante fosse mais da música e da fantasia da viajante.

logo vêm as linhas conhecidas, não tanto do céu... mas sim da Céu (ou da C.?). o percurso não terá sido mil vezes repetido... quantas por ano? e o IP3 que idade tem? e não costuma ter margens... serão antes beiras, da estrada da Beira?

e o assobio do vento não terá encharcado os campos... poderá defendê-lo dessa agressão com abalizado parecer. e os píxeis serão garantidamente mais que milhares... milhões (ou megas, como soe dizer-se).

agora, no truz que toca ao Júlio ... parece que já foi (com o Quitério, às urtigas ou à carqueja?) conforme consta nos comentários aqui deixados

http://aeiou.escape.pt/boa-mesa/guia-restaurantes/julio-23985

PS1-não é desforra daqueles saltos/base/troça mas... amor com (des)amor se paga ;-)

PS2-será que o senhor Pinto de Sousa é monárquico por esta via
Maria Teresa Pinto de Sousa Coutinho Camelo de Gouveia
não é dúvida séria, mas o desconforto do Júlio levou-me a procurar Camelo que me servisse naquelas bandas: acabei almoçando nele em Seia ;-)

De Maria Brojo a 23 de Maio de 2011
C. - fez mal em optar pelo Camelo que está a dar sem substrato condizente. O Museu Nacional do Pão, na mesma Seia, ofertar-lhe-ia iguarias melhores. O Camelo já foi. Não renovou o espírito, teimou no usual. Muitos logros, muitos grávidos de ler e ouvido passam por lá. Foi o seu caso. Que pena!
De c a 24 de Maio de 2011
qual substrato (condizente)?

que iguarias (melhores)?

comparemos

Especialidades:
Entradas: Enchidos da Beira; Farinheira salteada. Sopas: Caldo verde com bagudos; Creme de cenoura com laranja; Sopa de feijão encarnado.
Peixe: Bacalhau com broa à Camelo; Filetes de polvo com arroz de feijão.
Carne: Pernil de porco com enchidos da serra e puré de maça; Cabidela de galo caseiro; Lombo de porco com castanhas; Grão de bico à moda da Arrifana; Feijoca da Beira; Cabrito assado; Carne de porco à mirra; Coelho estufado com ameixa seca.
Doces: Requeijão à moda de D. Rosalina; Doce de vinagre; Canudos da Celeste; Casamento feliz; Queijo da Serra.

Especialidades:
Pratos confeccionados com pão: Bacalhau à Museu; Bacalhau com pão broa; Entrecosto com feijocas e grelos; Açordas várias...

como não houve logro (e neste prazer a gravidez é mais de boca e barriga que de olho e orelha) não vejo impedimento ao regresso. ao otro... museu sim (cada macaco no seu galho)

De c a 24 de Maio de 2011
certo que também podia ter optado pelo Albertino de Folgosinho, com recomendações da 'velha guarda':

http://www.flickr.com/photos/vitor107/138437302/in/set-1419497

http://www.flickr.com/photos/vitor107/67465607/in/set-1419497

http://www.flickr.com/photos/vitor107/67449776/in/set-1419497

http://www.flickr.com/photos/vitor107/364437698/in/set-1419497

http://www.flickr.com/photos/vitor107/sets/1419497

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