Terça-feira, 17 de Abril de 2012

TESTEMUNHO POR CARTA

Patricia Rachidi

 

Deixo à consideração de todos o testemunho da Sara, filha do Joaquim Fidalgo, jornalista. A mãe, professora de inglês, suicidou-se.


“Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.

As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.

Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero. Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores. Até ao dia 1 de Março.

Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que
conheci, o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os temores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.

A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo, mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.

Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.

De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver.

E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda. Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender.

 

Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor. Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.”

Sara Fidalgo

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Mudando de assunto ou talvez não.

 

publicado por Maria Brojo às 13:02
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2 comentários:
De c a 17 de Abril de 2012
caberá perguntar se um suicídio é argumento contra reformas na educação?

caberá duvidar se aqui anda apenas manipulação...

«Querida ,
Com certeza, por muito que esta Sra tenha passado , não teria razão para cometer tal ato. São estas lamechices que vivemos e ouvimos do nosso povo, que até certa altura foi povo privilegiado,(funcionários públicos), sem grandes contas para dar. Pelo o mal feito por uns pagam os outros. Talvez se aprendermos a denunciar os casos atempadamente, as coisas tomem outro rumo. O pioneirismo na perfeição nunca fez mal a ninguém.
Abram os olhos, e olhem á vossa volta , há pessoas a trabalhar em situação sub-humana e dão o seu melhor, sem grandes queixumes. Precisam de trabalhar para receber um vencimento para poder comer e pouco mais. Sim, talvez existam mais do que aqueles que alguma vez pensamos.Amor á profissão????Claro que sim. Temos verdadeiros exemplos de conquistadores á custa do seu suor e lágrimas.Que construíram verdadeiros impérios. Continuamos com pensamentos e comportamentos egocêntricos .
Quem reenvia uma carta destas deveria ler com um entendimento mais alargado. Nem tudo o que parece é. Típico do Português." O parecer em vez do ser". Não muda mesmo.
Podem reenviar, não tenham medo.»

http://portugalwatcher.blogspot.pt/2012/03/carta-aberta-da-sara-fidalgo-filha-de.html

caberá perguntar se só a filha tem razões para apresentar e se o marido (pai da filha) também teve oportunidades para atacar a incomodação das tais reformas

http://industrias-culturais.hypotheses.org/4921

De Acuçar C. a 17 de Abril de 2012
Não será para aplicar aqui o dito "por morrer uma andorinha..." mas temos que apelar a forças e motivos que nos façam superar as crises:

"Quanto a nós mesmos, que valor tem a causa se para lhe darmos dinamismo a deformamos, a mergulhamos em parte na sombra da mentira?

Não é nosso ideal, e por isso lutamos, formar os bandos inconscientes e os prontos cadáveres que às nossas ordens obedeçam; salvar-se-á o mundo pelos espíritos claros, tenazes ante o certo, ante o incerto corajosos; só eles sabem medir no seu justo valor e vencer galhardamente toda a barreira levantada; só eles encontram, como base do ser, a marcha calma e a energia inesgotável. É ilusória toda a reforma do colectivo que se não apoie numa renovação individual; ameaça a ruína a todo o movimento que tornarem possível a ignorância e a ilusão. Acima de tudo coloquemos a franqueza e os abertos corações; das dúvidas que se juntam podem surgir as fórmulas melhores; vem mais lento o triunfo, mas vem mais sólido; e ninguém se arrastou, todos chegaram por seu pé.

Agostinho da Silva"

in http://educar.wordpress.com/2012/03/19/xxx-123/

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