Trish Biddle
Olhavam o céu encostados à grade precária da praia de Carcavelos onde a boca do túnel deita a língua de fora até ao paredão. A noite chegara há horas e enganava o momento logo a seguir ao jantar. Noites longas, curto o dia que, por volta das quatro, estando farrusco o tempo, pisca olho ensonado ao horizonte que o aguarda para a deita.
Num sítio sem história, como se a história fosse pertença de pedras ou areia ou betão, vestidos de negrume, miravam, expectantes, a calote salpicada de brilhos - mortos, vivos, ou vá-se lá saber. A distância, devastadora pelos zeros traduzida em quilómetros, é manga de ilusionista que o universo engana. Cavalgando a luz a 300 000 km.s-1, entre o óbito de uma estrela e o desligar da cintilação vista da Terra, demora para cima de século e meio. O mesmo se houver universos com vida - do jogo de probabilidades, este particular não escapa! Vislumbrem-nos entes distantes e congreguem espantos no mundo deles por existirmos. Talvez enviar mensagem de boa vizinhança aos terrestres. Bons cavalos os levem e carruagens os tragam, rabejando as fêmeas as saias pelo chão e os machos a casaca e o chapéu. É que a imagem que de nós tiveram reportou-se a mais de cem anos atrás, por via da lonjura que a luz cumpriu.
CAFÉ DA TARDE
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros