Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

O SÉCULO É O XXI

Autor que não foi possível identificar

 

Mais de duas centenas e meia de Bancos Alimentares Contra a Fome por essa Europa fora. O século é o XXI. Após dele ter fluido dúzia de anos, a miséria, a fome, não foram erradicadas duma zona do globo considerada de bem-estar. Os poderosos, se (duvido!) alguns passos deram no sentido da solidariedade e nos cuidados aos cidadãos desprotegidos, perderam-se na obscuridade de tortuosos caminhos. Esquecidos duma mera candeia cujo bruxulear os iluminasse e fossem evitadas incongruências sociais, neste tempo que as ficções d’antanho antecipavam com uma humanidade gloriosa em ‘tu cá, tu lá’ com a Lua, é vivida pobreza extrema também na “Boa Velha Europa”.

 

Desperdiçado o correr das horas em lutas intestinas pelo ‘mais ter e ser parecer’, a redistribuição do bolo económico por todos falhou. A promoção social dos necessitados de apoio falhou. O acesso à educação e saúde em condições igualitárias e eficazes falhou. O direito a uma Justiça eficiente falhou. A promoção ética falhou. Cultura acessível a todos falhou. E nesta Europa falhada, continuaremos até a revolta se impor.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

A propósito, uma das muito boas sugestões do Acuçar C.

 

publicado por Maria Brojo às 08:52
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
4 comentários:
De Acuçar C. a 28 de Maio de 2012
Bem haja por dar eco ao grito contra a obscenidade social.

A questão não deriva da esquecida candeia dos poderosos nem das ficções de antanho: está em todos e cada um que se alheia da condição solidária da humanidade, que se centra no umbigo individual.

A questão agudiza-se com o desenraizar do agregado social natural: família, bairro, freguesia, município e a passagem progressiva a virtualidades manipuladoras de globalização.

http://www.youtube.com/watch?v=BoP-0nKVGHk
De Acuçar C. a 29 de Maio de 2012
Sem pinturas nem vídeos, com factos:

Pedro Afonso, médico psiquiatra no Hospital Júlio de Matos

Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no Público


Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.
De bela pintura, aqui também a 30 de Maio de 2012
De Acuçar C. a 30 de Maio de 2012
Isto é mais música e pensamento falante:

"you who sits safe and warm indoors".....is the man who is 'fortunate' not to have been 'called', fortunate enough to stay blind to the injustices of this world, fortunate enough to be able to ignore them and do nothing but serve themselves and remain comfortably numb.
TheBigjay927 1 ano atrás

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http://www.youtube.com/watch?v=2KKaA-7KuJ8

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