Sexta-feira, 22 de Março de 2013

NO VENTRE CHEIO DE UMA MULHER

 

Amy Kollar Anderson

 

Quando o ventre de uma mulher é lugar prenhe de vida e amor, desaba o mundo das pequenas coisas. Ao altar nobre da catedral íntima, ascendem afetos. No alvo linho, é deposta grinalda de gestos miúdos como salmo à glória do existir. Bordeja a toalha, entremeio de renda composto de ilusão, receios, mimos, desconfortos e dos «nadas-tudo» enlaçados por instantes, horas e meses. Muitos. Nove. Em semanas, trinta e oito; pouco mais, pouco menos.

 

Este é o tempo das ecografias arrecadas num CD. Da deteção, às doze semanas, de malformações grosseiras. De um sem-número de exames que esmiuçam o desenvolvimento da maravilha que no e do útero tem alimento e abrigo. O big-brother tecnológico espiolha, desde cedo, parcelas do crescimento celular. E é sabido o sexo do rebento. Se os pés são grandes. Se tem cabelo. Qual o peso médio ao nascer. A mãe, porque o é desde o momento da conceção, programa, assim queira, do parto os detalhes. Chama ao bendito fruto do seu ventre Manuel.

 

Recuando no tempo, ou tão somente das urbes que no presente centram recursos e informação, lembro as mulheres cobertas pelo pó da terra. Ventre curvado na apanha da batata ou da azeitona. Surpresas por sentirem escorrer nas pernas as águas da bolsa uterina. Mulheres cheias que contavam os dias em falta pela azáfama nas ceifas e nas vindimas. E pariam onde calhava. Embrulhada a criança no trapo à mão. As mamas escorrendo leite sorvido pelos gaiatos sem auxílio de enfermeiras experientes ou chip eletrónico no pulso.

 

E os garotos cresciam. E as mães engendravam outros. Pela solidariedade dos simples – tu hoje, amanhã eu -, desabrochavam vidas nos campos e lameiros. A cruel taxa de mortalidade infantil em cada seis crianças comia uma. Mas havia amor sobre a mesa e era esticado pão e caldo que a todos enganasse a sobrevivência. Para a mulher que o homem enchera, parir era dolorosa magia que multiplicava uma por dois. Como hoje. Como sempre.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:11
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4 comentários:
De jotaeme a 22 de Março de 2013 às 11:30
OLá Teresa: É quase simbólico para mim a descrição deste texto, no que respeita ao modo e faseamento da maternidade, há uns tempos atrás. Estou a reviver os cenários da minha infância, lembrar as palavras da minha Avó materna, parteira ocasional e quando necessario, Mulher pronta para tudo, fosse na agricultura, fosse para assistir ás manobras da vinda de novos rebentos a este mundo. Eu e os meus quatro irmãos assim chegamos através da "sapiência" empírica de minha avó, sem grandes problemas, na mesma casa, na mesma sala. Ouvia já jovem conversas desse jaez, relativas a partos acontecidos em lugares dos mais inesperados possiveis, e que nos dias de hoje seriam impensáveis! Se mais saudaveis ou não, não o poderei afirmar, porque não descuro os beneficios das novas tecnicas médicas de acompanhamento da Gravidez. Em especial o aleitamento materno era fundamental, como o é ainda, nos dias de hoje, para todas aquelas Mães que o consigam fazer. Por estas singelas razões este texto da minha Amiga me toca particularmente... singularidades, não é verdade? Um bom dia ! Jorge madureira
De Maria Brojo a 23 de Março de 2013 às 08:00
Jotaeme - Bom dia, Jorge! Gostei muito do seu texto. O nosso pensar é tão próximo... Obrigada pela partilha, querido amigo,
De Ghost a 23 de Março de 2013 às 00:36
Mais precisamente:

- entre horas e meses há dias: 266
- semanas: 38 - 42
- big brother ou avanço tecnológico?
- peso médio ou aproximado?
- bolsa uterina ou amniótica?
- gaiatos a mamar ou a jogar futebol, traquinar?
- chip electrónico no pulso ajuda a mamar?
- a taxa que comia crianças era comunista?
- amor sobre a mesa era sexo à moda antiga?
- multiplicar por dois dava gémeos?
- nem tudo se passa no ventre cheio...

Claro que a criatividade na composição pode acrescentar tons interessantes à narrativa mas devia fazê-lo sem distorcer os factos.

http://www.youtube.com/watch?v=_7oG9g-yFcM


De Maria Brojo a 23 de Março de 2013 às 07:57
Ghost - provocações com graça.

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