Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

IDO O VAZIO EM FRENTE

 

   

Autor que não foi possível identificar               Lew Loose Devotion                                         Michele del Campo

 

O Sr. Martins comprou apartamento em zona nova da cidade. Vistas desafogadas. A mulher revê-se na cozinha metalizada. Mira o pavimento lustroso. Sente cheiro a novo diferente do empestado pelos ácaros – membros outros da família – na habitação anterior. Pela mudança, eliminadas velharias sem préstimo – tachos com pegas omissas, roupas velhas, móveis, pratos e bibelôs lascados. Arrebicaram o novo espaço copiando ambientes de revistas e montras.

 

A D. Célia lastima a falta do estendal na janela vendida que lhe deixava a roupa seca pela conjugação do vento e sol. Desigual o cheiro dos turcos, cuecas e peúgas enxutos vidros adentro. Os filhos atafulham os quartos com vícios transitados. A sala é espaçosa. Chamam-lhe salão pelos metros quadrados a mais. Debruçados na varanda, olham a distante, cerca, olham a distante, cerca, linha de céu recortada pelas torres de Santo António dos Cavaleiros. Horizonte e tanto!

 

Num regresso do trabalho/sustento, olham o gradeado, surpresa, do vazio em frente. O outrora liso fica buraco imenso. Gruas, guindastes e trolhas afadigam construção. Quando meditaram a compra, pesou a garantia da igreja e do pavilhão gimnodesportivo na esquerda afastada do apartamento. Ocupação arquitetónica em superfície e altura a nível inferior do segundo andar.

_ Ótimo! Os miúdos empatam em desporto algum do tempo que lhes cola dedos às teclas ou dedicam a fumaças.

 

Durante meses suportam pó, escavadoras estridentes, a visão do aço empinado. A utilidade da Igreja _ “quando os teus pais vierem podem ir a pé à missa!” _ e do Pavilhão Desportivo confortam a impaciência. Estranham os ferros crescidos dia a dia. Redes azuis acima do terceiro andar. Condomínio de «tês». E desaparece a linha de céu, o sol passa a candeeiro atrasado que ilumina o amanhecer dos Martins.

 

Indagam. Querem saber do cúmulo em altura. Do espaço verde substituído por betão que circunscreve o «além-vidraças». Vozeiam condóminos inconformados pela fronteira. O bem comum, planeado pulmão vegetal, vale lentilhas de truz. Patos bravios, legitimados pela autarquia, recolhem mais-valias ciganas. Engenheiros e arquitetos, conhecidos pelos currículos espessos, a(ssa)ssinaram arejamento urbano. Cimento mal enjorcado diante dos Martins e por todo lado, erguido como suposta arte arquitetónica. Que não é, salvo para incautos.

 

Os Martins podem bramar. Safarem-se de viaduto a metros da sacada é jogo de sorte ou azar.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:11
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