Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

MARIA E MÁRIO

Jan Davidszoon de Heem, Natureza Morta com Violino e Livros,1628

 

Ela, como tantas, mulher Maria. Ele, Mário. Apresentados por terceiros, como soíam dizer, perguntada a origem do conhecimento. Na verdade, fora a «rede» que os capturara num instante de arrojo – intimidade do par que recusava escâncaras do porquê, do como e do onde. Mas não ocultavam da cidade e dos passantes abraços e beijos, mãos dadas, olhares e risos que sempre denunciam amantes.

 

A Maria era livre de atilhos românticos ou do que deles fizessem vezes. O homem Mário estava, até à Maria, gostosamente enredado numa relação estável com anos de histórico e cumplicidade e afeto. Mergulharam fundo nos enlevos preliminares do que julgavam paixão: marcado casamento daí a seis meses. Até seria, não fora o fatum estragar o quadro florido de mimos e beijos e o mais concluído.

 

Figurassem contrariedades, inexistente o comodismo da Maria e do Mário, as peripécias dos adeuses vários e dos regressos em idêntica proporção, a esmo tivessem acontecido monólogos, queixas, rogos e súplicas, inteligência e astúcia, haveria história para romance de cordel. Mas não: ganhou a passividade. Em vez de um protagonista, dois, sendo que nenhum deles desempenhou o papel de infeliz herói, ganhador somente no fim. Foi-se a faca e o alguidar onde o sangue emocional seria aparado. Por tudo não acabou a história pendurada em cordéis e barbantes, com os «cordelistas» arranhando violas enquanto, empolgados, animavam o povo à cata de ‘cobres’ dos compradores.

 

Anos atrás, comentadora deixou registo aqui:

_ “’Romance de cordel’ não tem a ver, precisamente, com as grandes sagas que alimentam o nosso imaginário desde os tempos medievais - "Tristão e Isolda", "A morte de Artur", por exemplo? E que mais tarde, perto do século XIX, quando o romance se assumiu como uma das expressões mais adequadas de uma burguesia cada vez mais poderosa, foi "vulgarizado", e chegou aos consumidores na publicação de jornais - lembro a grande "onda" de romances de Alexandre Dumas, Victor Hugo que em Portugal foram publicadas na imprensa, já no início do século XX.
Creio que se refere à ao nosso gosto por histórias, à necessidade de acrescentarmos à nossa realidade aquele espaço «contrafatual» que permite o sonho e a subversão.”


"Romances de cordel" ou "matéria de que são feitos os sonhos?”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Do pintor de hoje, Jan Davidszoon de Heem, mostra.

 

publicado por Maria Brojo às 07:46
link | favorito
Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

últ. comentários

Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
Olá Teresa: Fico contente com a tua correção "frei...
jotaeme desculpa a correcção, mas o rei freirático...
Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds