Alex Alemany
Café de bairro sem história. Livro aberto a vidas obedientes às normas constantes dos mandamentos sociais, a outras caídas em desgraça pelo desemprego ou pela lateralidade moral. Ecrã mudo onde imagens desfilam e recolhe olhares vazios. Refúgio para mistérios pessoais.
A mulher desafinava no espaço. Sobressaía na postura e figura cuidada – mais comum eram homens encostados ao balcão, donas de casa, idosas na maioria, algumas com avental e chinelos de pano, debicando torradas acompanhadas por galão ou café. Nas conversas, menu de doenças, novas das vizinhas, da família, das mágoas. Momento alto no dia, depois, azáfama no «atura-maridos-netos-comidas». Pelas nove da manhã seguinte, de tudo dariam conta aos ouvidos próximos.
Ao telefone, a mulher desarmónica, sussurrava. À medida da progressiva instabilidade nos gestos, o tom de voz crescia como se estivesse num casulo que somente ela via. _ “Impante de razão não é? A verdade é despicienda. Interessam-te alegações que nada justificam. O acontecido, a tua crueldade e a tua suspeição ditaram o fim da nossa relação. Não tens os ‘ditos’ necessários para averiguares a realidade. Mais fácil duvidar da mulher que nunca te foi infiel nem mentiu porque o nome dela é 'simplesmente Maria'. Uma qualquer. Cata-vento. Inconstante. Aconchega-te o ego e dilui culpa por não ires mais além na investigação.”
Esquecidas vozes outras. Silêncio apenas perturbado por pratos e copos e chávenas e colheres entrechocadas na lavagem ou no serviço habitual.
Desligou. Pagou. Saiu. No café de bairro, esmorecidos diálogos. A nuvem que baixara continuou espessa. O silêncio com ela.
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros