Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

COMO SE ESTIVESSE MORTO

 

 

Henryk Fantazzos

 

É homem das letras. Ensaísta, crítico de arte e literatura, poeta, amante da vida e do que dela afirma melhor: as mulheres. Casa e descasa por paixões – estando uma moribunda, outra se alevanta. Farto dos registos burocratas que legitimam amores, altura houve em que decidiu levar a cabo empreitada diferente das comuns. Calcorreou repartições em busca de alguma que, destemida, carimbasse inédito compromisso entre um homem e uma mulher: pacto mutuamente consentido, de exclusiva prática adúltera. Não conseguiu. Há vinte e cinco anos que vive com a «mulher-amada-amante» nas condições fora-da-lei então definidas.

 

Num fim de tarde adoçado por réstia de sol, o lençol do Tejo em frente, afirmou: “nunca falhei a uma mulher”. Bailaram insinuações brejeiras. Amigos de tempos que foram e são aproveitaram a deixa magistralmente encenada pela voz grave, gestos largos e lestos olhos azuis. Garantiram que alguma falha, alguma negação à sorrelfa da vontade, terá cometido o pedaço do corpo que nas vulvas encontra deleite. Negou. Deu razão: “a uma mulher, ou mais, se ajuntamento delas acontece, sempre disse: façam-me tudo como se estivesse morto! Ora, de um defunto nada há a reclamar. É milagre a ressurreição da carne. Alegre acrescento ao nada que antecipei.” Voaram risos e contestações no crepúsculo de folhas caídas.

 

Remoí a frase. No respetivo contrário, me fixei. Sendo um homem dado à multiplicação das grutas femininas que lhe recolham o sémen acresce consideração nos machos congéneres. As legítimas são consideradas “devotas e amorosas almas” respeitadoras do ‘pater’ que, com elas, família gerou. Mulher que se declare aberta a múltiplos dadores de fluidos e prazeres gera repulsa nas pares. Talvez comiseração. Talvez rótulo de “perdida” ou paciente que a ninfomania vitimou. Os companheiros guindados ao altar da infelicidade pelos enfeites na testa.

 

Mas também eles são vítimas dos «pré-conceitos» sexuais. Abeirando-se dos cinquenta, é memória ou surpresa rara a generosidade das «duas» consecutivas. «Uma» incondicional é rara sendo a base diária. Cada vez mais longo o recobro e o regresso do sangue à guelra e a passagem de defunto sexual a vivaço capaz de débito que povoe lugarejo – perdida, tempo atrás, a capacidade de, numa assentada, preencher cidades com novos habitantes. E alguns homens «pintam» com benevolente pastel as mudanças. Dizem-se mais sábios. Mais atentos aos jogos que antecedem a prova que espera a carne pendente. Mais desejados por ninfas pela demorada entrega que dos homens próximos em idade não obtém. Esquecem que, passada a novidade, a demora cansa as “lolitas”. E correm, alegremente, o risco de serem chutados para fora da pequena área. Que outros façam goleada com eficácia e pundonor.

 

A partir dos cinquenta, rala certos homens saber das mulheres, pares na idade, a gloriosa fase de não temerem gravidez e da fruição aumentada dos jogos de pele e corpo. E temem-nas. Alguns renegam-nas. Encantam ninfetas com o erotismo advindo de outros poderes. Pelo seu lado, as mulheres ditas maduras deparam-se com a realidade de homens distantes, para menos, na idade atentarem no fascínio das balzaquianas a que a modernidade somou vinte anos. Se Honoré de Balzac por cá andasse, em vez do título “La femme de trente ans”, pela certa escolheria outro: “La femme de plus de quarante ans.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:18
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

últ. comentários

Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...
De férias , para sempre. Fechou a loja... :-(
Curta as férias querida...Beijos
ABANDONODAVID MOURÃO FERREIRAPor teu livre pensame...
Ainda?Isso aí no Inverno é gelado ;-)

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds