Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

VASSOURA-MÍSSIL


Anthony Guerra

Mulher profundamente urbana, corpinho habituado a afagos cremosos – óleos perfumados quando mãos hábeis os sabem manusear -, mãos e pés macios acabando em verniz alegre como o estio. Fosse outra a têmpera, e soltaria estridentes gritos por cada teia de aranha a romper. Não eu. Se esqueço a vassoura ao entrar nos arrumos da lenha ou na adega para das aranhas romper o trabalho sem tréguas, sirvo-me dos braços vigorosos que os deuses fazem o favor de conservar. Mais teia, menos teia, nada me faz recuar. A Leonor segue atrás. Vassouras, baldes e esfregonas a dobrar – ela fica com o equipamento novo, eu com o do ano anterior. Deparámo-nos com tarefa hercúlea: os granitos, tapados com paredes de lenha pronta a queimar no Inverno, devolviam águas continuadamente negras. Liguei ao meu anjo-da-guarda: o Sr. João. Homem generoso, bonito, solteiro, funcionário fabril e competente, vive os seus quarenta e picos com a mãe e o irmão. Amigos da família desde o tempo do avô. Com o pai estreitaram laços que herdei. Toma conta do jardim, temporiza a rega e determina as podas que o Sr. Mário executa.

Quando liguei, já ele carregava o automóvel – pela tarefa que lhe anunciara na véspera, assim pôde, decidiu auxílio antes de ser pedido. Minutos não eram passados, vejo-o descarregar o que me pareceu um aspirador industrial. Liga fios, mangueira, e eis que surge uma vassoura de água movida a jacto. As pedras ficavam brancas numa passagem. Limos e lixo dum ano pulverizados em menos de um ai. Quis brincar. Agarrei no tubo e experimentei. Por cada embate do jacto surgia o branco; mal comparado, era como se a vassoura debitasse, em vez de água, jacto de cal. Andámos naquilo até o sol se pôr. Ele protegido com botas de borracha, eu de vestido fino e havaianas com luziratos. A terra cobriu-me da face aos pés.

Finda a tarefa, despedida com tanto de breve como de grata, ensaio entrar em casa. Descalça, limpo os pés ao tapete. Com folhas das hortenses removo o lixo maior. Era mais fusco que lusco, quando me enfiei na banheira. A água que de mim escorria era tão negra como a do granito que a vassoura-míssil lavou.

CAFÉ DA MANHÃ


“Feminino e intemporal” – “A voz inversamente proporcional à figura excessivamente magra, o cabelo armado com um penteado (...)”

“APARTHEID E GUERRILHA” – “Os acontecimentos recentemente passados na Quinta da Fonte entre ciganos e africanos repõem no Portugal de hoje um conjunto de interrogações a que dificilmente se pode escapar. (...)


Desde ontem:


“Tudo na mesma como a lesma” – “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Tudo na mesma como a lesma. Regressar à (...)”

A VISITAR



“Chiado em Évora" R. dos Caldeireiros, 19, ÉVORA


Porque o Chiado não existe apenas em Lisboa, recomendo passeio de truz: excelência da gastronomia e do património estão em harmonia com a exposição que em Évora tem as portas abertas.
publicado por Maria Brojo às 09:23
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