Sábado, 13 de Agosto de 2011

ESTÓRIAS D’ALDEIA

 

Blake Flynn

 

I

Acabado de cozer o pão, quem na cabeça o trazia em tabuleiro de madeira apoiado na «rodilha» - aliviava o desconforto e equilibrava o peso - dizia aos passantes:

_ Olhe, tome lá do nosso pão e com saúde o coma.

Respondiam:

_ E vossemecê o que lá tiver.

 

II

Era comum ouvir:

_ Amor dado é recebido.

Os menos indulgentes resmoneavam:

_ «Atão»… É dado porque já foi recebido.

 

III

Numa procissão da Festa de São Cosme e São Damião, «anjinhos» à frente, andores carregados aos ombros pelos mordomos, seguiam-nos em duas «carreiras» paralelas crentes com velas na mão. Dado o caso de um dos mordomos ter vislumbrado teia de aranha no andor, vozeou:

_ Pare a música que o Senhor leva «bixo»!

 

IV

O pároco da freguesia, não raro, utilizava a homilia para «recados». Era recorrente apelar aos casais no sentido de engendrarem mais filhos. Ora, sendo a pobreza regra pedir nascimentos era injusto até pela elevada taxa de mortalidade no parto de mães e neófitos. Como em todas as liturgias, na nave da igreja, mulheres, no coro, homens. Vinda do alto, trovejou a voz do ‘tio’ Monteiro, quatro filhos a custo alimentados, farto de ouvir o mesmo:

_ Ó Senhor Prior, olhe que já “fiz a minha perna” (contava quatro filhos)!.

 

V

Durante a semana santa, era uso vir de fora um sacerdote pregar. No púlpito, paramentado com cetins e dourados pomposos, advertiu:

_ As três paixões que levam o homem ao Inferno são: o mundo, o demónio e a carne.

Findo o sermão, já no adro, juntam-se três mulheres: Paixão do Rita, Paixão Mereira e Paixão do Canto. Lamentavam-se por julgarem ser uma o demónio, outra o mundo e a última a carne. A Paixão do Rita não se conteve:

_ Mas que foram dizer ao padre?! Toda a gente sabe a minha vida e a do meu homem. Não mereço ouvir uma destas do “altar abaixo”.

 

VI

A moçoila mais cortejada na aldeia teve direito a serenata organizada pelo Tito Bruno, rapaz de muitas posses, e outros amigos da vila. O hábito era a homenageada, sem assomar à janela ou “ficaria falada”, acender a apagar a luz duas vezes como sinal de ter recebido o mimo. Assim fez. A ‘tia’ Amélia cujo principal ofício era receber e espalhar mexericos sorriu, melíflua, e interpelou:

_ Ó Rosinha, ontem não deu por nada? Pois saiba que me fizeram uma serenata esta noite! Prá menina, não, que o senhor seu pai, “dando fé”, sumia os moços em menos de nada.

VII

Na ribeira, era lavada a roupa pelas mulheres da comunidade. Preparando-se uma delas para desacato verbal enquanto os lençóis coravam, outra logo respondeu:

_ Olha, “vai lavar a «rouupa»” e cala-te!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

À época do contado, na aldeia, era ídolo Amália Rodrigues, “Fado Amália” o preferido.

 

publicado por Maria Brojo às 10:12
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
5 comentários:
De Textículos a 13 de Agosto de 2011
Histórias deliciosas!
De Maria Brojo a 15 de Agosto de 2011
Textículos - muito obrigada.
De Veneno C. a 13 de Agosto de 2011
Bom dia!

Anda por aí a Volta?

Lá volto eu ao ataque ao ataque da indefesa palavra (resmungando em vez de resmoneando):

neófito
(latim neophytus, -i)
s. m.
1. [Religião] Pessoa que acaba de receber o baptismo.
2. [Figurado] Novato; principiante.

"Na ribeira, era lavada a roupa pelas mulheres da comunidade."
Será diferente de
As mulheres (da aldeia) lavavam a (sua) roupa na ribeira?

Mudam os tempos e os estilos (e os gostos!) ;-))

http://www.youtube.com/watch?v=zxvMJXRjqvs


De Veneno C. a 13 de Agosto de 2011
Enquanto a Volta não sobe à Montanha...

http://www.youtube.com/watch?v=sqK7Ys155j4
De Maria Brojo a 15 de Agosto de 2011
Veneno C. - a 'Volta' andou e atrapalhou o bastante.
As alternativas às frases do texto que sugere são perfeitas; porém, a cada um seu estilo linguístico. Depois há criatividade que todos sabemos emprestar ao que escrevemos.

Arquivei as sugestões. Obrigada.

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