Dona Surprenant - Two Men Praying
Entrava em casa após um «vou-ali-volto-já» ao minimercado do bairro - para mercearia, demais, para frutaria, de menos, para mercado muito em falta, para supermercado órfão de «pai-monstro» com múltiplas cabeças. Evitava as grandes superfícies vendedoras pelo cheiro que inventou e agoniava.
Dois idosos caminhavam, lentos, pelo passeio. Sentido contrário ao dela. Um saco em cada mão, antebraços erguidos e angulados, transformava ato comezinho em recreio de musculação. Eles e ela quedaram-se à mesma porta. Decorreram segundos embaraçosos. Para meliantes faltava-lhes viço, de pedintes não tinham ar encolhido e sabujo. Enquanto apalpava os bolsos, pediram autorização para entrar. Ainda a chave procurava o lugar e começou diálogo (im)provável para quem, por dez minutos, interrompera a doçura doméstica para comprar amêndoas – o resto fora acréscimo que não rabiscara no post-it mental.
De oitenta para cima, o mais velho apoiava na bengala o esqueleto ressequido até metade do que um dia fora. O outro, vivendo dos setentas a metade superior, não tinha esvaído por inteiro a robustez do corpo alto, esguio e bem-apessoado. Apresentaram-se com a dignidade de cavalheiros num salão - podiam ter dito “a menina dança?” que ela não arregalaria de espanto os olhos. Mas escutou:
_ “A menina aceita ouvir a palavra do Bem?”
Por ato compassivo, omitiu remoque: “tenha a fineza de me somar décadas!” Fez silêncio que à bondade/estratégia dos interpelantes não diminuísse efeito.
_ “Acredita na Bíblia?”
Ela nem que sim nem que não; ainda remoía o fato de avançados anos, quem deles se atrase, um que seja, merecer epítetos de “miúdo”, “jovem”, “rapariga/rapaz mais novo que eu”.
_ “Permita que lhe ofereça este fascículo baseado na Bíblia”.
Aceitou. Antes a novidade dos dandies idosos substituindo par de reformadas devotas de pudim flan, de conversas vazias e cheias de piedade e compreensão e de queixas de doenças e de solidão e do marido rabuja e do filho que nem casa nem gera netos que constem nas fotografias gastas pelo uso que trazem nas malas de mão. Eles começaram, apartamento a apartamento, o périplo catequista.
O que leva humanos a ensaiarem, na fase final da vida, a carreira de profetas? A optarem por dias apostólicos, disseminando nos bairros presumidas verdades? A trocarem jogatinas de bisca e damas em recato aconchegado pela venda «porta-a-porta» das palavras de um Deus? E enchem as igrejas nos rituais comunitários uma vez por semana. Lavam as respetivas almas para nos dias seguintes os preencherem com exaltada fé em aléns.
Quando em cada acordar (...)
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