Sábado, 30 de Março de 2013

Jogando à bisca com Deus

 

Dona Surprenant - Two Men Praying

 

Entrava em casa após um «vou-ali-volto-já» ao minimercado do bairro - para mercearia, demais, para frutaria, de menos, para mercado muito em falta, para supermercado órfão de «pai-monstro» com múltiplas cabeças. Evitava as grandes superfícies vendedoras pelo cheiro que inventou e agoniava.

 

Dois idosos caminhavam, lentos, pelo passeio. Sentido contrário ao dela. Um saco em cada mão, antebraços erguidos e angulados, transformava ato comezinho em recreio de musculação. Eles e ela quedaram-se à mesma porta. Decorreram segundos embaraçosos. Para meliantes faltava-lhes viço, de pedintes não tinham ar encolhido e sabujo. Enquanto apalpava os bolsos, pediram autorização para entrar. Ainda a chave procurava o lugar e começou diálogo (im)provável para quem, por dez minutos, interrompera a doçura doméstica para comprar amêndoas – o resto fora acréscimo que não rabiscara no post-it mental.

 

De oitenta para cima, o mais velho apoiava na bengala o esqueleto ressequido até metade do que um dia fora. O outro, vivendo dos setentas a metade superior, não tinha esvaído por inteiro a robustez do corpo alto, esguio e bem-apessoado. Apresentaram-se com a dignidade de cavalheiros num salão - podiam ter dito “a menina dança?” que ela não arregalaria de espanto os olhos. Mas escutou:

_ “A menina aceita ouvir a palavra do Bem?”

Por ato compassivo, omitiu remoque: “tenha a fineza de me somar décadas!” Fez silêncio que à bondade/estratégia dos interpelantes não diminuísse efeito.

_ “Acredita na Bíblia?”

Ela nem que sim nem que não; ainda remoía o fato de avançados anos, quem deles se atrase, um que seja, merecer epítetos de “miúdo”, “jovem”, “rapariga/rapaz mais novo que eu”.

 

_ “Permita que lhe ofereça este fascículo baseado na Bíblia”.

Aceitou. Antes a novidade dos dandies idosos substituindo par de reformadas devotas de pudim flan, de conversas vazias e cheias de piedade e compreensão e de queixas de doenças e de solidão e do marido rabuja e do filho que nem casa nem gera netos que constem nas fotografias gastas pelo uso que trazem nas malas de mão. Eles começaram, apartamento a apartamento, o périplo catequista.

 

O que leva humanos a ensaiarem, na fase final da vida, a carreira de profetas? A optarem por dias apostólicos, disseminando nos bairros presumidas verdades? A trocarem jogatinas de bisca e damas em recato aconchegado pela venda «porta-a-porta» das palavras de um Deus? E enchem as igrejas nos rituais comunitários uma vez por semana. Lavam as respetivas almas para nos dias seguintes os preencherem com exaltada fé em aléns.

 

Quando em cada acordar (...)

 

Nota: texto completo aqui

 

publicado por Maria Brojo às 10:53
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Recomendo:

Exposição de Artes Plásticas - Conceito

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

últ. comentários

Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...
De férias , para sempre. Fechou a loja... :-(
Curta as férias querida...Beijos
ABANDONODAVID MOURÃO FERREIRAPor teu livre pensame...
Ainda?Isso aí no Inverno é gelado ;-)

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds