Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012

CAÍDA A REDE DE SEDA E A CAXEMIRA

Malangatana

 

Evitaram o das estrelas costumadas.  As maçãs  verdes na taça metalizada. Os tons terra e os almofadões alvos.  Para o reencontro transgressor, apetecia-lhes alternativa de outras eras – o hotel do elevador revestido com plexiglass, vidro para os incautos. Em baixo, sabiam o panorama com genuínos verdes tropicais. Beira-rio, quase barra do Tejo, mais adivinhada que vista. Mas fora antes o abraço estreito quando ele tocou e ela desceu. Trocaram os perfumes dos cabelos, a seda pela caxemira e viram-se depois. Meses e desencontros passados, era a primeira vez. (Re)Iniciação cautelosa. Em fundo, o medo de ter decorrido tempo demais. Entretanto, houvera silêncio, imagens como analepses na penumbra do cinema, a presença ausente. Por tudo, ensaiaram conversar no lounge a céu aberto colado à água do estuário. Demora escassa, pois das palavras, em idos, houvera fartura. 

Era de pecado a proposta. De todas, fora sempre essa a ilusão major. Transgredir como ar respirado. Na falta dele, definhavam e com eles os companheiros ou quem com o papel se identificasse. Não que o dissessem – protegiam a verdade que os roía e, pela omissão, anuíam à suposta partilha de corpo e ser. Corajosa cobardia de quem gosta de gostar. De quem troca gosto pelo amor ofertado. E a valentia ali tão perto, na suite onde a prometida venialidade do hall ganharia texturas, sabores, aromas e fantasias. Depois e antes, também servidas frente à vidraça debruçada sobre os telhados modestamente encastelados até ao rio. O Douro, tom abaixo do rubi, no balão dos copos. O poncho de fina rede preta por vestido breve, a caxemira caída. 

Corria solto o verbo, quando a inevitabilidade dos benquistos jogos do espírito correu. O dinheiro confere, a prazo, bom gosto àqueles cuja nascença e crescimento o depreciou? Sendo o dinheiro forma outra de poder, motiva integração em meios onde gosto educado é comum. Concertos, bailado, ópera ou teatro associam poderosos. Por imitação, cobiça?, das obras de arte alheias, é iniciado o cultivo da estética. E, porque do ouro bruto nascem jóias, modelar os humanos é propósito intemporal das sociedades. O dinheiro como propina na escola do bom gosto. Isto disseram eles. 

Poncho despido, foram outros, em silêncios, os dizeres. A rede entretecida com seda caiu ao lado da caxemira.

 

Nota: em Escrever é Triste.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:03
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