Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

“RIBEIRA NEGRA”, “A CIDADE DE GARRETT”

Júlio Resende

 

Homenagear o pinto Júlio Resende anteontem falecido e, em simultâneo, Eugénio de Andrade é o meio escolhido para hoje celebrar oito anos de SPNI. Desde o início, duas vertentes caracterizam este espaço: escrita e pintura. Não planeando torcer o caminho, agradeço a todos os leitores e comentadores o favor de passarem por aqui e dalguns haver registos.

 

A propósito do mural cerâmico Ribeira Negra de Júlio Resende escreveu Eugénio de Andrade:

 

_ “Agora vinde cá, que vos quero dizer uma coisa. Como sabem, o grande cronista desta terra foi Camilo Castelo Branco, esse diabo, que não é tão feio como o pintam. Mas depois de Camilo vieram outros: o Ramalho, que era um homem de respeito, o Raul Brandão, que tinha um olho muito fino para os pescadores da Foz e para aquele mar, e já nos nossos dias, a Agustina, que fala do Porto ora com azeda melancolia ora com incomparável sedução. Mas a cidade tem outro cronista admirável, em que se não repara tanto por não se servir de palavras. É de Júlio Resende que estamos a falar. Agustina e Resende são em rigor contemporâneos, mas o olhar inquisitoriamente poético de ambos contempla realidades muito diferentes. O mundo que despertou o interesse da romancista é o da burguesia decadente, o da aristocracia rural, com algumas incursões às esferas da finança e da política; ou seja, um mundo pelo qual a pintura de Resende tem um soberano desprezo.

 

A gente a que o pintor sempre procurou dar corpo e alma, e que lhe sai ao caminho mal pega no lápis e no pincel, é aquela a que Fernão Lopes chamou arraia-miúda. Isto, que nunca passou despercebido àqueles que seguiram empenhados a sua obra, tornou-se pura evidência a todos quantos tinham olhos na cara a partir de Ribeira Negra, o magnificente historial da miséria e da grandeza da população ribeirinha do Porto, exposto pela primeira vez em 1984, no Mercado Ferreira Borges.

 

Há uma brutalidade nesta pintura, digamo-lo sem qualquer hesitação; brutalidade que consiste em obrigar-nos sem trégua a pensar que o homem é o mais mortal dos animais, que o seu corpo não cessa de ser corroído pela lepra do tempo, que o esplendor da sua juventude se converte com facilidade na mais grotesca paródia de si próprio, que tudo nele está inexoravelmente votado à morte. É uma crueldade, é certo, mas a compensá-la há também em Resende uma infinita piedade por estas criaturas cobertas de farrapos, quase sempre mulheres envelhecidas muito antes de serem velhas, porque tudo lhes faltou excepto o mais amargo da vida, e a quem também coube em sorte, apesar de tudo, semear a terra da alegria.”

 

Em A Cidade de Garrett, Fundação Eugénio de Andrade, 1993

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:22
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3 comentários:
De c a 23 de Setembro de 2011 às 10:46
claro que aquele pinto não é maldoso nem insinua outro artista daquela cidade ;-)

e a referida brutalidade pode ser (um dia) um vector passante por estas bandas, como a mortalidade que está em tudo que mexe, SPNI incluído

açucaremos o dia, com votos de longa vida a 'semear a terra da alegria'



De Veneno C. a 23 de Setembro de 2011 às 13:07
Pela grandeza da data e pelos motivos apresentados para a celebrar, a dose é segredo da poção que vira elixir, de longa vida saudável e harmoniosa, com postas cada vez mais saborosas.

Uma sugestão da minha especial idade ;-)

http://www.portugaldailyview.com/05-culture/julio-resende-acclaimed-portuguese-painter-dies

E as palavras que só um Amigo (nos) diria:

http://www.youtube.com/watch?v=Gpz6t42Pl9Y

http://www.youtube.com/watch?v=Mo5lpP9tECg&NR=1

De Acuçar C. a 23 de Setembro de 2011 às 19:46
Querida aniversariante,

Um grande 'BRAVO!' pela obra realizada, a bem do feminismo e da arte, pelo elogio quase diário da Natureza, também humana, que nos rodeia.

Que a restauração beirã fique como um marco para a posteridade, custe o que custar: alma até Almeida!

http://www.youtube.com/watch?v=PPmEqENGo_Q

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