As buganvílias trepam na brancura. De encontros é o tempo. De liberdade, as horas. Porém, o trabalho ainda acena no ciciar das ondas e do crepúsculo. Básico o instinto.
10 de Junho - Dia da Raça. De Camões ainda entendo, ou o defunto não tivesse sido exemplo do desterrado génio zarolho, desenrascado e afoito. O símbolo da gesta dos Descobrimentos e da epopeia portuguesa deu o pretexto ao morrer a 10 de Junho de 1580. Mas da raça... Qual raça se mais não somos que herdeiros de miscelânea de povos? Cruzámos sangues, disseminámos sémen pelas cinco paragens que dizem ter o mundo. De coitos vários nascemos. Por outros tantos povoámos continentes. Se alguma característica nos distingue dos assépticos povos europeus é a da prontidão para a cópula, seja qual fora a raça da fêmea que, acordando a tradição, está por baixo.
No canto nono dos Lusíadas, navegantes e reles tripulantes fornicaram com ninfas entendidas na arte do toca-e-foge. Um deles, Leonardo, desafortunado nos amores, viu mudança no fado por Efire, exemplo de beleza que mais caro que as outras dar queria. Mas deu. Volvendo o rosto já sereno e santo, toda banhada em riso e alegria, cair se deixa aos pés do vencedor, que todo se desfaz em puro amor. A pertinácia lusa que mais valoroso exemplo podia ter? Centenas de anos volvidos, o Zezé Camarinha das terras algarvias tentou fazer jus à herança.
Arrepia-se a esquerda pelo associar da celebração da raça ao 10 de Junho que o Estado Novo glorificou. Vãs cogitações! Não há raça salvo a que advém da condição de copuladores intercontinentais. Nem assim única - os espanhóis puxaram dos galões literários de Don Juan e fizeram mais do que podiam.
Pela história e nos Lusíadas, encontrem alívio os espíritos canhotos, porém sensíveis. Porque, afinal, mais não foram os nossos heróis que aprendizes indefesos da sabedoria feminina.
De uma os cabelos de ouro o vento leva Correndo, e de outra as fraldas delicadas; Acende-se o desejo, que se ceva Nas alvas carnes súbito mostradas; Uma de indústria cai, e já releva, Com mostras mais macias que indignadas, Que sobre ela, empecendo, também caia Quem a seguiu pela arenosa praia.
Outros, por outra parte, vão topar Com as Deusas despidas, que se lavam: Elas começam súbito a gritar, Como que assalto tal não esperavam. Umas, fingindo menos estimar A vergonha que a força, se lançavam Nuas por entre o mato, aos olhos dando O que às mãos cobiçosas vão negando.
Com prazer e alívio olhou as saquetas do descafeínado da Nescafé alinhados no despenseiro. Até que enfim passados os fins de semana em que viajavam apertadas na sansonite cinza! Quedou o domingo, olhando-os sem saudade. Nem o arrogante, nem o volúvel cúmplice, entre mimos e doçuras, se haviam alguma vez lembrado da frugalidade que ela pequeno-almoçava leite cujo sabor o inócuo café disfarçasse. A bica do despertar, sim, era razão para apuro. Qualquer deles esmerava o conteúdo fumegante da chávena o primeiro porque da condição de best off não desistia, o segundo porque dele precisava para fumar o primeiro cigarro do dia. Aquele que meava os trinta, dois (três?) homens atrás, tinha na cozinha um sucedâneo mal-encarado e cujo sabor execrara adiava a dose de adrenalina matinal para a esplanada virada ao sol sita na praça da cidade velha. Esvaídos nos paparicos e demonstrações viris, nenhum se lembrara de a esperar prevenindo no armário Nescafé sem cafeína. Houvera flores, velas, champanhe, presentes, lingerie, vinhos, esmero culinário e lençóis cheirosos esticados. Minúcia no menor detalhe da estada. Porém, fins de semana depois, continuava em falta o descafeínado que preferia.
No interlúdio da tarde, tirou da embalagem uma saqueta. Num gesto conhecido, rasgou-a e verteu no leite gelado o conteúdo. Debruçada sobre os plátanos-criança, o sol e o vento lambendo-lhe a face lavada, bebericou a mistura. Finalmente, havia paz no horizonte onde o dia à noite passaria testemunho.
Declaro oficialmente aberta a silly season neste blogue. Este é o tempo do futebol e dos valentes da selecção. Há, porventura, razão mais mobilizadora e esperançosa para o povo que somos do que as proezas, ou falta delas, conseguidas por via dos pés enfiados em peúgas com as cores nacionais? Que se assemelhe e me lembre, nem horda de assobios ao Engenheiro Sócrates pode constituir rival.
A assunção de estar iniciada a época parva nos meus textos é bem capaz de suscitar o comentário de por aqui ela durar todo o ano. Arrisco e acrescento: martelar na crise dos combustíveis que arrasta a das pescas, da indústria e a penúria dos cidadãos, pela recorrência, cansa. Porque as misérias humanas não têm solução com lamúrias de sofá, opto pela exigência possível no estar que suavizo pela fruição de múltiplos prazeres. O da escrita é um deles. Sendo de sol e mar as previsões, de alegria íntima o meu hoje, arrenego tristezas ociosas que o país e o mundo não alteram. Os dois milhões de pobres em Portugal carecem de pão e dispensam escritos piedosos.
Porque chegaram os dias cálidos, porque foram hasteadas bandeiras lusas nas janelas e montras e nos automóveis, porque vencemos à Turquia, porque é tempo de sardinhas, porque as abençoadas pontes laborais se sucedem, porque o Obama vai de vento em popa, porque a Hillary honrou o feminino na política, porque as noites mais não pedem do que um lençol, que se danem as ralações. Na rentrée, é certo continuarem tal-qualmente. Chega de justificações que não devo a ninguém.
Li que a polícia de Bucareste procura a responsável por pedinchice inovadora. Ocorre nos comboios que atravessam a cidade presumo semelhantes aos de Praga, pois à capital da Roménia nunca arribei. A singular pedinte selecciona as viagens de maior lonjura. Certa da composição estar isenta de câmaras e de guardas, liga um leitor de CD, programa o tema You Can Leave Your Hat On, do Joe Cocker, e inicia strip dançado em torno de um varão da carruagem.
Os afortunados passageiros que assistiram aos espectáculos dizem-na atraente, jovem e com glamour. Findos os sinuosos requebros, veste-se com garbo e inicia a recolha de moedas.
Keith Garv
Infeliz sina a nossa que nem a pedir temos o garbo romeno! É a derrota ou a manigância que estende a mão a quem passa. No metro, na carris, nos cantos das artérias onde circulam multidões, o pedir não vai além das tristezas e das rudes misérias urbanas.
Não fosses querida amiga e garanto não me dispor a matutar no que odeio. Solicitas meia dúzia de ódios. Miro de cima abaixo o meu histórico e não lembro mais do que um. Dando-me tempo, até ao fim da frase engendrarei não o segundo ódio, mas duas embirrações. Porque do que rejeito não como e calo, tenho por uso dizer no instante o que me vai na razão. Arrenego arrastar saco de cinzas, embora quem julga medir todos por si, amiúde, afirme que sim. Engano. Vomito-as na hora. E é leve o meu passo e doces as horas em que a lágrima não arriba e choro mantendo o rosto enxuto. Por esta altura, cheguei à quarta antipatia. A que falta, das cinco, acharei enquanto alinhavo as primeiras. A que encabeça a fila é omnipresente nos passos do meu caminho; as restantes declaro exequo.
- Falsidade. Por si basta. Nada mais adianto.
- Arrogantes. É o mesmo que dizer cagões ou infelizes que em si próprios não se revêem.
- Pessoazinhas. Não são nem deixam de ser e buscam encosto no limoeiro mais prometedor do quintal raramente possuem quintas.
- Cacofonias de gente.
- Vendilhões do Templo.
- Sapatos com falta de graxa e polimento.
- Falta de sensibilidade e lustro genuíno nos engraxadinhos.
Têm estado vazias as bancas do peixe no mercado de Matosinhos. Na capital da moirama, não falta o pescado nacional. Dizia, aos microfones da rádio, uma vendedora no Saldanha que frutos do mar catrapiscados pelas redes nacionais sejam de ontem ou de hoje estão à mesma frescos. Argumento imbatível: ninguém compra um bovino de uma só vez; adquire-o aos pedaços, tenham uma semana ou mais de frigorífico. Faz sentido. Porém desconfio que linguados de vésperas não me façam o género - gosto deles suculentos, húmidos e salgados no momento.
Os pescadores rezingam e nada tenho a opor. À uma, os noticiários sobre a querela não me têm informado comme il faut, às duas, se os homens do mar têm queixas contem, desde logo, com a minha simpatia pela bravura nos assaltos aos mares, às três, a nossa frota pesqueira não pára de diminuir. Iria às quartas, não fosse o abuso na extensão da frase. Feito o intervalo, aqui vai: como dizia o Bruno Nogueira no Tubo de Ensaio transmitido pela mui estimada TSF, estou farta de comprar produtos do mar mais viajados do que eu. Os camarões-tigre vêm de Moçambique ou de Madagáscar, a perca chega do Egipto que tenho evitado pelos calores desmedidos, o berbigão é das Fidji e o tamboril completou seis Lisboa-Dakar antes da chegada. Uma mulher vai comprar a substância da janta e regressa deprimida. Logo eu que, com meia dúzia de tralhos na mala de cabina, estou sempre disposta a voar para (a)venturosos destinos.
Depois, ali pras bandas do Puerto, carago!, a vida tem corrido o mal. Não bastava o contranatura silêncio das peixeiras e decide a UEFA afastar da Liga dos Campeões o FêCêPê à conta dumas fraudes banais no mundo futebolês. Que descaro! Franchement! Isso faz-se a um clube em azul e branco como os anjinhos dos altares? Manobra da moirama, está bem de ver! Tal como desenrascam o peixe, arranjaram meio de levar pela mão o Benfica ao campeonato milionário. Uns fura-greves e vidas sem pingo de pundonor!