Sábado, 16 de Agosto de 2008
Autor que não foi possível identificar Há mistérios mais insondáveis que outros. Os «Vs» são intrigantes humanos ocidentais. Tenho-os por homens devido às características usuais do sexo masculino. Diferença: tudo neles é extremado. As costas são larguíssimas, os pescoços cheíssimos, as veias salientíssimas,os músculos rigíssimos, o cabelo curtíssimo e os rabos pequeníssimos. Presumo a pilinha proporcional ao que a circunda: mínima.
Perante um enigma não estou para arrepios - observo, indago até dali tirar o sentido. No começo da "época balnear", revi «Vs» a quem sempre enderecei olhar perplexo. Simulei soneca profunda e fiquei em vigilante ratice de um grupo padrão: homem normal, dois «Vs» séniores e um júnior. Todos usavaqm cuecas de banho pretas. As posturas diferiam: o normal sentado à sombra, o júnior estirado ao sol e os séniores em pé como Rangers sentinela.
O novato, barriga para cima e olhar vazo, disse - cum caneco, tenho uma fome.... Comentou um dos veteranos pá, daqui a pouco podes comer o gelado!. Outro comeste peixe grelhado ao jantar? Volve o novato pá, comi, pá, mas aquilo não enche. O normal intervém - gelado, peixe grelhado e água é lá sustento de homem! Bebam é um bom vinho e comam à maneira! O júnior comenta enjoado vai lá vai pá, não gramo álcool; é mais para queimar pá. Silêncio. Suspiros. Rosnam estômagos e acomodam-se os intestinos gasosos. O sénior daqui a um quarto de hora temos gelado O outro - yeah O júnior - bora à água para entreter! Os «Vs» caminharam arrastando os pés no areal. Ângulo agudo culminando nas nádegas mínimas. Pernas arqueadas. Braços compridos, em arco, balouçando na cadência do passo. Orangotangos pilados.
Conclusão pessoal: «Vs» pensam, comem, falam, mexem-se. Tudo devagar. Sofrido. A pilinha deve ser atrofio. Como o rabo.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Célia Bernardo e António Eça de Queiroz
Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
Sorayama À parte a nata que habita casarão de família em pleno centro urbano ou prédio da zona histórica, airoso, remodelado e, por isso, luzidio como brinco acabado de comprar, a espuma social vive em condomínios fechados. Na ausência de estrelas classificativas, distinguem-se por parâmetros difusos, se bem que consensuais: é diferente habitar no Alcântara Residence ou no Massamá Place.
Quem olha de fora os portões e gradeamentos dos guetos ajardinados, pode ser ingénuo e julgar os de dentro com vidas desafogadas. Abastança não raro fictícia - sabido é que calotes e preço por metro quadrado são directamente proporcionais. Condómino pontualmente pagante das mordomias mensais, é raro. Lugar de venda de frutas e legumes levando a casa a encomenda, é bom que se rodeie de cautelas as empregadas recebem, a «senhora» nem vê-la e, semana após semana, a «continha» cresce como pico da Estrela.
As empregadas são o lado picaresco. Na negociação do contrato, indagam se têm lugar na garagem, já que estacionar foi um inferno. A meio da tarde, as «babás» empurram cadeirinhas e vigiam querubins loirinhos e de olhos azuis. Cada uma reclama para a respectiva patroa maior (des)mérito social É como te digo, Zulmira, «hádes» ver ela na revista que te falei. Ninguém diria que aquela é a ramelosa que encaro pela manhã quando lhe entro em casa!
A coisa chegou a tal ponto que, estando aqui a «piquena» partilhando limpezas profundas com a Cila - no momemto empoleirada num escadote -, fui abrir a porta ao novo funcionário do talho. O homem mirou-me e, antes de entregar a encomenda, perguntou: a Senhora está?
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Rita Barata Silvério e Carlos Amaral Dias
Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
Sorayama
«A própria identidade, o clube e um emprego para a vida eram os vestígios da tradição conservadora, hoje desmantelada e substituída pela precariedade dos afectos, dos compromissos, dos projectos, da vontade, dos ideais.» O ser e o clube permanece intocado para a metade XY da humanidade. No genoma da fracção marialva, está escrito: muda de fé, de carro e de mulher, nunca de clube! E assim é, com acentuada relutância para o automóvel e alguma displicência para a mulher.
As mulheres são pendulares mudam bem de quase tudo, excepto de marca de
fond de teint. Por princípio, rendem-se ao que é novo e mais sedutor. O clube depende. Iniciam as lides futebolísticas por via paterna. Sendo o pai castrador, mudam para o inimigo fidagal que reuna maior consenso no «grupo». Já adultas, o percurso clubístico depende da meteorologia amorosa - amor em alta e o clube dele é o máximo, se nublado é o que se lixe! Volúveis, neste particular, não raras convicções femininas.
As mulheres fieis a um clube diferente daquele que anima o parceiro é, normalmente, tributo a um outro amor: o pai, o irmão, o primeiro namorado, um amante. Se românticas, ficarão tão apegadas ao Nuno Gomes e à águia como à memória do perfume que o homem de referência usava. A qualquer deles reservarão suspiro mascavado. As adúlteras, em vez de datar ou nomear factos e amores, dirão com um sorriso enigmático: Ah!, isso foi quando eu era da Académica... Para elas, datação inequívoca equivalente aos automóveis neles. Referências sexistas que perduram e revelam o esconso dos estereótipos.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão
Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

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<img src='http://fotos.sapo.pt:80/DYcZKJpAphf0V74gqWkS/' title='morning.jpg' height='435' width='550'>
<i< Steve Hanks </i>
O dia nasce, trepa ao cume previsto, suaviza-se pela tarde e põe-se de mansinho. Há dealbares impetuosos nos estios excessivos e ocasos precoces quando a tempestade arriba. Uns e outros chegam com maior majestade que fragata no Tejo. O mesmo com os amores paixões súbitas e amores intrincados como arabescos. Crescendo e finando como o dia.
É pelo meio da tarde que, normalmente, tudo acontece. Ida a madrugada e o cume do meio-dia, o tempo é de sossego e pode calar o desejo. A previsibilidade ronrona, as cigarras teimam na melopeia, o outro parece milho maduro do qual conhecemos os grãos. É conhecido o pisar no restolho que forra o chão. Mal lembramos a brisa das glicínias elevando-se à janela pelo começo da manhã. Na moleza da tarde, há o conforto do certo e a nostalgia do incerto latejando na fundura íntima.
Apetece sol na eira, chuva no nabal. Conservar o histórico de um amor e aumentar a liberdade que promete colheitas novas e encantos viçosos. Talvez prescindir da doçura do entardecer e fantasiar apenas e só madrugadas. Espalmar o dia entre o nascer e o zénite solar. Dos amores, somente começos. A metade de sobra jazida no desdém.
<center> <b> CAFÉ DA MANHÃ </b> </center>
<center> <b>A ler: <a href="http://www.pnetmulher.pt/" rel="noopener">Paula Capaz</a> </b> <b> e <a href="http://www.pnethomem.pt/" rel="noopener">SAntónio Costa Santos</a> </b>
Terça-feira, 12 de Agosto de 2008
Autor que não foi possível identificar Não quero varandas no mar Egeu. Esquece a villa de Santorini e o mar azul-turquesa. Esquece o casario branco e as cúpulas esparsas alcandoradas na falésia. Dispenso o peixe fresco, pescado à beira do restaurante, a praia de areia vermelha e o entardecer em Perissa, o Beach Bar onde a noite acelera. É peregrinar na felicidade que desejo. E é tão fácil ser feliz!... Basta não pedir às coisas e às pessoas mais do que elas podem dar. Então, descobre-se que são diferentes, mais ricas; que são, até, tudo o que procuramos.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca
Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Will Kramer Nunca bastantes. No perfil em que as alinho, escandaliza o excesso. O arco-íris está inteiro, porém, as brancas dominam o resto do pelotão. Refiro-me à alvura tentadora das camisas que prefiro. Cetins, sedas engelhadas, algodões translúcidos. Trabalhados ou lisos. Punhos dobrados, simples ou com atilhos. Se viajo, são as que primeiro dobro e emalo.
Jeans, saia e casaco ou qualquer base outra serve para complementar a finura branca do tecido da camisa. Permito-me envaidecê-las com acessórios improváveis. Favorecem arrojos, que, de resto, nunca abdico. Alguns só eu entendo, que à excentricidade ostensiva, rude, digo não. São os discretos, aqueles das subliminares mensagens dos quais retiro maior prazer. A lingerie, destacada levemente e em harmonia com a virginal camisa, é um deles.
Imaculadamente passadas é regra. No engomar nem sou maníaca, salvo nas camisas. Ao vesti-las, é o cheiro da infância que regressa. Lembro as férias de verão e os linhos cheirosos que forravam camas. De ver roupa a corar para que o branco não fosse perdido. Como estendal, o alecrim em sebe - assim recomendava a avó. E, ao colar a pele à macieza do tecido, é paz que visto. O perfume, como nuvem em que antes penetrei, não é o do alecrim, contudo, é deste o símbolo e dele o cheiro. Como antes.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Teresa C. e Mauro Castro
Domingo, 10 de Agosto de 2008
Olívia de Berardinis Bijutaria "pequena obra destinada a enfeite ou adorno. Do francês bijou." O dicionário não se alarga, mas qualquer mulher diria mais - enfeitiça pela novidade e pelo frívolo. Missangas, pedra, osso, flores, conchas e plumas, tudo serve. Basicamente um acessório certeiro a par da fenda na saia ou do botão despejado da casa, como armas poderosas que Patton não renegaria. Estratégia que pode ser mais avassaladora que a blitzkrieg.
Camisa entreaberta e lenço curto de algodão rematando o pescoço, sugerem resistência partisan; emboscada, esperança na França Livre. Colar de pérolas, recortado no colo despido pelo decote de um tailleur, é batalha de Stalingrado início de capitulação.
Jeans justos alcandorados em saltos, sem colar ou brincos étnicos, ficam tão desprotegidos como o Afrikakorps de Rommel. Já os bordados duvidosos nas honestas gangas são kamikases (espatifam o requinte sem apelo nem agravo) conquanto o recheio dos jeans seja tão decisivo quanto o talento do Montgomery. E é simples existe ou não! Quando as curvas traseiras rematam pernas longas coladas ao tecido, lembram resposta ao ataque japonês à base havaiana de Pearl Harbor: declaração de guerra ao Eixo. Masculino para começar.
As que pecam por excesso nos enfeites, se por um lado lembram abeto natalício, por outro são rés do julgamento «nuremberguiano» das suas pares. Implacáveis, mas justas!
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho
Sábado, 9 de Agosto de 2008
Greg Hildebrant Frases envenenadas. Não necessariamente providas de intenção dolosa. Apenas certeiras. Directas à fragilidade que ocultamos. Palavras sentidas como aguilhão espetado no fundo onde tudo dói mais.
Fortalecer a auto-gosto é meio-caminho-andado para fintar potenciais de mágoas. Como armadura onde comentários aguçados fazem ricochete, deixando ileso o alvo. Porém, qualquer psiquismo, por mais trabalhado que seja, abre fendas. Portas de entrada ao que inquina a serenidade. E o espírito, uma vez contaminado, pode ulcerar e doer e picar e atormentar.
É uso da agressividade fazer arma de defesa. Retorquir, avaliando num ápice as coordenadas do mapa que no outro abrigam ferida mal sarada. sítio onde bala certeira fará estragos. Infligir dor a quem nos magoou. Tão ociosa quanto a nossa se entendermos como insegurança ou temor ou angústia mal resolvida o que nos afligiu. Porque não se trata de dar a outra face, antes analisar as razões que nos torturam, acobardam ou fazem gemer. Tornando de pouco préstimo a pistola emotiva que, pela cabeça perdida ou pelo despeito, apetece empunhar.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Célia Duarte e António Eça de Queiroz
Desde Ontem
Marilyn, quando era ELA- Abençoada morte. Em Hollywood e em vida toda a estrela é um cometa: num segundo ilumina o mundo, um (...)
Busby Berkeley era um génio" - "Se têm um átomo de paciência e não se importam de recuar a 1933, espreitem(...)
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
Greg Horn Quem não namora está
out. Namorar deixou de ser coisa de donzéis mal iniciados nos arrepios eróticos e tornou-se imperativo em qualquer condição. Namoram casados, amantes, adolescentes e serôdios. Namora quem vive uma relação de cariz sexual. Quem não o faz por ausência de parceiro, por estar pelos cabelos com o que tem, ou por desprezar lamechices de gestos e palavras, está fora da onda namoradeira onde é suposto submergir.
A conjugação do verbo namorar nunca foi tão transitiva - basta reunir disponibilidade, atenção, partilha e proximidade. Envolvendo registos tão diferentes quanto a natureza dos afectos. Onde cabe, também, o amor romântico. Ou a paixão. O
flirt, é limbo picante, solução quimicamente concentrada em «onas» e «inas». Adrenalina para o vulgo, que de fórmulas e estruturas moleculares pouco reteve além do H2O e H2SO4.
Muito antes do século passado finar, foi alforriado o namoro. Porém, os portugueses ainda pintalgam de ferrugem o olhar quando a mulher se adianta ao homem na idade. No inverso, quem observa reparte-se entre a lisonja ou aceitação, dependendo uma ou outra de quão vistosa é a namorada. Com a mulher é injusta a diferença. Apresente-se ela como brasa candente, ou ele como tição inflamado, não se livram da estupefacção alheia - Tem mais que idade para ter juízo! Ela, está visto, que dele dirá a eloquência coscuvilheira: Que verá ele nela, Santo Deus? E eles vêem, elas também, e, sem detença, namoram a bom namorar.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Rititi e Carlos Amaral Dias
Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008
Jenifer Janesko Vinte e cinco anos sem «ontem» próximo. Antes recuado. Longínquo. Agora juntos e afastados. A distância primeira instalou-se no sofá. Sentada entre eles, cobriu-os com um manto frio. Desdobraram assentos e silêncios. A economia da fala e da partilha pretextou, depois, a divisão de serões. Cumprido o ritual do jantar, ela voltava à sala, ele escapulia-se para o escritório. A banalidade conjugal adormecia com eles. Em silêncio.
Bodas de prata. Marcantes. Dolentes. Num impulso, ele largou tudo e saiu. Uma jóia, talvez. E flores como há vinte e cinco anos atrás. Mas não. Seria despropósito. Queria clivagem como borracha dos erros e das rotinas. Compraria um recomeço. Optou por um vestido. Branco a condizer com a nova união, diferente, virginal na acidez das memórias. O tamanho era o dela. Ele sabia-o, sentia-o nas mãos não esquecera as fronteiras do corpo que desejara, desejava e ambos negavam.
Ela experimentou o vestido. Viu-se de branco, o corpo bem delineado surgindo do viés da seda. Gostou. Mirou-se num sorriso não distava assim tanto da mulher que fora! e voltou-se. Deu-lhe um beijo grato e feliz que não demorou. Sentia-se cansada. O trabalho do dia, naquele instante, pesou toneladas. Carga excessiva para reunir forças e ir jantar fora. Ficaram em silêncio na casa. Estropiaram ilusões. Como de costume.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão
Desde Ontem
Solzhenitsin Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e (...)
Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008
Babis Kiliaris Quem prova paciência por testemunhar os meus derriços com a palavra, deu conta do gozo que espremo das minhas (in)confidências factuais ou projectadas. Umas e outras verdadeiras por deixarem rasto de quem as conta, da Tati ou da mulher encoberta sob o nome Teresa C..
Culpam as mulheres de nos respectivos blogs abusarem de strips emocionais e das vidas. Pelo facto inferiorizadas aos olhos ácidos e tradicionais que do feminino esperam recato. Serei mais uma. Que importa? Não me tenho por rebento de narciso. Nada mais reclamo do que a condição de amora exposta ao sol em silvedo que trepa retalhos do granito.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Paula Capaz e António Costa Santos
Terça-feira, 5 de Agosto de 2008
Edwin Georgi A tia é uma mulher encantadora. Por pudor, não descrevo o percurso da jovem linda, culta e requisitada por candidatos ao seu amor. Adianto que ao concluir o ensino liceal no Colégio do Sagrado Coração de Maria, sito na Guarda, optou pela vida religiosa. Primeiro em Portugal, depois em Concy, aos setenta e sete anos mantém a jovialidade, espírito arejado e apetite pela leitura. Intervala os ensaios sociais e teológicos que lhe ocupam o espírito com a vulnerabilidade da qual é a primeira a rir o gosto de saber o que acontece com a realeza europeia, a espanhola em particular. Admiradora da Rainha Sofia pelo pundonor e ligação afectuosa à família, interessada nos desvarios monegascos, de vez em quando apetece-lhe a IHOLA! Falta do cabeleireiro que dispensa, é o que é!, ou teria ao seu dispor resmas de números atrasados, o que para o caso tanto dá.
Do exemplar de sábado último, na moleskine, redigiu: A nobreza nos tempos que correm numa Europa em crise Princesa belga vestida de verde, símbolo de esperança e com chapéu a condizer em forma de disco (homenagem aos jogos olímpicos?). Uma sua irmã foi vestida por estilista amante da família real e da pátria: toucado nupcial e carteira com a forma do país amado. Extraordinário sentido do dever, fora do tempo ou talvez fora da vida.
Tenho sorte ou não?
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Steve Hanks Fátima e António. Irmãos. Ele mais novo do que eu um par de anos, ela nascida quatro anos depois. Nas férias grandes da infância e adolescência, partilhámos tropelias e enredos; merendas de fábula servidas pelo meio da tarde. Abundando imaginação, o tédio não era conviva. Monopólio, loto, jogos de palavras e números, cantoria e passeios entretinham-nos até ao banho que precedia o jantar. Quais cabritos monteses, cabriolávamos encosta acima da Estrela até aos frondosos parques dos Conventos de São João Baptista - um masculino e seminário, outro feminino e lar de alunas da região. A ordem religiosa alemã fornecia às obras sociais apoio por homens e mulheres consagrados (peculiar esta concepção!). Eles e elas altos como cruzeiros de granito. Os centímetros a mais e os bondosos olhos azuis depressa afeiçoarem desvalidos e os nativos em geral.
Na época da crescença decisiva, a Fátima, o António e eu seguimos caminhos diferentes. Ela escolheu Medicina, ele optou por Direito. Passei-me da Coimbra de sempre para Lisboa e, por isso, desencontrei o António que, pela mesma época e mais a irmã, rumou à utopia estudantil do Mondego. Houve casamentos, separações, filhos e progressão nas carreiras. Cada um se ajeitou como pôde à benevolência da fortuna. Conto anos sem ver o Tó.
Soube hoje que a Fátima Lima é directora do centro de saúde. Aberto dia e noite, há quase uma semana recorri à urgência com um familiar muito querido. Assistência exemplar da entrada à saída. Humanidade na fala e nas atitudes. Edifício novo e bem equipado. Uns dias atrás, encontrei a Fátima. Elogiei o serviço e as mudanças. Discreta, sorriu e nada acrescentou.
CAFÉ DA MANHÃ Hoje: "Tule, Organdi e Cai-cai" - "Pelo dealbar da menarca, olham a forma da sombra que o corpo projecta ao caminharem. Inauguram,(...)" Mauro Castro Desde ontem: Picuinhices presidenciais O assessor empertigado garantiu ao cortejo de cacarejos de microfone que se não fosse (...)
Domingo, 3 de Agosto de 2008
Al Moore Dera por findo o almoço. Antes houvera o ritual do semanário abordado no Café Central. Mesas bordejadas com latão amarelo. Polido. Cadeiras de saudável castanho; assentos de couro gravado herdados do fundador. Do alto do retrato a preto e branco, a figura circunspecta do início do século passado vigia o trabalho do herdeiro. Por funcionários gente nova, bonita, sorriso cúmplice desde a entrada. À mesa vem parar o costume do ano anterior. É o estar em casa estando fora que seduz. Ambiente clássico isento de
kitsch em plástico ou metal a fingir.
Quando o apelo chegou, já o café do pós-almoço assentara como é dito das sopas no mel. O desafio veio do mar ao largo de Albufeira. No que concerne a pescaria, o alvorecer a bordo do iate fora desastroso. As carnes frias e os patês do Apolónia, entre as Quatro Estradas e Almancil, sobravam por desistência dos convivas renitentes ao cedo-erguer. Há gente que a umas horas de sono sacrifica prazeres de eleição! Combinado está para o Agosto meio lançar âncora em praias desertas. Ondular de Vale de Lobo para trás e para a frente. Lançar bote no Evaristo. Algures no areal, ronronar a digestão. Sem mais do que bikini, chinelas e páreo, celebrar a vida boa de Verão.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho
Sábado, 2 de Agosto de 2008
Milo Manara Sei que estás aí e me entendes os silêncios. Adivinho-te perplexo quando abres as minhas contradições. Concentrado quando estendes letras como se foram mãos. Dedos em terno passeio pelos meus ombros. Nas referências breves que fazes ao corpo que me dá forma, a boca nunca constou. Curiosa omissão. Aprazível diferença. Pela boca muito começou e acabou. Quando comecei a tornar-me mulher, reinava o estereótipo da fragilidade feminina. A distância entre os ombros devia ser pequena. Do pescoço até eles, o ideal de beleza estabelecia inclinação. Que não tinha. Por isso a mãe meneava um não se um casaco os revelava direitos. Assentia se o corte os disfarçasse. E eu sem me importar com eles.
Ao perguntar vai um desabafo?, aceitaste-o com generosidade. Lembro-te o começo: Que não sou «piquena» para chorar sobre leite derramado, sabes. Que não sofro de vésperas como o peru, também. Mulher de apetites ocasionais? - Sou eu! Com razão treinada no enquadramento (i)lógico? - OK, it's me! Que adora permutar mimos, ternura e cumplicidades? Je, moi même, aqui deste lado com o coração nas teclas. Admito que o termo ocasionais, ligado a apetites, é ambíguo. Remete para eventualidades várias. Para imprevistos que aceito como a dose de surpresa de que também me alimento. Esta fala contigo era inesperada, mas verificou-se. Apetite meu e teu.
Escreveste: Porque é a Teresa Maria com quem quero conversar, conhecer, ouvir desabafar, e sei que a Teresa existe para que a Maria seja a Maria e a Maria existe para que a Teresa sejas tu. Daí a "minha" Teresa Maria, que és tão mais tu quanto menos eu pedir. À Teresa pedem não é? Pedem tanto que seja Teresa que a Teresa teria que deixar de ser Teresa para ser quem querem que a Teresa seja. Resumiste na perfeição. Aqui reside o nó que aperta a rede. Que aceito e rejeito. Pendulo como um relógio a que só falta o cuco cantar as horas. E eu nem sou cuco, nem periquito, nem canário. Apenas uma rola que gosta de voar.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Célia Duarte e António Eça de Queiroz