Barrett, Hugh-John (1935-2005) La lectrice, 1993
Não passa um dia sem precisar vezes algumas dum dicionário. De quando, em quando, surgem termos que me embasbacam. Até agora, nem um registo feito para mais tarde usar porque estranhos e, presumo, ignorados pela maioria dos leitores. Talvez presuma mal e o desconhecimento do significado seja meu e não doutrem. Dou exemplos:
- hebetar (latim hebeto, -are); v. tr. v. tr.; Tornar bronco, obtuso ou embotado;
- guarda-mancebos (forma de guardar + mancebo); s. m. 2 núm.s. m. 2 núm. [Náutica] [Náutica] Cada um dos cabos que servem de corrimão de corda ao longo do gurupés ou ao longo da borda da embarcação;
- impermisto (latim impermixtus, -a, -um); adj. Que não foi misturado (ex.: doutrina impermista). = genuíno, puro, simples; ≠ permisto;
- bananosa (banana + -osa); s. f.s.[Brasil, Informal] [Brasil, Informal] Situação complexa, de difícil resolução. = embananamento.
Um impermisto cai sempre bem. Hebetar ou introduzir bananosas, rejeito. Quanto ao guarda-mancebos que cumpra a função.
CAFÉ DA MANHÃ
Gil Elvgren
Em idos, foi por aqui tratado o alívio a dor súbita que verbalizar palavrão constituía. A teoria fora obtida através de investigação conduzida pelos cientistas Richard Stephens e Claudia Umland, da instituição britânica, em Newcastle-Under-Lyme, Inglaterra. Mas, porque a ciência não estagna, os investigadores referidos prosseguiram o estudo.
“A nova investigação analisou um grupo de pessoas habituadas a pronunciar palavrões com mais frequência para perceber se sentem o mesmo alívio do que os que o fazem menos vezes. A tolerância foi medida com base na duração em que cada voluntário conseguia manter as mãos no balde de água gelada. Os resultados revelaram que os participantes que tinham o hábito de dizer palavrões com mais frequência conseguiram suportar menos tempo a dor.
O estudo mostra que se, por um lado, pode ser uma prática benéfica, também há evidências de que se o fizermos com muita frequência no dia-a-dia, esse poder não terá a mesma força. A equipa de investigadores acredita que o alívio da dor ocorre porque esta forma de expressão desencadeia no organismo a chamada reação de luta ou fuga, acelerando os batimentos cardíacos, uma resposta fisiológica associada ao comportamento agressivo.
Dizer palavrões produz para além de uma resposta emocional uma reação física. Esta prática já existe há séculos e assume-se como um fenómeno linguístico humano universal. Os palavrões são uma expressão que contrariam os códigos da linguagem e da educação em vigor, mas podem ser terapêuticos.”
Remate subjetivo: palavrão esporádico com justo motivo, sim; sendo habitual, não alivia e transforma o uso da língua portuguesa em linguajar.
CAFÉ DA MANHÃ
Abel Manta - Fundação Calouste Gulbenkian
Num encontro ocasional:
_ Aturas-me para detalhares as lutas dos operários de lanifícios daqui nos anos sessenta e setenta?
_ Quando quiseres; porém, devias conhecer a Maria do Céu, essa, sim protagonista e conhecedora mais profunda.
Quem me respondeu foi a Emília Manta, amiga desde a adolescência.
Como soe afirmar, palavras não eram voadas, surge Maria do Céu Ferreira de Jesus. Foi impressiva a presença – mulher elegante, ponderada, olhos negros reluzindo. Sendo informada de quem eu era e ao que vinha, acordou num encontro a três, pelas cinco da tarde seguinte em casa da Milita, porta à frente da que flanqueia entrada para edifício de granito onde nasceu o tio-avô, o pintor Abel Manta, ícone das artes plásticas nacionais a que Gouveia não regateou tributos como seu filho genial.
À hora e dia aprazados, subo os degraus de madeira cheirosa e brilhante pela cera. Logo após, entra a Maria do Céu que tanto me intrigara e, selvaticamente, admirei. Na saleta fresca, decorreu a conversa e, pela ausência de gravador, digitado o ouvido.
“Nasci em Gouveia. Ainda pequena, fui para o “Patronato”, instituição dirigida pela D. Zulmira Bellino, mulher do dono da fábrica de lanifícios “Belina”. Na casa repartida em secções – primeira infância, segunda e jovens adolescentes que não frequentavam a escolaridade/luxo pelos débeis proventos -, eram ensinadas «prendas» femininas da época: limpar, lavar roupa e chão, pô-lo lustroso, bordados, rendas, tricô e outras artes que das meninas fizessem esposas perfeitas e mulheres submissas. Muitas operárias deixavam ali as filhas enquanto labutavam, em pé, oito horas diante das máquinas fabris.
Thomas Deitrich
Frequentei o “Patronato” até aos dezasseis anos. Também a JOC – Juventude Operária Católica. A origem social de cada membro determinava estar e percurso, e influiu no meu idear social. Em 1963, por vontade minha, candidatei-me a operária da Sociedade Industrial/Amarantes e fui admitida na tecelagem predominantemente masculina. Ambiente de pessoas conscientes da opressão, repressão e exploração que as vitimava. Solidárias, todavia. Dispostas a emperrar, subtilmente, o sistema, existindo colegas injustiçados. Prova houve com o “trabalho por objetivos”: eram premiados aqueles que muito produziam. Falsa questão, constatámos; trabalhar «corte» liso é rápido, um de xadrez demorado. Horas de labor idênticas, produtividade diferente. Sabíamos que na distribuição dos «cortes» eram jogadas simpatias hierárquicas. Como reagir? _ Simples: somados os prémios e divididos de igual maneira por todos. Entendia, vividamente, num lado estar o capital, no outro a força laboral.
Escasseando trabalho, o operário laborava seis dias e ganhava quatro. Na “Sociedade Industrial”, era majorada a repressão se comparada com outras unidades fabris. A adesão à EFTA e a guerra colonial aumentaram vertiginosamente as encomendas, mormente pelo fabrico de têxteis destinados ao fardamento das Forças Armadas. Entre sessenta e sete e sessenta e oito, os patrões chamaram trabalhadores da Covilhã de molde, diziam, a satisfazer a produção. Aumentados conflitos, prática comum trabalhar sob chicote, ameaças e castigos – sendo crianças, duplicados pela ausência de «féria» devida ao descanso compulsivo, pelos pais que sentiam no bolso a falta de ajuda para alimentar as bocas da família.”
Maria do Céu prosseguiu o relato. “O Estatuto do Trabalho Nacional em 1933 introduziu mudanças pesadas – os sindicatos deixaram de ser por classe e passaram a corporativos. Em Gouveia, surgiriam em 1939. Direções fantoches nomeadas pelo governo. Através de esbirros sindicais, todo o ocorrido entre operários era comunicado ao patrão.
Novidade se interpôs a meio dos sessenta: abertura do turno da noite na Escola Industrial que sublinhou a atávica rivalidade entre Seia e Gouveia por, então, ambas as vilas concorrentes em importância desejarem também neste particular a primazia. Na última, o domínio económico e político repartia-se entre Bellinos e Frades (estes, donos das Amarantes). Em degrau seguinte de importância, a família Leitão, também distinta por incentivar a formação dos operários. Facto é os patrões dos lanifícios em Gouveia selecionarem os funcionários candidatos ao ensino noturno: aos preferidos - ‘bem comportados’ (?) - pagavam custas do bilhete de identidade e propinas. Fui preterida. Não desisti: paguei o necessário do meu bolso e, curiosidade, fui a única que terminou o curso com êxito. A entidade patronal não facilitava a vida dos trabalhadores/estudantes - horário por turnos igual ao de sempre. Valeu-me a mãe que trabalhava na mesma fábrica e fazia as noites enquanto eu libertava tempo para as aulas ao trabalhar apenas de dia.
Ainda na década de sessenta, a maciça emigração essencialmente para França. Os homens partiam, as mulheres ficavam, algumas até o marido conseguir lá fora sustento e abrigo. Aumentou, em consequência, a mão-de-obra feminina e operária, nomeadamente na secção de ‘estambre’ tradicionalmente masculina; razão para serem diminuídos os salários.”
A Milita recordou que a vida na fábrica lhe lembrava o filme “O Grande Ditador”. Risível e dramático. Havia saído do Patronato para a “Formação Feminina” na Escola Industrial com equivalência ao quinto ano do liceu. (...)
Nota: texto publicado na íntegra aqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Randis
Em Lisboa e noutros lugares, tem parcos anos o novo modelo de reinstalação dos, ainda há pouco, habitantes de bairro da lata - condomínios fechados ao lado de construções semelhantes na fachada, mas destinados a habitação social. Os reinstalados partilham ruas, espaços de lazer público e comércio de bairro. Por imitação, dizem, a segunda geração terá evoluído por espontânea vontade. Não sei se neste modelo somos precursores, mas faz sentido. Mais ideias venham que pensem cidades afáveis.
Já havia rabiscado sobre os "feios, porcos e maus" (designação que desdenho) dos subúrbios flácidos das cidades, sobre os gemidos, ais e gritos por culpa dos bicos de papagaio, varizes e artroses que as malhas urbanas adquiriram com os anos. A maquilhagem sem banho tomado dá bons retratos nos postais ilustrados. Consumidas de perto, assestada a vista, o olhar do observador sai enojado com farrapos das cidades nos centros ou nas periferias. Nada desculpa, porém, a condescendência que pensa como vítimas delinquentes à solta, traficantes de droga e criminosos tão light como a filosofia do hoje.
Todos podemos optar – felizmente, está por fazer o luto do livre arbítrio. Mais apertado para alguns, ainda assim com possibilidade de vidas lisas e direitas no horizonte. Sem esperar que o país indemnize infância cruéis. Evitá-las sim, sustentar vícios posteriores, não. Qualquer sociedade que prefere condescender com desvios em vez de incentivar quem pelo esforço e vontade contribui para o bem comum, erra. É injusta. Discrimina. A conversa dos «coitadinhos» sempre me “tirou do sério” - frouxa a sociedade que nada faz por evitar a proliferação de «coitadinhos» entupidos com droga e/ou miséria.
A justiça tem de merecer o nome. Não pode ser puta velha de dentes ralos, pintura esborratada. E quem tem dívidas que as pague, quem rouba seja punido, quem é corrupto, lava capitais ou trafica droga ou incendeia ou estropia ou mata na estrada, seja julgado em tempo útil. E pague. Pague pelo que fez. Que sejam convertidos em trabalhos comunitários delitos mais leves - boa altura para aprender o que, em devido tempo, não quis ou não pôde adquirir. Nunca é tarde. Esta coisa morna de nem é crime, nem deixa de ser, tem remate na máxima comum "só é criminoso quem se deixa apanhar." Fugir é fácil: mudança de casa, de trabalho, de cidade, de mulher, de ramo. Pagar é que não. Só para tansos. A maioria dos cidadãos.
Nota: há instantes, publicado no "Escrever é Triste" "Onde são tratadas memórias da vida e luta operária em cidade têxtil - Gouveia". Texto que amanhã será tema no SPNI.
CAFÉ DA MANHÃ
Nem sempre é fácil começar pelo início. Sendo a ciência continuidade de descobertas, situar a génese dum conhecimento é tarefa quase impossível. Certo é a NASA, na senda da conquista espacial, ter logrado saberes que revolucionaram quotidianos no mundo todo. Vem este assunto ao caso da Rita Vasconcellos usar um belíssimo têxtil polar na última vez que nos vimos.
Para desbravar a questão, revelam-se necessários conhecimentos anteriores: polímeros e plásticos. Etimologicamente, a palavra polímero quer dizer muitas partes. Dezenas de milhar de átomos constituem-nos segundo conjuntos de átomos repetidos. Pelo tamanho desmesurado, as moléculas (conjuntos de átomos) são designadas por macromoléculas ou cadeias. São classificados como naturais (a borracha, o algodão e a lã) ou sintéticos (polietileno, PVC e nylon).
A civilização em que nos inserimos teve começo com três materiais: metais, cerâmica e vidro. Os plásticos são recentes em tempo histórico. O termo plástico deriva do adjetivo grego «plastikos» cujo significado é moldável. Na Europa, são consumidos, em média, 30 milhões de toneladas de matérias plásticas. Possuem tempo de vida útil como qualquer outro material. Inconveniente: as vantagens dos plásticos tornam-se desvantagens quando é pretendida a sua eliminação. É neste contexto que tem cabimento o processo de reciclagem e respetivas consequências.
(...)
CAFÉ DA MANHÃ
Leszek Sokol
Valter Hugo Mãe, Joel Neto, Manuela Costa Ribeiro e o ilustrador Paulo Sérgio Beju, participaram em 2012 no II Festival Literário da Madeira. Um dos temas em debate foi "Éramos piegas e não sabíamos - Como a lamechice pode mudar a nossa vida." Segundo o concluído, os portugueses são todos profundamente piegas. Recentemente, o mesmo ouvimos do governante maior. Sucedeu após, escândalo justo e coletivo dos cidadãos que dos bolsos rotos e do desemprego se queixam. Piegas, nós?
Valter Hugo Mãe iniciou as «hostilidades»: "Eu já sabia que era piegas para aí desde os três anos. E para exemplificar a sua pieguice, contou, em seguida, que atingiu em dezembro último um ponto de exaustão tal que mesmo as coisas que em circunstâncias normais lhe fariam bem lhe faziam mal, que se recolheu em casa, pensando que podia ver um bocadinho de televisão, que o distrairia. Enquanto fazia 'zapping', encontrou uma telenovela com uma mãe e um filho "que era um estafermo", e a relação entre os dois comoveu-o tanto que, nos dias seguintes, deu por ele a pensar que talvez fosse a hora daquela telenovela e, muitas vezes, era. E sempre que viu aquelas personagens, chorou.”
Joel Neto comentou: “Eu não sei bem o que é ser piegas, confesso. A Adília Lopes tem um verso que diz: ‘Eu sou sensível, não sou piegas'. Para perceber melhor o conceito, consultou o dicionário, onde se lia que piegas é "aquele que se preocupa com coisas comezinhas, sem importância", e concluiu: "Nesse caso, então, sou absolutamente piegas, porque prefiro emoções exacerbadas a nenhuma emoção.”
Já Manuela Costa Ribeiro iniciou a sua participação dizendo: "É uma alegria comovente estar aqui". Confirmada a sua pieguice, avançou por tema que me é caro: estados de espírito indicados para determinadas leituras, da leitura certa no momento certo. Referiu o cuidado que preserva na escolha dum livro depois de ler qualquer um da Hélia Correia. Ora o mesmo acontece comigo: fico em pousio até diluir/digerir as palavras sábias da escritora referida. Com “o Vento Assobiando nas Gruas” da Lídia Jorge, o mesmo. A propósito de pieguice e lamechice, citou "Todas as Cartas de Amor são Ridículas", de Álvaro de Campos, sugerindo o exercício de se substituir "cartas de amor" por "portugueses de hoje" e depois "cartas de amor" por "governantes de hoje". "E se, em vez de ridículos, dissermos 'piegas', deixa de ser esdrúxulo e passa a ser grave". Pelo noticiado, o público riu e aplaudiu. E não aplaudiríamos todos?
Paulo Sérgio Beju apresentou-se: "Não sou escritor, sou ilustrador, ilustra-dor, aquele que ilustra a dor" e avisou comunicar por imagens, que foi comentando. Mostrou alguns dos seus trabalhos, entre os quais a porta de um bordel que pintou numa rua do Funchal, com um céu azul e algumas nuvens e, a vermelho, a palavra "Encantos" e que já não existe assim - foi pintada de preto, ele não sabe porquê -, falou do amor, leu excertos de um texto de Yvette K. Centeno em que um homem e uma mulher dialogam, e confessou-se um romântico e, claro está, piegas.”
Sejamos, então, dignamente piegas.
Nota: informação retirada daqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Eric Zener
Estendo a mão à palmatória e reconheço ter cedido vezes demais à ironia, quiçá sarcasmo, ao perorar sobre a condição masculina. Algumas dissertações foram decantes frívolos pela dispensa da objetividade como filtro.
Ao contracenar no palco da vida, não distingo condição feminina e masculina. Neste particular, os acasos da fortuna têm sido generosos. Negar desencontros no carreiro dos meus dias seria mentira. A tal me escuso. Todavia, pelo crivo da exigência suavizado com tolerância, peneiro atitudes próprias e alheias, deixando cair arrogâncias vãs. Racional, sim, apaixonada sempre. Uma cartesiana emotiva. O pecúlio de incoerência salta à vista.
Com a ciência aprendi a evitar o «sempre» e o «nunca». Que os extremos conceptuais são limites a que a natureza foge. Ela mescla, destrói para criar, não desperdiça, conserva matéria e energia. Que dos convencionados atributos psíquicos masculinos e femininos todos possuímos, dou por certo. A caricatura dos sexos resulta de atavismos históricos que desembocaram em preconceitos de ontem e do agora.
Pela correria da evolução social não é tarefa fácil integrar os novos papéis e desafios que sujeitam homens e mulheres. E baralhamos e ensaiamos e recuamos e avançamos. Porque a harmonia existe, é absurdo o refúgio nos clichés ou em retaliações ditadas por fátuas soberanias.
CAFÉ DA MANHÃ
Edgar Mendoza Mancillas
Segundo a mitologia Maia, o deus Huracan (“o de uma só perna”) era tormentoso - incumbia-se de destruir e reconstruir a natureza. Da má fama não se livrou, ficando para sempre associado a tempestades, estados de confusão na atmosfera. O vocábulo “furacão” deriva do nome desse irrequieto deus. Como ingredientes conhecidos destas tormentas naturais, há os ventos coléricos, a demência da chuva e a ocorrência cíclica. Mal é chegado Junho e até ao final de Novembro, os furacões instalam-se nas costas leste e do golfo dos Estados Unidos, no México, América Central e Caribe. Têm bom gosto.
Um furacão tem génese simples: numa região tropical com água aquecida (no mínimo 27°C), nível adequado de humidade atmosférica e ventos equatoriais convergentes, começa por ser incipiente depressão tropical (turbilhão de nuvens e chuva com ventos de velocidade inferior a 61 km/h), cresce como tempestade tropical (vento de 55 a 118 km/h) e só faz jus ao nome quando a velocidade das massas de ar zangadas atingem os 119 km/h.
Não tomemos por distraído o nosso lado do oceano. (...)
Nota: a continuação do texto e das imagens aqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Abel Manta
Quem não for com missas é favor passar adiante. Fiquem as palavras para os resistentes. O sétimo dia em que Deus terá descansado ficou oficializado ao domingo. Nas cidades grandes, é pretexto para fugas, o nada-fazer, limpar os metros quadrados que as paredes domésticas limitam, “passeios-dos-tristes”, para namorar ou para discussões conjugais. O freguês pede, o domingo dá.
Nos meios pequenos, os itens continuam semelhantes. Todavia, há acrescentos de monta. A missa congrega crentes e não-crentes. À volta dela, gira a manhã do dia. A partir das oito, batem portões e saem os madrugadores. Cuidados no trajar, os casais de idade são os primeiros a cumprir o ritual. Deixam para depois a feitura do almoço. Havendo família a juntar, mais tempo sobra para os paparicos que, amorosamente, reservam aos filhos e netos. Quem entende que o domingo também existe para remanso nos lençóis lavados, escolhe outra missa. Duas horas mais tarde, batem outros portões.
O centro urbano/rural acumula homens nas esquinas sombrias à beira da Igreja Matriz. Há «entra-e-sai» no café fronteiro. Na esplanada, servida também por tílias, ocupam lugares costumados os clientes sem era e da terra. Novatos ou passantes ficam com as sobras. Ponto de observação privilegiado, enche o olhar de quem está. Feitos os cumprimentos e o escrutínio, chegando a hora aprazada que o sino não lembra, continuam sentados turistas, descrentes e comodistas. Quem preza observar os mandamentos católicos entra na igreja. Muitas mulheres, poucos homens, cabelos brancos, coro afinado e treinado na função, homilia morna - aprendi que alegria espalhafatosa não faz parte das normas do reino de Deus. Acabada a função, todos dizem ámen e eu com eles. À saída, nova rodada de beijinhos e apertos de mão. Sabem como as amêndoas na Páscoa - na época, são delícia, durando ano inteiro, talvez perdessem o gosto especial.
Naqueles lugares, a hora da missa dominical acaba por constituir celebração ecuménica - reúne ateus, católicos de batizados, casamentos e funerais, católicos de todos os dias, coscuvilheiros e fãs da exibição. Mais abrangente, não há.
CAFÉ DA MANHÃ
Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (France)Paris
Edgar Degas, ao regressar a Itália onde parte da família residia, inicia o retrato da “Família Belleli” em 1858 na cidade de Florença. É o seu primeiro trabalho com pincel largo mais próprio para caiar do que utilização em pintura clássica.
Trabalhou nesta obra cerca de uma década antes de o apresentar sob o título “Retratos de Família” em 1867 no “Salão de Paris”. Não obteve loas do público ou dos críticos.
Drama ou ritual doméstico? Pose dos Belleli ou memória impressiva que reproduziu na tela? Homem irascível, mulher formal segundo a época? E as crianças? Mais interrogações podem ser levantadas. Respondidas ou não por quem na pintura atentar.
CAFÉ DA MANHÃ
Arthur Sarnoff
Por todo o Ocidente, as evidências assustam: violência conjugal associada a morte, elevadas taxas de suicídio masculino, dificuldades escolares dos rapazes, jovens assassinos nas escolas, movimentos de pais contra a justiça(?) que os afasta dos filhos se a rutura conjugal sobrevém. Estes e outros dados – mudanças profundas nos papéis sociais e afetivos dos sexos – sugerem refletir sobre a condição masculina.
Recuando cinquenta anos, situaria o começo do declínio do patriarcado. Formal, por que à mulher eram reservadas competências no “lar” e educação dos filhos, seguramente tão decisivas e dominadoras como as atinentes aos “chefes de família”. O acesso generalizado à pílula contracetiva e, posteriormente, ao divórcio para os casados pela Igreja Católica, a entrada massiva das mulheres no mercado do trabalho e o dinamismo dos movimentos feministas abalaram definitivamente as tradicionais estruturas do homem e da família – pai e mãe como iguais, diferentes quando a relação acaba e é atribuída a guarda dos filhos.
Se na condição feminina a clareza existe, na masculina é tíbia. Atentando em Portugal, embora o problema ignore continentes, trinta e nove anos após a revolução de Abril, é periclitante o sistema social, económico e político. Mudada a legislação, as mulheres rapidamente integraram atitudes e expectativas tradicionais por outras conquistadas mundo fora. Existem abrigos e proteção para mulheres em crise. E quanto aos homens? Aceitam o mesmo ou prevalecem os preconceitos machistas (deles e delas)? Em 1995, as Nações Unidas empenharam-se numa análise diferenciada pelo sexo. Hoje, presta maior atenção ao sofrimento masculino.
CAFÉ DA MANHÃ
Momento de silêncio e luzes baixas, fascinante pelo cantar da Mísia.
E a maravilha duma voz encheu a sala.
Eduarda Colares fotografa e, em simultâneo, é fotografada. O Fernando Dacosta foi apanhado sem querer.
Serão admirável onde a Mísia se expôs até redutos fundos. Quem a olha e ouve nos espetáculos ou nos videoclips não configura a personalidade e a voz espontânea sem violas ou rede. Pena é ser mais conhecida lá fora do que neste pequeno Portugal.
Este “Vavadiando” foi, como de costume, surpresa boa. Num ambiente descontraído, propício à intimidade, é amizade o respirado. Bem-haja Lauro António.
CAFÉ DA MANHÃ
Consta no rodapé do videoclip:
“O fado «O Manto da Rainha» consta do álbum de Mísia «Senhora da Noite», tendo sido lançado em Portugal a 22 de Dezembro de 2011. O «Manto da Rainha» é o nome que em Quiromancia se dá a uma rara e paralela segunda linha da vida, na palma da mão esquerda. Esta linha representa uma espécie de proteção do destino. Mísia tem esta rara linha na sua mão. O texto foi escrito por Mísia com uma linguagem gótica-romântica característica do séc. XIX onde se glosa a primeira estrofe.
Mísia conheceu John Turturro quando participou no filme Passione dirigido em Nápoles por este ator e realizador italo-americano. Mísia sempre foi uma grande admiradora do talento e filmografia de John Turturro, por isso aceitou imediatamente o convite para participar no filme Passione, que abre e fecha com duas canções napolitanas cantadas por Mísia. Mísia deveria cantar inicialmente Era di Maggio com Pepe Servillo e Avion Travel, mas Turturro convidou-a para aprender em 24 horas o tema Indiferentemente que fecha o filme. Desta colaboração nasceu uma grande cumplicidade artística que levou Turturro a aceitar o convite de Mísia para realizar pela primeira vez um videoclip. Foi de mútuo acordo que se escolheu um ambiente barroco e decadente que poderia também ser o de um espaço em Lisboa, para ilustrar o texto de Mísia, no qual a primeira quadra é glosada.”
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros