Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012

DO LÓTUS E DA CULPA

Lluis Ribas – da coleção “As Cores do Branco” 

 

São os leitos nodosos, turvos e densos, que melhor acolhem as raízes e permitem que a flor de lótus se erga delicada e vigilante. Toda a espera é uma promessa de incerteza e, por isso, ninguém pode saber o que vai dentro do coração de um lótus. Na realidade, são muitos os botões que permanecem fechados, numa obstinação imprevisível.

"Lótus de ouro" era o adjetivo mais generoso dirigido a uma cortesã chinesa; num registo mais amplo, o lótus simboliza a pureza também na união dos amantes.

 

Hollywood criou o mito das louras e os estereótipos a elas ligados. Ao platinar os cabelos, gerou uma nova versão da femme fatale. Marlene Dietrich em “Vénus Loura”, Rita Hayworth em “Dama de Xangai”, Bette Davis na “Floresta Perdida” e Vivian Leigh num “Elétrico Chamado Desejo”, ficaram inesquecíveis em papéis de louras, assim como Marylin Monroe. Depois, há as louras que por não o serem tão declaradamente nos esquecemos que o são: Jessica Lange, Sharon Stone e Liv Ullman. Todas sedutoras, todas protagonizando tórridos affairs.

 

Em idos, os affairs discutiam-se (ou escondiam-se) no recato do lar, na penumbra dos confessionários ou na rigidez dos tribunais. Hoje, o desejo sexual adquiriu alforria, embora ainda se queira precioso e com o perfume de especiaria rara. O homem receou o poder da sexualidade feminina e, por isso, tentou controlá-la ou anular reprimindo-a. A literatura e o cinema, frequentemente, consolidaram esses medos.

 

Herdámos o conceito do que se distancia do lugar almejado tido por «bem» é vivido como imperfeição ou pecado, contamina a liberdade e pesa como culpa, quantas vezes ociosa!, no indivíduo sem permitir que surja, pura, a flor de lótus.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:10
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1 comentário:
De Acuçar C. a 10 de Agosto de 2012
Deu p'ra ver que esgotou definitivamente, entre outras, a capacidade de conviver com a liberdade de expressão (dos outros).

O que não acrescenta nada de interessante ao já longo e enfadonho monólogo com as suas teclas...

Será poupada, como compensação, do trabalho de apagar futuras ficções que lhe pudessem servir de carapuça.

R.I.P.

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