Sábado, 21 de Abril de 2012

SEM QUÊ NEM PORQUÊ

 David Ligare

 

“No tempo em que não havia automóveis, na cocheira de um famoso palácio real, um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias dos companheiros de apartamento. 

    Reparando-lhe o pêlo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe que se fizera detentor de muitos prémios, e disse, orgulhoso:

_ Triste sina a que recebeste! Não invejas minha posição em corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiadopela palavra dos reis!

    Exclamou um potro de fina origem inglesa:

_ Pudera! Como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?

     O infortunado animal recebia os sarcasmos, resignadamente. Outro soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e comentou: 
_ Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos do bruto amansador. É tão covarde que não chegava a reagir, nem mesmo com um coice. Não nasceu senão para carga e pancadas. É vergonhoso suportar-lhe a companhia.

Nisto, admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem piedade:

_ Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo. É animal desonrado, fraco, inútil, não sabe viver senão sob pesadas disciplinas. Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor-próprio. Aceito os deveres que me competem até o justo limite, mas, se me constrangem a ultrapassar as obrigações, recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar. 

    As observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei penetrou o recinto, em companhia do chefe dascavalariças.

_ Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade, informou o monarca, um animal dócil e educado, que mereça absoluta confiança. O empregado perguntou:

_ Não prefere o árabe, Majestad

    Falou o soberano:

_ Não, não, muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância.

_ Não quer o potro inglês?

_ De modo algum. É muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça.

_  Não deseja o húngaro?

_ Não, não. É bravio, sem qualquer educação. É apenas um pastor de rebanho.

    Insistiu o servidor atencioso

_ O jumento espanhol serviria?

_  De maneira nenhuma. É manhoso e não merece confiança.

    Decorridos alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:

_ Onde está meu burro de carga?

    O chefe das cocheiras indicou-o, entre os demais. O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho ainda criança, para longa viajem. E ficou tranqüilo, sabendo que poderia colocar toda a sua confiança naquele animal.”

 

  Assim também acontece na vida. Em todas as ocasiões, temos sempre grande número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a servir, sem pensar em si mesmos... E nós? Será que já aprendemos servir? Mais: servir sem quê nem porquê? Ainda mais: confiar sem quê nem porquê?

 

Nota: autor que não foi possível identificar.

 

CAFÉ DA MANHÃ

publicado por Maria Brojo às 17:32
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
6 comentários:
De c a 21 de Abril de 2012
começo a ficar sem graça (?) por tanta ausência... certamente porque ninguém acha graça à coisa (nem ao coiso?)

configura-se a confirmação das causas, deixando a coisa às moscas, que seriam as únicas diferentes?

comparando a coisa e o coiso lá de cima, da cadeira e do cavalo (no fim é qu'abalo) a mulher branca por fora está na cadeira preta por cima do homem preto em pelo que está em cima do cavalo branco em pelo

convencido de que não teve grande graça e como ainda não tenha aludido ao mar que no fundo a ambos conforta... aqui vai a cereja:

da crónica de João Quadros no Negócio On-Line:

"Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses."
Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco. Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico.

Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti? Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.

Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano. Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras? fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.

Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl.

Eu, às vezes penso: o que não poupávamos se Portugal tivesse mar.

http://www.youtube.com/watch?v=lU6zbbjiefU
De Acuçar C. a 22 de Abril de 2012
Acuçar vai ajudar, ao desconhecido autor encontrar, mas gostaria de perguntar, como às teclas lhe veio parar?

Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Idéias e Ilustrações.
Ditado pelo Espírito Neio Lúcio.
2a edição. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1978.

http://www.espirito.org.br/portal/mensagens/m1116.html

E já agora, sobre o mal aproveitado autor, David Ligare:

Chief among his stated influences are the aesthetic and philosophical theories of the Greek sculptor Polykleitos and the mathematician and philosopher Pythagoras, as well as the work of the 18th-century classical painter Nicholas Poussin.
A resident of Salinas, California, his paintings often depict the terrain of the central Californian coast in the background. "I think that I'm very Californian in the character of the light that I use, but I made a decision very early on in my project to try to be an invisible presence in my work.

Um brinde, como belo exemplar do potro (égua) espanhol, que sabe bem servir:

http://player.vimeo.com/video/6779174
De Acuçar C. a 22 de Abril de 2012
Ah, depois da consulta, o David pediu para deixar também o tributo das legendas:

Penelope, 1980

Arete (Black Figure on a White Horse) 2000

http://www.davidligare.com/paintings.html
De Acuçar C. a 22 de Abril de 2012
E como com Acuçar é que a gente se vai entendendo,
deixo mais esta derivada da consulta anterior, tipo 'pescadinha de rabo na boca':

Aretê (do grego ἀρετή aretê,ês, "adaptação perfeita, excelência, virtude") é uma palavra de origem grega que expressa o conceito grego de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina.

No sentido grego, a virtude coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos. Segundo Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a que cada um se destina. Aquilo que no plano objetivo é a realização da própria essência, no plano subjetivo coincide com a própria felicidade.

Na Grécia Antiga, aretê significava também a coragem e a força de enfrentar todas as adversidades, e era uma virtude a que todos aspiravam.

A raiz da palavra é a mesma de aristos, que originou aristocracia, que significa habilidade ou superioridade, e era constantemente usada para denotar nobreza. O termo era aplicado para qualquer coisa, desde a descrição da boa fatura de um objeto utilitário até para indicar o cidadão exemplar e o herói, mas em todos os casos a aretê de cada um envolvia valores diferentes.

Em torno do século IV a.C., aretê passou a incorporar outros atributos, como dikaiosyne (justiça), e sophrosyne (moderação e autocontrole). Platão incorporou esses novos significados tentando estabelecer uma nova definição para aretê, Aristóteles ampliou seu trabalho e o conceito teve importantes repercussões no pensamento cristão.

Aretê foi também importante elemento na paideia grega, o conceito de educação integral para a formação de um cidadão virtuoso e capaz de desempenhar qualquer função na sociedade. O treinamento na aretê envolvia educação física, oratória, retórica, ciência, música e filosofia, além de educação espiritual.
......

Na mitologia grega, Penélope (Πηνελόπη) é a esposa de Ulisses. Era filha de Icário e sua esposa Periboea. Ela aguarda por Ulisses durante todo o seu retorno da Guerra de Tróia, narrado na Odisséia, de Homero.

Enquanto Ulisses guerreava em outras terras e seu destino era desconhecido, não se sabendo se estava vivo ou morto, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente, mas ela, uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, recusou, dizendo que o esperaria até a sua volta. No entanto, diante da a insistência de seu pai, para não desagradá-lo, Penélope resolveu aceitar a corte dos pretendentes à sua mão. Para adiar o máximo possível o novo casamento, estabeleceu a condição de que se casaria somente após terminar de tecer uma peça em seu tear.

Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia, e à noite secretamente ela desmanchava. E foi assim até uma de suas servas descobrir o ardil e contar toda a verdade.

Ela então propôs outra condição ao seu pai. Conhecendo a dureza do arco de Ulisses, ela afirmou que se casaria com o homem que o conseguisse encordoar. Dentre todos os pretendentes, apenas um camponês humilde conseguiu realizar a proeza. Imediatamente este camponês revelou ser Ulisses, disfarçado após seu retorno. Penélope e Ulisess tiveram apenas um filho chamado Telêmaco.
...

Bom Domingo e boas pescas ;-)

http://www.youtube.com/watch?v=whDxCpxrkTc

http://www.youtube.com/watch?v=nBSItZ4T86I

De -pirata-vermelho- a 26 de Abril de 2012
"Mais burro que me carregue que cavalo que me derrube",
dizia-se.

Vê-se que tem andado de mais 'pelo Chiado'
De -pirata-vermelho- a 26 de Abril de 2012
Mais vale... burro!


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