(Des)Enfastiei catorze portas de roupeiros. Um quinto dos meus haveres de vestir aguarda o amanhã de transporte pela mui querida e prestável Cila. Pelas quatro da tarde, ainda ela engomava, foi iniciado o desbaste. Até à uma da manhã, eliminei o (im)possível. Aspirados os resíduos dos arrumos, espetei o indicador na terra dos verdes e dessedentei os precisados. Frente à porta-varanda que prefiro, estiquei o rosto e as pernas nuas ao vento, cumprindo o ritual da noite que no acordar repito.
Por ora, das portas de roupeiro para meu uso, descontando duas onde preservo, longe do pó, os livros-tesouro, e uma de (in)utilidades, destinei: - duas para abafos compridos e gabardinas; - três para tailleurs, vestidos de noite, de cocktail e de quotidiano; - uma para camisas, outra para calças e mais uma para saias; - uma e meia para blazers, bombers e casacos curtos, todos em pele mais parecendo o arco-íris (estes «nadas» tiram-me do sério, confesso!); - uma e meia aguardam os pertences de quem chegar.
Em três prateleiras, alinhei caixas de botas e sapatos. Duas ficaram com malas. Um «contentor», deliciosamente tapado em verde-lima, recolheu pastas, sacos e mochilas. Outro semelhante alinhou, envoltas em flanelas, aquelas coisas mínimas que soem pender da mão ou do ombro nas festas. Não conto das gavetas e gavetões com intimidades, tops, conjuntos para ginásio, malhas grossas e finas, finuras de materiais estranhos.
Bem contadas, nove horas de trabalho. Cinco sacos com bens de que não necessito. Um sacão de tralha gasta até ao fio. Oito isqueiros recuperados.
Um não-amigo, conto alguns, persiste no cultivo do meu intelecto por via da RTP2. Devo-lhe a generosidade da lembrança e a bondade do julgamento desta leda cabecinha. Olhando para o monstro mudo, propus-me saber do caos da nação. Na 1, os Prós e Contras prometiam angústia para seroar. Fosse pelo estado de tásse bem!, ou pelo rescaldo de um dia cheio, aceitei o desafio que me propus.
Tendo-me corrido mal, por falta de engenho e verbo, a crónica da semana no PNET Mulher, descansei as teclas não prometiam que delas saísse nada melhor. Um a um, os pontífices foram apresentados pela estridente Fátima Campos Ferreira. Que me perdoem, mas pareciam meninos do St Julian`s em versão serôdia. Explico: very cool na postura, idênticos na farpela, no duplo-queixo e nos narizes inchados de prestígio. Não os soubesse figurões da sapiência e do poder, voltaria à malfadada crónica e passaria em rodapé: homenzinhos.
Das banalidades que ouvi, ressalvo a ousadia de um cientista político(?) cujo nome desconheço. Como soe dizer o referido não-amigo, um engraçadôncio! Entre outros nonsense, afirmou mover-se o PSD a diesel e o PS a gasolina. Faltou explicitar qual delas. Mais à frente, debitou tirada à Monsieur de La Palice o engenheiro José Sócrates é melhor do que os outros porque tirou o curso numa universidade obscura que não lhe encheu a cabeça de merdas (as merdas são minhas). Foi o único momento em que dei por bem empregue o tempo.
Comentário final: malvado St Julian`s que obriga alvas camisas. Um tédio! Outro não-amigo, que muito prezo, arrisca camisa Façonnable com gaivotas em cerimónia de estadão. Isso, sim, é ousadia!
«Lapalissades» famosas
«Ce que j'ai écrit, je l'ai écrit. », Pôncio Pilatos. «Quand c'est rugueux, c'est pas lisse » Jacques Lanzmann « Je pense que nous sommes d'accord : le passé est révolu.», George W. Bush. «La plupart de nos importations viennent de l'étranger» George W. Bush
Nota: Afirma o não-amigo que cuida do meu intelecto, que a minha imagem "faz lembrar aquela imagem e você lembra a personagem mas com handicap e outros conteúdos."
Body Heat (1981) - introduction of Kathleen Turner