Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

FALHAS E FANTASIAS

 

     Norman Rockwel

          

           Assim fora, assim nunca seria. Ela, que «sempre» e «nunca» rejeitava, usava-os vezes demais. A incoerência reclamada como defesa e arma para advires etéreos. Não conjugava futuros. Ou conjugava pelo gozo da negação seguida. Sabia da pequena esfera recolhida junto ao nervo/comando da visão. Talvez morte, talvez vida. Esquecia-a. Lembrava-a se entretinha a tentação do prever. Ceifava-a como na infância vira nas terras fecundas pela natureza e regas.

            Montanha ao alto, vale em música de cantares/alívios de corpos doridos. Os lobos à espreita, as raposas rapinando poedeiras que supriam faltas míseras. Recontos aconchegados nos colos das matriarcas, foram. A menina, ao tempo, das labaredas conhecia as das lareiras confinadas à pedra, castanho velho por remate. Já não assistia às queimadas nos campos nus onde o Outono descia manto de cinza fria.

           A urbe, do centro capital, era dez meses de existir, escola, liceu, faculdade. Na geometria parental, a criança era o terceiro vértice. Vazio o outro que desejava ocupado por laço fraterno. Sem ele, ficava a menina debulhando leituras e, pelo carvão, no «cavalinho» registando falhas e fantasias.            
           O quarto de brincar, excessivo, recolhia a criança só. Sem primos na rua de baixo ou de cima ou na cidade que pelos afectos e birras habitassem a irmandade possível. E lembrava da casa beirã o baloiço pendurado no braço robusto da nogueira velha e formosa. O tecto de folhagem e frutos verdes. O vaivém que, nas férias serranas, o primo de Lisboa arrojava rápido e alto.

             _ Voa!

Voava. Sem medo. No Jorge, constelava universo de confiança. Como no pai, cúmplice e autoridade. Como no tio franciscano. Como no avô que musicava os dias em pautas de alegria, primeiro nos acordes da viola afagada na tarde quase extinta. E havia fogo e turquesa no recorte do vale descido da Estrela até ao Buçaco que os malvas dissolviam. 

             Dos homens e mulheres entendeu o que via entre paredes de amor. Eles laboriosos, providentes e previdentes, ternos, base e fundo da confiança. Elas companheiras, voluntariosas, pondo e dispondo com autonomia sob o tule do véu que levavam à missa de incensos e altares de tranquilidades floridas. Só na aparência submissas. De facto, senhoras donas da família.

            Da crisálida no seu casulo, mais cedo do que o previsto, houve mulher com criança dentro. Porque da dormência das sestas adultas, na infância, constituíra reinos e da precária liberdade experimentara a magia, aprendeu a deter-se. No silêncio, jogar ao faz de conta. Uma e outra e outra figura. Personagens múltiplas que viria a integrar enquanto despia e vestia sedas da mãe copiando gestos de filmes antigos que o preto e branco coloria. 

              Desequilibrada nos saltos, encenava graça e langor no palco que o espelho devolvia. A sedução da mãe, das mulheres de Hollywood repetidas no descalçar da meia e na alça caída do ombro por suave estremecer. Um dia, sua. Egoísta pela relevância do querer, houvesse ou não quarto cheio de homem que a visse.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 16:24
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
1 comentário:
De leonor a 24 de Janeiro de 2012
Tão bonita e evocativa esta crónica. E o título é perfeito, traduz muito bem o sopro solitário de algumas vivências de infância.

Comentar post

últ. comentários

Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
Olá Teresa: Fico contente com a tua correção "frei...
jotaeme desculpa a correcção, mas o rei freirático...
Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds