Domingo, 14 de Agosto de 2011

JOAQUIM MONTEIRO

 

 

O Sr. Joaquim Monteiro pastoreou rebanhos pela serra fora desde que se fez homem. Nos seus oitenta e tal anos, na banda de cá da Estrela, conheceu todas as pastagens, cantos e recantos, minas de água que dessedentassem os animais. Dias e noites sem volver a casa, pernoitas embrulhado no capote, em cama de chão. Aguentou frios e gelos de rachar ossos. Amanhecendo, recomeçava a lida de “guardador de rebanhos”, por vezes sentado num penedo, filosofando sobre o que via e acontecia, a vida, enfim. Não é acaso a sabedoria dos pastores e a tranquilidade proverbial.

 

 

Em casa da antiga vila, hoje cidade, habitavam os padrinhos de casamento, amigos e protectores do casal Monteiro, Joaquim e Maria da Luz. A herdeira da família madrinha neles pensava bebericando “café dos velhos” à sombra de latada e do muro onde heras subiam. Detinha-se caindo os olhos nos frutos da macieira e do pessegueiro amorosamente plantados e merecedores de mil cuidados pelo pai em sepultura próxima. As primeiras maçãs surgiram no Verão seguinte à partida da referência que sempre constituíra a figura paterna. Sorria ao ver a maravilha dos frutos coloridos, «via» o amor e o colo do pai correndo na seiva que os crescia.

 

 

Por vontade e obediência ao preceito “quem do seu cuida não merece castigo”, ergueu-se. Esquecida do «Cristo» em que tornaria pés, braços e pernas após o trabalho dos silvedos, enfiou vestido leve em vez de calças e botins velhos, seguiu “Estrada da Serra” acima até ao “Prado” onde prosseguia o restauro da casa. Enfiou-se por carreiros conhecidos desde as férias da infância – encurtavam o percurso e transbordavam beleza. A ondulação granítica da montanha sempre na dianteira, musgo seco pelo estio alapado nas rochas, em harmonia, espécies várias de arvoredo. Continuou a subida.

 

 

Já outra etapa iniciava rumo à quinta grande, quando casebre no limite do “Prado” a estacou. Então uma beldade daquelas para ali abandonada? Mirou de todos os lados a construção. Dela fez registo. Mais andarilhou até chegar à meta segunda. O Vale D. Pedro, misto de terreno urbanizável, agrícola, pinhal (bravo e alpino) intervalado por castanheiros e carvalhos, limpo de mato seco amigo de incêndios.

 

 

 

Durante a passeata, vislumbra o Senhor Joaquim Monteiro, alforge ao ombro, pastoreando nem meia dúzia de cabras. Como de costume, aproximaram-se, cumprimentos, o senhor baralhado nos laços de parentesco que ligavam a mulher aos padrinhos, se bem que havia dois meses no mesmo lugar se tinham encontrado. Confundia bisneta com neta, foi novamente explicado que não, que era a neta e ele na mesma teima. Passou às queixas usuais: que o Sr. Mário, o feitor, embirrava com as “pobres cabritas”, que o expulsara, que à propriedade não ligava. Além tinha ido na querela: ameaçara-o pôr veneno nas ervas e resolver o problema de vez morrendo os bichos.

_ A menina veja, matar-me as «bonitas»! Chamou-me “filho daquela” e eu não me fiquei chamando-lhe filho “dum aquele”. A partir da última vez, quando a menina lhe chamou a atenção, mais fui destratado. Que me morreu uma, é verdade.

_ Deixe lá Sr. Joaquim que sempre foi vontade da família vir para aqui quando quisesse. Uma vez prometido, para sempre cumprido.

Por lá ficou mais consolado.

 

Coincidindo o Sr. Mário e a mulher irem à casa para ser tratada com uma ‘infiltração’ a Fátima que penava com dores reumáticas no ombro e no cotovelo, houve conversa lateral:

_ Faz o favor de me explicar o acontecido com o senhor Joaquim?

_ É simples, minha senhora: deixou as cabras destruírem-me as sementeiras. Fiquei danado e disse-lho. Então aquilo fazia-se? O meu suor ali desbaratado?! Ameacei-o com pesticidas, mas nada fiz. A senhora conhece-me.

E a senhora que sim, que confiava nele por jamais ter dado motivos para o contrário, mas que tivesse paciência, embora marcasse regras. Saindo da saleta a Fátima com o braço ao peito e recomendação de repouso absoluto, foi o par à sua vida. A “minha senhora” voltou ao trabalho, fiada em ter apaziguado as partes.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:28
link | favorito
Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

últ. comentários

Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
Olá Teresa: Fico contente com a tua correção "frei...
jotaeme desculpa a correcção, mas o rei freirático...
Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds