Basta arredar da cidade parcos quilómetros, sem pontes nem filas, para encontrar "A Parreirinha". Esplanada sombreada por parreira imponente nascida de um tronco só dá para rua estreita interdita a pilecas mecânicas. E as sardinhas? _ Uma perdição!
De eras com séculos, recantos e vestígios do antigo esplendor.
Hortas, aproveitadas a partir de diminutos vão de terra, renderam-me. Prometem favas, tomates, cebolas, alhos, couves e feijoeiros.
Magnólias, flores do meu deleite, escondidas entre folhagem quase tão magnificente como elas.
CAFÉ DA MANHÃ
Vora V. M. Gilee Barton
Das pérolas não prescindo mesmo se adormecidas na caixa dos ‘adereços de vez em quando’. Vestem a pele nua que mais não precisa do que a fiada. Rematam sedas, algodões ou lãs. Dão brilho ao dia que começa e à noite festa dos sentidos. Se herdadas, ocultam fragmentos de vidas mortas, talvez dores, talvez felicidades, precárias umas e outras. Compõem fiadas mesmas ou outras guardadas na caixa da memória onde alegram rostos de mulheres desbotados pelo tempo. Mães, depois avós, bisavós, tias com úteros secos, corações amplos cujas fronteiras desdiziam dos corpos frágeis.
Na hora da sesta, a menina escapulia-se e entrava no quarto dos tesouros. Mimava o visto fazer, escondia os caracóis em écharpes, rolava nas mãos as pérolas, enfeitava dedos e pescoço, crescia nos saltos arrastados até ao espelho onde mirava o resultado. Numa tarde de horas mansas em que encenava a mulher futura, o sol mirrou num repente. Espreitou a montanha em frente. Nada, salvo o negro poisando nas oliveiras. Deslizou no telhado das traseiras, do muro para o jardim pendurada no ramo baixo da nogueira que às águas-furtadas disputava céu. E viu. Ardiam giestas e pinheiros plantados no chão que o granito entremeava. O horizonte de verdes era fogo. O rebate dos sinos acordou a casa. Consternação, horror, medo - quem garante que o pasto seco não conduz aqui as chamas? Enquanto a família organizava a prevenção, a tia Lucinda subiu ao quarto e arrecadou as pérolas no bolso do vestido com flores miúdas. Da tragédia, a menina fez lembrança triste. A mulher retém-na. Ouve notícias de fogo posto ou não e de novo sobe o terror.
Porque têm de arder as matas da infância, porque não é feita limpeza preventiva, porque razão loucuras perversas delapidam patrimónios de alguns e de todos? Dizem as albufeiras cheias para o estio sério e para este falso. Mas vai ardendo o longe enquanto o fogo não lambe perto. Como outrora, como hoje.
CAFÉ DA MANHÃ
O reverendo D’ Ewes Coke, sua mulher Hannah e Daniel Parker Coke. (circa 1781–82) Joseph Wrigth of Derby
CAFÉ DA MANHÃ
Maren Jeskanen
Na declaração de ontem feita por Cavaco Silva, a proposta de resolução da barafunda em que o país está mergulhado combina ficção, horror, mistério e tragédia. O gótico no seu melhor/pior, mas gótico.
Em síntese, propôs arranjo (i)moral entre as três maiores forças políticas pelo número de assentos parlamentares. “Salvação Nacional”, chamou-lhe. Derrocada final, adjetivo eu. Imediatamente, lembrei a trama do “Fantasma da Ópera” escrito por Gaston Leroux e publicado em 1910. Século e dois picos mais tarde, após várias adaptações ao teatro e cinema, jamais alguma nação aplicara o argumento à política interna. Enquanto copiadores encartados de práticas exteriores, temos representante deste atavismo na pessoa de Cavaco Silva. Daqui às minhas suposições foi um pulo: se o “Fantasma da Ópera” que vi em Nova Iorque é o maior êxito de bilheteira reconhecido, se está no Majestic da Broadway desde 1988 e continua a render milhões, se o trio protagonista apaixona espectadores, o Presidente decidiu juntar Erik, Raoul, Christine no subterrâneo decisor que tem orientado mal a vida dos portugueses.
Resta a pergunta: quem fará de Christine nesta união nacional? E de Anjo da Música? E de Carlotta, a arrogante Diva?
Nota: há breves minutos, publiquei aqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Autores que não foi possível identificar
Disse que a comida saudável é a melhor.
Disse que os legumes preferidos eram brócolos.
Disse que era mau cozinheiro.
Disse que gostava de cachorros e hambúrgueres.
Disse que a mulher, Michelle, nunca o havia informado ser permitido comer com os dedos numa refeição de estado.
Disse tudo isto durante um almoço na Casa Branca oferecido a cinquenta e quatro crianças vencedoras dum concurso sobre receitas saudáveis.
O que foi dito mereceu abertura noticiosa nos lusos noticiários informativos no princípio da manhã de hoje.
Digo: Portugal e o mundo podem sofrer que são banalidades a entupirem os ouvintes desde o acordar.
Silly season ou vício sem época definida no calendário?
CAFÉ DA MANHÃ
Emily Zasada – Cup of Coffee and Pie Slice
Encantam-me lendas, mistérios e contos tradicionais que de boca em boca são perpetuados. Dos enigmas que algumas expressões populares encerram, procuro respostas. Até agora, a «rede» e os «antigos» forneciam explicações, nem todas nem sempre fiáveis. “Eis senão quando”, seria gosto desta comummente usada conhecer o porquê, entretendo ócio em presença de uma «bica» pousei o olhar no pacote de açúcar complemento. Porque aprecio sabores puros seja do café, do chá, duma limonada, duma salada de frutas, costumo deixar intactos pacotes de açúcar.
De regresso ao momento de lazer na esplanada com café na mesa. No pacote da doçura aparentemente banal, rezava a frase “tirar o pai da forca” e a lenda explicativa anexa. Persisti na atenção a outros que publicitassem o café Chave D’Ouro e me fossem postos na frente. Até ao momento, cinco. Partilho o aprendido:
“Levar um puxão de orelhas”
- Significado: repreender.
- Origem: as Ordenações Afonsinas prescreviam que os ladrões tivessem as orelhas cortadas. Vasco da Gama relatou o corte de 800 orelhas e Gomes Freire recebeu 7800 delas. Mais tarde, as orelhas deixaram de ser cortadas e passaram apenas a serem puxadas.
“Cair que nem tordos”
- Significado: cair em grande quantidade, queda fácil.
- Origem: a caça. Os tordos voam em bandos densos e, quando atingidos por um tiro de caçadeira que dispara muitos chumbos em simultâneo, caem em grande quantidade. Com só tiro são mortos vários tordos.
“Dar um lamiré”
- Significado: sinal para começar algo.
- Origem: trata-se da forma aglutinada da expressão ‘la, mi, ré’ que designa o diapasão, instrumento musical usado na afinação de instrumentos musicais ou vozes. A frase foi-se popularizando designando qualquer sinal que dê começo a uma atividade.
“OK”
- Significado: está tudo bem.
- Origem: durante a Guerra Civil Americana, nos dias em que não havia baixas, os militares americanos penduravam tabuletas à porta das casernas com as iniciais “OK” que significava 0 killed (zero mortos). A moda pegou e, hoje em dia, é das palavras mais ditas em todo o mundo.
“Tirar o pai da forca”
- Significado: ter pressa.
- Origem: Santo António estava em Pádua e teve de ir apressadamente a Lisboa para salvar o pai da forca. Lenda conhecida que tem atualidade neste século onde todos andam apressados como quem vai tirar o pai da forca.
CAFÉ DA MANHÃ
Gil Elvgren
No início, eram somente os vizinhos do 5º esquerdo. Eu no 5º direito. Com o rolar dos meses, passaram à condição de amigos. Jantares, passeatas e encontros na «estranja» compunham ramalhete agradável. Nem o primeiro ano de convivência ia a meio, quando começaram os pedidos de arroz, manteiga, azeite, vinho, tampões, acetona, cotonetes, detergentes, gel de banho, pão e o que mais era precisado. Devoluções nem uma! A Cristina deles era remetida para a minha querida Cila. Bondosa, acedia e reportava-me os assaltos ao despenseiro.
Num final de dia, novo pedido: cervejas frescas que as deles tinham terminado. Grandes males, grandes remédios, cogitei. Respondi: _ Que não seja por isso. Se me permitem vou lá a casa e arrefeço-vos as loiras em minutos. Levo uma à temperatura ambiente para demonstrar. Num saco, enfiei a lata, sal, uma chávena, uma colher de pau, uma pequena bacia de plástico, gelo. Porta em frente aberta, licença para entrar, fui direita à cozinha.
(...)
Saber de propriedades coligativas e crioscopia dá muito arranjo!
CAFÉ DA MANHÃ
Inna Panasenko – “Cherry Love” Zacher
Pelos relatos femininos que amontoei, chamam-lhe “cereja”, “a minha menina”, “florzinha”, a “casinha”, “bidu-bidu”, “botãozinho”, “papoilinha” e até “mariazinha”. De tudo as mulheres ouvem quando as saias sobem e é remetido ao degredo o fio dental, a 'asa delta', os boxers rendados, a cueca da avó ou qualquer outra forma de resguardo da fundura íntima. E elas, em cada estreia invasiva e prazenteira pestanejam um par de vezes até integrarem o petit nom. Quantas sufocam o riso, ou, porque impossível de conter, interrompem com uma gargalhada a conjuntura sensual. Não abaixem aos parceiros a autoestima viril, zelam pela censura da espontaneidade porque quem vê corpos intumescidos tudo ignora da moleza mental.
Neles, os equivalentes diminutivos costumam ser os próprios a divulgar. Desde “júnior” a “zézinho” – ou qualquer «inho» acrescentado ao nome próprio do utente -, passando pelos vernáculos tradicionais, de tudo as mulheres ouvem. E repetem, mordendo a língua para travar sublinhado jocoso à designação que muito conta de quem a profere, tal como a daquela outra que a gruta da mulher denomina.
Graçolas de alcova, mais do que distinguir o par no momento instituído, denunciam quem impõe a alcunha. Porque mudada a parceira, permanece o “júnior” e a “papoilinha”. E nestas subtilezas da libido, raramente as mulheres são madrinhas.
CAFÉ DA MANHÃ
Salvador Dali
“Foram entregues na Camara de Lisboa os projetos de loteamento dos Hospitais de S. José, Capuchos, Santa Marta e Miguel Bombarda. Estão para consulta pública até 12 de Julho. Consultei-os e este é o resultado: nos 4 hospitais ficam de pé, basicamente, os edifícios classificados. Vejamos cada um dos hospitais:
Hospital de S. José:
Mantêm-se:
- edifício principal do Colégio - Será para a CML - qual o novo uso? Nada se diz.
- edifício da Anatomia Patológica (virado para o rua do Instituto Bacteriológico). Novo uso? _ Eventualmente entregue à Faculdade de Ciências Médicas para residências; (a omnipresente e omnisciente Faculdade de Ciências Médicas…)
- Chalé dos Pêssegos e alguns pequenos edifícios junto à Porta do Carro. Penso que para enquadrarem os pórticos.
Destroem-se:
- todos os outros edifícios, incluindo o Instituto de Medicina Legal.
Constrói-se:
- série de edifícios essencialmente para habitação.
Hospital dos Capuchos:
Mantêm-se:
- Igreja e edifício do Convento de S. António dos Capuchos;
- Palácio Mello;
- Cisterna e boca de cisterna com relógio de sol;
Estes edifícios ficarão na área pública. Novo uso?_ Omitido.
Destroem-se:
- todos os outros edifícios, incluindo os edifícios do Asylo da Mendicidade de Lisboa, o Edifício da Escola Artur Ravara, o Edifício da Neuro-Cirurgia, tudo.
Constrói-se:
- série de edifícios essencialmente para habitação e pequeno comércio e um silo para automóveis.
Hospital de S. Marta:
Mantêm-se:
- Igreja e edifício do Convento de S. Marta. Novo uso? _ Hotel.
Destrói-se:
- a totalidade dos outros edifícios.
Constrói-se:
- série de edifícios essencialmente para habitação e pequeno comércio e alguns jardins.
Hospital Miguel Bombarda:
Mantêm-se:
- edifício da casa religiosa de S. Vicente de Paulo. Novo uso? _ Hotel;
- Balneário D. Maria II – fica com ligação ao Hotel;
- Pavilhão de Segurança e edifício da Morgue – mantêm “vocação cultural na área da medicina psiquiátrica”.
Destrói-se:
- a totalidade dos outros edifícios.
Constrói-se:
- série de edifícios essencialmente para habitação.
Ou seja: o património científico hospitalar nunca existiu na Colina de Santana. Não há uma palavra sobre este património ou memória da atividade hospitalar na Colina. Só a referência acima transcrita sobre o Pavilhão de Segurança do HMB.
Não se encontram registados os novos usos para: edifício do Colégio de S. Antão/, Hospital de S. José e para o Convento e Palácio Mello no Hospital dos Capuchos.
Acredito que as equipas de arquitetos têm de ser sensibilizados e formados na área do património científico porque no património religioso apresentam uma particular preocupação em recuperar e restaurar todo o património conventual, indo ao ponto, nos Capuchos, de recuperar as imagens desaparecidas e reconstituir o convento de acordo com o primitivo.
Os ateliês de arquitetura, por melhores que sejam e até parece que são, têm como cliente a Estamo-Participações Imobiliárias, SA.
Esta é uma pequena síntese que dá uma ideia do que se irá passar se todos nós o permitirmos.
Não tenho preparação para apreciar os projetos de arquitetura e urbanismo que devem ser analisados pelas Faculdades de Arquitetura e pela Ordem dos Arquitetos, entre outros. Penso, no entanto, que estes projetos apresentam apenas a visão dos arquitetos que os elaboraram, certamente com base em orientações de rentabilização dos terrenos, mas que tem de ser complementada com a visão de historiadores, historiadores de arte, historiadores da ciência e da medicina, arqueólogos, antropólogos, etc.
Na área da memória hospitalar da Colina de Santana, o Ministério da Saúde, as Ordens dos profissionais de Saúde (Médicos, enfermeiros e outros técnicos superiores), o Instituto Nacional de Saúde, o Centro Hospitalar de Lisboa Central, têm obrigação de se pronunciar.
Nestes projetos a memória dos hospitais é completamente apagada: passa-se de uma colina de conventos para uma colina do conhecimento. Parece que esta colina nunca tratou doente nenhum. Além disso faltam as propostas para os hospitais do Desterro, Dona Estefânia, MAC e Curry Cabral. A história hospitalar de Lisboa entre 1492 e 2013 passa por todos estes que têm uma história comum.
Tudo farei, como cidadã, para evitar a destruição da memória dos hospitais da Colina de Santana." Célia Pilão
CAFÉ DA MANHÃ
Michel Parkes - "Nightfall"
“Acho que é num filme de Eustache. Ela diz que lhe vai apresentar uma amiga. Uma amiga «bonita» e «com muitos amantes». Ele responde: as mulheres «com muitos amantes» nunca são «assim tão bonitas». Ele tem razão. Nunca conheci uma mulher «assim tão bonita» que tivesse «muitos amantes». A chamada «promiscuidade» é apanágio das mulheres medianamente bonitas (e de algumas feias). Já tenho notado essas raparigas ‘on the move’. É visível que sentem grande desprezo pelas mulheres muito bonitas. Acham que as mulheres muito bonitas são puritanas e ingratas.”
Pedro Mexia no“Pas jolies comme ça”.
Exemplo de lucidez masculina. Guerreando pré conceitos, constato semelhante: normalmente, as mulheres belas a quem o tempo somente burila e soma encanto, tanto se habituaram a serem constituídas objeto de gula e atenção que o enfado sobrevém. Para elas, excluído o conforto do anonimato num espaço social, ao conduzirem, ou no caminhar com sacos de supermercado nas mãos. Homens, quase todos, mulheres ainda mais escrutinam-nas da cabeça aos pés. Existindo vestígio de desarmonia na embalagem, é garantido reparo caridoso(?) de algumas confrades – “tens o botão semiaberto”, ou “o fio puxado na meia”, ou “hoje o teu ar não é dos melhores”.
As realmente bonitas e encantadoras nas atitudes têm maior dificuldade na harmonia sentimental. Baixando as defesas, porque alvos apetitosos ficam expostas aos reles que coisificam a mulher e ambicionam trazer a tiracolo fêmea compatível com o estatuto e o automóvel e que aos pares atormente com inveja. Minada a confiança, estão atentas aos sinais envenenados e tecem concha magoada. E volta dúvida antiga – sou estimada pelo conteúdo ou pelo precário continente?
CAFÉ DA MANHÃ
Autor que não foi possível identificar
Desde o século XV, são conhecidos baralhos de cartas em Portugal. A aventura marítima levá-los-ia ao Oriente. Indianos, japoneses e indonésios adaptaram o baralho português às respetivas culturas. Consta terem jogado à fartazana enquanto os marinheiros aproveitavam a confraternização para largarem sementes em jogos outros com as nativas. Quatro séculos depois, finou-se o baralho nacional em favor do baralho francês. Desistimos de nos impor na jogatana e aceitámos de mão-beijada a novidade do coração da Europa. Provaria o futuro, continuarmos servis ao domínio da «estranja». Se rica e pomposa, melhor. A lusa espinha curvada pelos salamaleques, exceto se em perigo fronteiras geográficas e políticas que nos dessem aparência de país. Gostávamos, então e hoje, de alardear autonomia, embora copiando descaradamente as modas externas nas artes e nos usos. Uns tansos!
Conta a lenda(?) que o baralho francês foi encomenda do rei Carlos VI ao pintor Jacquemin Gringonneur que cuidaria de representar as classes sociais nos naipes: espadas a nobreza, copas o clero, ouros a burguesia, paus os camponeses. É recontado terem sido posteriormente acrescentados significados bíblicos e/ou históricos às cartas com figuras que honrassem a elite de antanho e da época. O joker era exceção – representaria os jograis dos castelos medievos. Sobre os ases apenas é sabido o valor e serem os números 1em cada naipe.
CAFÉ DA MANHÃ
LA Hughes watercolor collage “To Die For” LA Hughes Pop painting “Go Forth…”
A pasta das finanças mudou de rosto e de mãos. É o costume: quando é chegada a condição de moribundo, ou se desligam as máquinas de suporte de vida, ou é tentado remédio novo ainda sem créditos firmados e que pode dar o golpe final no desgraçado. Para os crentes é altura de pedir conselhos à Senhora de Fátima como o patrão maior fez há tempo pouco.
Vem a propósito a letra da música “O Charlatão” a que o Sérgio Godinho deu voz.
“Numa ruela de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis de ouro a um tostão
enriquece o charlatão
No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f´rido
e outro em França anda perdido
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga
No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas
P´rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca de alguns patacos
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão (bis)
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra”
CAFÉ DA MANHÃ
“Nude with a cat”. Balthus. Óleo sobre tela, 80,5 x 65,1. National Gallery of Victoria. Melbourne
Em criança, prometia rebeldia e despudor. Não seguia as normas a que era obrigada. Se convencida com jeito, se o raciocínio aceitava a lógica das regras sociais que a mãe, mais do que o pai, incutiam, era possível que as acatasse. O ‘porque sim, como resposta dos adultos, era pavio inflamado que nela explodia a pólvora das emoções. Desconhecida a razão, sopa de genes que havia dado boas provas de obediência originara nitroglicerina com embalagem humana. Vá alguém saber o porquê, a pequena antecipava a cronologia de todas as etapas tradicionais do crescer.
Aos nove anos quase completos, o gato como testemunha, sangrara pela primeira vez. Por via de cochichos atrasados, entendeu e rejubilou com o rubro escorrido nas pernas. Tratou do assunto com despacho e sozinha. Lavou-se. Enfiou toalha de bidé dentro das cuecas. E foi trocando toalhas e cuecas até a fonte secar. As sujas foram para cova na quinta. Trindade de meses passados, as queixas domésticas pelo sumiço das cuecas da menina e das toalhas acabaram em culpa de ladrão por identificar. Um tarado!, tinha de ser. E ela, moita-carrasco, o mesmo é dizer nem chus nem bus.
Logo após, etapa em que foi como as outras meninas: revoada de prazer nascida no baixo-ventre deixou-a pasma. Invulgar o cenário do momento – em vez do estado dormido e sonhador comum, acontecera num dia de estio, o gato testemunha sempre perto. Daí em diante, nada foi como o precedente: queria mais e mais do mesmo. Sem sucesso, tentou lembrar-se do que pensara naquela tarde. Nua, espelho na mão, partiu à descoberta da fonte que ora sangrava ora a fazia estremecer. Viu boca com lábios túrgidos e o botão que protegiam. Manipulou-o. À terceira, ondulava no mar quente da fonte.
Já os seios se erguiam, duma só revoada de prazenteiros tremores mais vinham. Ajudava, racionalizou, imaginar-se observada. Ao oculto que a via atribuiu contornos do tio. Numa das tardes de canícula, dormia ele nu (…)
Nota: texto integral aqui no " Museu das Curtas".
CAFÉ DA MANHÃ
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