Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

LEITURA À VOLTA DO CALHABÉ

 

 

De baixo para cima, pétalas coloram o perto das humildes e envergonhadas que pela noite se fecham em recato para abrirem com a madrugada, sempre abraçadas aos canaviais que bordejam linha férrea em desuso, às simples, porém envasadas e mimosas, em cantos protegidos de ventos que somente encantam quem as vê com olhar surpreso por novo amanhecer e, ainda de baixo para cima, os cotos sobrepostos da palmeira desembocam em ramalhete fendido, os cachos de glicínias encimam portão que oculta palacete.

 

 

Nas casas senhoriais, memórias garbosas de capelines protegendo alvuras de peles femininas, charretes, mais tarde nos anos, automóveis em entra e sai na hora de ‘receber’, meninas de luxo no luxo de sedas e damascos que pelas janelas meditam no mundo visto por cima dos muros, tão próximo e distante dos sonhos juvenis, idosos acomodados em cadeirões fofos, desinteressados do mundo além do descrito nos livros relidos e dos afectos presentes chegado o tempo de perspetivar o final, empregadas com farda e crista afadigadas em acender lareiras, servir os ‘senhores’ e, depois, rirem na cozinha das manias deles, víveres entregues pela porta da criadagem, namoricos soltos proibidos às donzelas/patroas e também servas dos seus pais/patrões. 

 

Formosas moradias em banda, se hoje o não são é adivinhado que foram, ladeiam a Avenida do Brasil cruzada por ruas em declive obrigando a arfar quem as sobe, olhar atentamente o empedrado quem as desce, ladeiras, dizem-nas, pela inclinação e batismo, becos sem levarem a lado nenhum salvo aos moradores, toponímias curiosas, balcão de carnes frescas anunciadas como sendo de categoria. 

 

Zona ‘nova’, que o não é porque já o foi, apresenta arquiteturas de más à excelência, a recente Almedina, encastoada sob vidros (...)

 

Nota: texto na íntegra acabado de publicar aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

A magia do antigo, a surpresa do novo.

 

publicado por Maria Brojo às 08:37
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

SE AMANHECESSE ASSIM

 

Miró - "Femme et Oiseau dans la Nuit"

 

Outra seria a música.

 

publicado por Maria Brojo às 11:17
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito

AMANHECI ASSIM

 

 

Wassily Kandinsky- "Gravitation"

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:35
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Terça-feira, 10 de Setembro de 2013

“E LA NAVE VA”

 

Autor que não foi possível identificar

 

Na sornice da deita deste Verão português, demora a pré rentrée que anuncia a vivacidade outonal. Com notícias silly, excetuando as relativas à tragédia incendiária vivida cá e na Síria, iniciativas culturais escassas, até a má-língua popular e a mediática tão costumadas estão em pousio como solos rapados após as colheitas. Persiste o véu nostálgico ou desesperançado nas soalheiradas dos dias. Dele, sentimos a opressão há ror de tempo e o navio continua à deriva - “E La Nave Va” em tons sépia como Fellini quis.

 

Neste amanhecer ventoso, uma notícia fez a diferença: a trindade de televisões generalistas nacionais decidiu não cobrir a campanha autárquica por razões ponderadas, consentâneas com a decisão da Comissão Nacional de Eleições e, mais importante, com o estado vegetativo do país. Nem duvido, desconfiada por imposição das muitas fraudes em que já escorreguei como se o chão fosse coberto por cascas velhas de bananas, que causas outras (conluios?) sejam berlindes no jogo jogado (estas bengalas futebolísticas garantem-me riso). Da minha abundante inocência, basta parte naufragou por isto. Nem a dose cartesiana que soe constituir proteção valeu – estatelei-me com fragor e pavor.

 

Admitindo a bondade da notícia, merece aplausos de pé e o ecoar de “bravo!” por cada um. Que os candidatos multipliquem proximidades com as gentes que diligenciam representar sem os clichês habituais feitos para as tevês e engolidos nos sofás pelos cidadãos. Política viva e olhos nos olhos, perguntas e respostas no momento sem espelhos mentirosos. Assim, sim!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:57
link do post | Veneno ou Açúcar? | ver comentários (2) | favorito
Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

A MULHER E A "CONSUMO FELIZ"

 

Autores que não foi possível identificar

 

Impressiona, desde os primeiros passos nas várias salas que expõem “Consumo Feliz”, a qualidade da pintura que serviria para matrizes de campanhas publicitárias britânicas. Adquirido por Joe Berardo o acervo da notável firma James Haworth & Company do Reino Unido cuja atividade teve início por volta de 1900 e continuada até cerca de 1980. Visão europeia da caminhada publicitária e do marketing decisiva para o entendimento do design gráfico contemporâneo.

 

Porque da evolução na área da publicidade na Europa pouco sabia, o meu interesse tem sido orientado para o feito nos Estados Unidos em semelhante intervalo de tempo, experimentei a surpresa do conservadorismo britânico no papel da mulher na sociedade e, por decorrência, na área tratada. Enquanto nos Estados Unidos, é patente a evolução feminina ao passar de objeto sedutor e alvo de sedução, de, pela fragilidade, pertencer-lhe o destino de ser protegido até protagonista na 2ª Guerra Mundial e no pós-guerra, no Reino Unido é ignorada a alteração do estatuto feminino. Ressalvo aqui porque bem patente na mostra, a importância da mulher na substituição do carvão e do petróleo como fontes energéticas pela eletricidade.

 

Na “Consumo Feliz” é omitido que estando os homens ausentes na guerra são substituídos na educação dos filhos, no mercado de trabalho pelas mulheres, as grandes decisoras nas opções familiares relativas à aquisição de bens que extravasam os simples consumos domésticos. Nos Estados Unidos, por esse tempo, as campanhas publicitárias relativas a automóveis são exemplo, ainda que as tabaqueiras promovam a mulher tentada e o homem tentador. Tomem-se como exemplos as campanhas da Philip Morris e de outras marcas. No caso da Philip Morris, a exposição contém o retrato pintado à mão do belo protagonista presente nas várias campanhas da marca (luz a mais ou a menos não me permitiram fotografia nítida). Finalmente, julgava, após inúmeras pesquisas, saberia qual o autor do retrato do personagem. Desilusão: “untitled” informava o guião da sala.

 

Feliz também a exibição de algumas páginas de figurinos de moda Art Nouveau, bem como divas de Hollywood - Katherine Hepburn, Elizabeth Taylor, Rita Hayworth, Grace Kelly, Gene Tierney, (...)

 

Nota: texto integral aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:35
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Domingo, 8 de Setembro de 2013

ANTES, DURANTE, DEPOIS DA "CONSUMO FELIZ"

 

 

 

 

 

 

 

À direita, produto final da campanha publicitária "Mint Chocs". Em baixo, à esquerda, um dos estudos para a referida campanha.

 

 

 

 

Sendo fruída com vagar, foram muitas as emoções agradáveis nesta parte da coleção vintage de Joe Berardo. Porque maioritariamente inglesa, de fora os ícones da arte publicitária que me fascinam. Por outro lado, manifestamente desadequado o modo como é fornecida a informação sobre cada uma das obras. Malgré tout, exposição imperdível.

 

Como pertença de autor desconhecido, o retrato do modelo que estrelaria as campanhas vintage da Philip Morris e que não logrei captar com nitidez. Aqui, uma das minhas imagens de arquivo. Se nem especialistas identificam o artista ilustrador, fico mais confortada por tanta pesquisa que deu em nada.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:02
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Sábado, 7 de Setembro de 2013

LÉ COM CRÉ

 

 Benjamin Sones – Psychic Advisor

 

Mãos livro, mãos disfarce, mãos. Do trabalho, revelam calos – enxós e enxadas endurecem a pele como uso de pasta com quilogramas em dossiês; diferentes as zonas coriáceas, idêntico o labor como razão. Unhas castigadas são testemunho de vida carregada de esfregões, óleos, terra, giz. E de mais: que lutam e renegam o ficar no regaço em calmaria indiferente se os dias tremem. Quando brilhantes pelo verniz, apenas contam arranjo de véspera. Mas é através da pele que o escondido fala. Se rugosa e manchada, conta idade ou envelhecimento prematuro por culpa do esgalhar quotidiano ou da falta de cuidado. Áspera e feminina, delata lixívias, detergentes, roupa torcida com esmero, agulha de quem costura ou cose peúgas, desinfeção frequente que creme não trata. Por tudo, soe mentirem as mãos quando observadas levianamente. Precisam do complemento do olhar e da fala e do pensamento nela expresso para mais dizerem – o trajar é falácia que convém manter arredia. Fossem organizadas duas carreiras, uma com fotografias de mãos desligadas do contexto e noutra, rol de profissões, é de duvidar jackpot no acerto de ‘lé com cré’. O gesticular ajuda a abrir a página certa do dicionário das mãos. Mãos quietas que não condigam com emoções transmitidas alvitram suspeitas da autenticidade no sentir, contenção ou cartesianismo em dosagem elevada. Mãos agitadas quando o relato é sereno, denunciam incoerência entre a paz aparente e o turbilhão interior. Suscitam curiosidade sobre o ausente no narrado. Manda o bom senso e o respeito pelo outro evitar perguntas, salvo se evidente a necessidade de aliviar carga que amachuca quem discorre. Ainda assim, com cautela, não seja quebrado o cristal íntimo. Motores da «psi», escolhidos os instantes, também necessitam de empurrão que os façam entrar no andamento preciso ao dono ou ao servo ou a ambos à vez, à vez.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:07
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

"CONSUMO FELIZ"

 

Sundblom

 

Para obter imparcialidade, o meu apreço tem contornos diferentes, procurei a Wiki: “O Museu Coleção Berardo é um espaço museológico de referência em Lisboa, onde o visitante pode desfrutar do melhor da arte moderna e da contemporânea. Neste museu é possível encontrar, tanto na mostra permanente da Coleção Berardo como nas exposições temporárias, obras de artistas dos mais diversos contextos culturais e variadas expressões que construíram a história da arte do último século. A 9 de Agosto de 2006 foi criada a Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo (Decreto-lei 164/2006 de 9 de Agosto) com a incumbência de criar, gerir e organizar o Museu Coleção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea, instalado no Centro Cultural de Belém, com um acervo composto por 862 obras, avaliado pela leiloeira Christie's em 316 milhões de euros. O museu foi inaugurado em 25 de Junho de 2007.”

 

Vem a chamada de atenção a propósito da mostra “Consumo Feliz” presente no Museu Berardo. Expostos mais de 350 cartazes publicitários, originais, a partir dos anos 20 do século anterior pertencentes ao acervo do museu (mil e quinhentos exemplares no total). Inegável a importância da publicidade ocidental no mundo, a importância da mulher e a evolução do feminino nesta área criativa. Porque amante da arte publicitária até aos oitenta do XX, vou num pulo e demorarei a voltar noutro. No após, reportagem.

 

Nota 1: pode ser visitada de terça-feira a domingo entre as 10h e as 19h, sendo que a última entrada ocorre meia hora antes do limite (18.30h).

 

Nota 2: publicação aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Pedro Lapa, filho do mui querido Mestre Querubim Lapa, conduz a peregrinação virtual.

 

publicado por Maria Brojo às 09:54
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013

TELHADO DE VIDRO FARRUSCO

 

Nikolai Ge, pintura religiosa inserida no Academicismo, The Museum of Russian Art, Kiev, Ukraine

 

Cada português é putativo herdeiro do Rei Salomão. Sábio e justo. Dele emana a lei que em exclusivo o rege, milhas acima de qualquer lei (da treta) nacional. Concidadão que se preze acumula com a anterior a convicção dos fins justificarem os meios, cumprido esteja o quesito do prioritário interesse individual e seja difuso o prejuízo comum. Atitude perfeitamente compatível com o público apedrejamento do oportunismo alheio. Mal seja lembrado que a cada um cobre farrusco telhado de vidro, logo voz se alevantará: _ “Olha pra ele!.. Mete o nariz na tua vida que bem precisas de ver quem te entra em casa quando tu sais, ó palerma!” E, arrebentando assim um gajo, de duas, uma: ou os tem num corpo à altura deles e parte para um diálogo de pés e mãos, ou os enfezados atributos, vontade e corpo, anulam o rabo entre as pernas e dão “às de Vila-Diogo”.

 

Depois, há aquela ideiazinha, de não irmos muito além dumas patifariazitas sem importância, e que, uma vez exposta a careca, tudo se resolve com um “desculpe lá qualquer coisinha, não foi por mal,” et cetera e tal. E desculpamos porque hoje, ele, amanhã, nós, e um perdãozito oportuno aumenta (...)

 

Nota: texto integral aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:24
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Quarta-feira, 4 de Setembro de 2013

FILME, LIVRO. QUAL DESBRAVAR PRIMEIRO?

 

Jean Pierre Gibrat

 

A intenção deste amanhecer na escrita era a de transbordar mágoa pelos seis bombeiros mortos, pelos outros cinco em situação de feridos graves ou muito graves, pela enormidade da área portuguesa devastada pelo fogo, pelo drama na Síria. Penoso tema para quem a alma está, pelo mencionado, em labaredas infernais há muito traduzidas em palavras na poesia do Inferno de Dante e na pintura por Botticelli no seu Mappa dell’Inferno.  

 

A propósito do vídeo publicado ontem, o estimado comentador António que há muito não escrevia aqui fez pergunta que me alterou o caminho escrito anteriormente planeado.

_ “Este filme, não é a versão com o Viggo Mortensen, pois não?”

Respondi:

 _ “Sim, esta é versão do Agustín Díaz Yanes com o Viggo Mortensen. Vi repetidas vezes o filme comprado em Espanha, logo falado em espanhol. Se alguma crítica tenho a fazer é a fraca qualidade do som. De resto, correspondeu ao meu imaginário após lida a obra literária. O que não é fácil em idênticas circunstâncias: conto meia dúzia de filmes. Fazendo listagem pela ordem dos que mais depressa me arribam à memória, "O Amante" da Yourcenar, "Morte em Veneza" de Thomas Mann, "O Nome da Rosa" do Eco, "A Insustentável Leveza do Ser" do Kundera, aliás o único livro que o Milan permitiu adaptação cinematográfica, o "Chocolate" da Joanne Harris, "A Cor Púrpura" da Alice Walker.”

 

Cheguei assim a proposta suscetível de debate comum – como condiciona uma leitura adaptada ao cinema a visão prévia do filme? Direi que prefiro absorver o livro, dar-me o luxo de inventar ambiência, corpo e rosto dos personagens fundamentais, e, somente depois, visionar imagens captadas. Frequentemente, adio assistir a um filme se ainda não fruí do prazer de sentir nos dedos e no espírito as palavras. Porém esta é mania redutora e gravosa na consequência: quase certa desilusão com o visto. Lembro, como exemplos, “As Vinhas da Ira” de Steinbeck, “Doutor Jivago” de Boris Pasternak. Injustiça clara para com a arte da recriação, seja na forma de filme ou em teatro – “Jardim Zoológico de Cristal”, escrito por Tennessee Williams, ocorre-me de rompante.

 

O inverso sucede-me. Lido o policial “Código da Vinci” de Dan Brown, visto depois no cinema, jamais desliguei Tom Hanks do protagonista Robert Langdon nas restantes obras do mesmo autor. Com “As Ligações Perigosas” o mesmo. Ao ler o romance homónimo de Choderlos de Laclos, análise sob forma epistolar da aristocracia francesa antes da Revolução, ambiente e personagens sempre pertenceram a Frears em detrimento da mais condimentada adaptação de Milos Formam. Das outras nove adaptações ignoro tudo.

 

Vai longo este perorar. Que mais e melhor outros partilhem.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:16
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Terça-feira, 3 de Setembro de 2013

CAPITÃO ALATRISTE, PÉREZ-REVERTE, MADRID

 

Velaz­quez, “La Ren­di­ción de Breda”, Museu do Prado

 

Aventura literária começada por tela no Museu do Prado. Velázquez, o autor. "La Rendición de Breda”, o nome. Professora de História da Arte acompanhava punhado de adolescentes. Coincidimos frente à “Las Lanzas”, como é mais conhecida a obra. Imponente pelas dimensões, composição, luminosidade e transparência. Ouvindo a professora, como se fora mais um dos seus pupilos, fui além no saber sobre o contexto histórico retratado: a conturbada Espanha nos finais do século XVI e princípios do seguinte. Reinava Filipe IV. Decidida empreitada militar: a recuperação da cidade de Breda, na Flandres, como ponto nevrálgico para outros avanços nos Países Baixos. Breda cai e a tela reproduz a dignidade dos generais e militares de altas patentes no momento da rendição dos holandeses. Comentada a falta do Capitão Alatriste entre os generais Spinola e Justino de Nassau. Do tal capitão ao livro e seu autor foi um passo. À leitura do “Capitan Alatriste”, em espanhol, outro.

 

“El Capitan Alatriste”, o primeiro duma coleção onde são narradas as aventuras do arrebatado capitão por Arturo Pérez-Reverte, revelou-se memorável companheiro de viagem quando em Madrid o apelo havia sido a combinação de duas exposições: Picasso no Reyna Sofia, Modiglianni no Tyssen. Lembra as intrépidas aventuras de capa e espada de Dumas com diferença substantiva: Dumas não pretendeu expor a tragédia de ser francês, enquanto Arturo Pérez-Reverte revela toda a amargura vivida na decadente Espanha do século XVII sob o reinado de Filipe IV.

 

Réverte escolhe um mercenário, um personagem lateral à sociedade, porém orientado pela ética. No hoje, ontem e amanhã também contam, um proscrito pela atual manipulação de valores como decência, vergonha pela cobardia em vigor, dignidade, honradez e reputação. Personagem memorável como Sherlock Holmes, Marlowe, Hercule Poirot.

 

Regressada há dias duma surtida a Madrid, (...)

 

Nota - texto integral aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:24
link do post | Veneno ou Açúcar? | ver comentários (4) | favorito
Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

NOS 80, ERA "A MOVIDA". HOJE, O DESEMPREGO

 

 

O sol recolhe-se e anuncia a noite madrilena. Os ocres, os laranjas invadem o longe e o perto de Madrid. A tijoleira de revestimento da maioria dos complexos habitacionais, pela reflexão irregular da luz visível que multiplica os tons quentes, confere ao entardecer luminosidade estonteante.

 

 

Envolta a cidade no breu celeste, a iluminação urbana é feérica nos lugares/emblemas da cidade sem gente e triste. E não é por ser o final de Agosto que, normalmente, esvazia de nativos as capitais e soe trocá-los por hordas de turistas. Os madrilenos ou escolheram os 'pueblos' de origem para férias económicas, ou se mantêm em casa protegidos da canícula e da tentação de esvaziar os bolsos magros - o desemprego em Espanha é o segundo maior da Europa - numa bebida, num jantar na multiplicidade de sítios abertos. É verdade terem cerrado, temporariamente, as portas os mais célebres. Aberta a restauração acessível pelos preços. O turismo é quase nulo - Madrid também se ressente da crise económica europeia e mundial, ressalvando os países emergentes. No vazio do inolvidável "Geographic Club" (é pecado não entrar!), houve tempo para conversa com o proprietário. Foi categórico: _ "Madrid es muerta." Por outro lado, é refrescante estar numa cidade ícone do turismo sem ver manadas de orientais clicando por tudo e nada, reconhecer que os brasileiros constituem a maioria dos visitantes.

 

 

O luxo e o esplendor continuam a vigorar na oferta noturna. Uma pizzaria decorada como "La Tagliatella" jamais vi. Baixando o olhar da magnificência do cenário, entristecem as mesas desocupadas na maioria. Passado um quarto de século da "Movida Madrileña", nascida como reação natural dum povo sujeito a ditadura nas quatro décadas anteriores, o movimento contra cultural rapidamente alastrou a todo o país. "Pedro Almodóvar  foi a maior estrela que surgiu naquela época e que alcançou projeção internacional e que se mantém até hoje no estrelato.  Atuava no teatro e era cantor de rock-punk, onde se apresentava travestido ao lado de Fábio McNamara. Como diretor, cultuou o marginal nos seus filmes de forma ácida e crítica. Na sua filmografia, não há nenhum drama sem comédia e nenhuma comédia sem drama. Soube colocar os holofotes para a realidade do subterrâneo e que para a maioria dos conservadores e otimistas, era apenas o surrealismo de um jovem desvairado. A Espanha precisava mudar a imagem conservadora e reprimida. Necessitava se livrar dos resquícios da mão dura de Franco. Por isso, toda a transgressão foi respaldada principalmente pela classe política de esquerda. Queriam mostrar um país democrático, novo e principalmente, moderno."

  

“...Segue a movida madrileña
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks...”

 

 

Não fora a tristeza que contamina o respirar de Madrid, este lugar belo no kitsch assumido estaria à pinha. No contrário, permiti-me a extravagância de brincadeira narcísica para depois rir de mim própria.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:23
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
Domingo, 1 de Setembro de 2013

DALI, REINA SOFIA, BOTIN

 

 

Em Madrid, larguei o meu vício de testemunhar cada madrugada. Amanheci com vagar, mantive o hábito do sumo de laranja e um café - o "americano" foi a escolha. Deambular sem pressa pelos jardins do hotel, perder-me nos vitrais genuínos, as uniões em chumbo provam-no, as formas do arvoredo que filtram. Depois, sair e redescobrir uma cidade que, pela visita anual durante toda a infância e adolescência - ali era adquirido material e vestimentas para o ano letivo a iniciar -, jurara aos vinte e cinco anos, não mais voltar. Assim foi nas duas décadas seguintes. Atravessar Espanha, sim, mas somente pelo ar. A norma interior seria quebrada cinco anos atrás, conquanto mantivesse Madrid arredada do percurso cujo objetivo era Poitiers. Porque sempre amei o País Basco, deste não prescindi. Com Biarritz o mesmo. Entesouro memórias lindas dessa travessia. Par de anos depois, houve regresso a Madrid para visitar as exposições temporárias de Picasso no Reina Sofia, de Modigliani no Tyssen. Viagem soberba pelo visto e porque feita deliberadamente em carris - sair de Lisboa ao fim do dia, dormir em couchette e acordar na estação de San Martin de La Vega. Regresso idêntico. Para a mulher que ama comboios, melhor era impossível.  

 

 

 

O resto da manhã e princípio da tarde até ao almoço tardio, passado em lojas de arte. Já na véspera, a loja do Tyssen me tinha feito cair em deliciosas tentações. Mas foi na "Arte Stilo", logo a seguir à Toledano das magníficas montras (ver acima) mas com recheio feito «pra turista ver», ambas no Paseo del Prado, que me deixei levar pela qualidade das peças expostas - Klint, o checo Alphonse Mucha, Hopper; Dali, Miró, Picasso inevitavelmente. 

 

 

As imagens traduzem o entusiasmo na espera da visita às onze salas dedicadas à temporária de Dali. O "Pássaro Lunar" de Miró suportou-me o peso.

 

 

Visitada a mostra, recompus-me da desilusão no terraço do 3º piso. De facto, apenas seis obras emblemáticas constam, as restantes são de períodos menores ou indefinidos do artista, excetuando as dos primeiros anos na caminhada. Nestas, sim, matéria, traço perfeito, investigação bem patentes. Nas seguintes, é o «lambido», a facilidade dos contornos a preto, ausência de matéria. Usar ou não o óculo, tanto faz - a perspetiva mantém-se, frequentemente, numa bidimensionalidade pobre. Os hologramas são banais, as esculturas melhores sem que espanto seja consequência. Maravilha em Dali a rutura com o até ele feito em pintura, com o domínio do traço se o tratado é o corpo humano. Remata a exposição uma patética tentativa de voltar à técnica impressionista. De tão má, julgo difícil esquecê-la.

 

 

Ia a tarde mais que meada, de volta ao hotel para balanço do espírito assoberbado com o visto. Horas após, saída para a janta no restaurante mais antigo do mundo - o Botin. Entre outras, a especialidade rainha é o leitão de vinte e um dias. Deixa longe o de Negrais que odeio, o da Mealhada, empata com o do Mugasa aqui na maravilha da aldeia de Fogueira, Sangalhos. É repetido que Hemingway do Botin dizia ser o melhor, que Goya nele havia lavado pratos enquanto aguardava ser admitido na Real Academia das Belas-Artes. A ligação que sugiro merece exploração adequada, embora surja a página dedicada à origem e influência artística do Botin.

 

 

 

 

 

Não tenho por hábito ser exuberante em lugares que desconheço. Mas se a tuna do Botin, vestida segundo a tradição medieva e composta de excelentes vozes e tocadores, me dedica o "Coimbra é uma Canção" a emoção extravasou.

 

 

 

No regresso para a deita - na memória, a pintura do recanto escondido que acolhe o Botin -, outro vitral me esperava no hotel.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Vídeos a não perder. No primeiro, critérios para a seleção das obras no Reina Sofia; no segundo a decisiva influência de Gala em Dali.

 

publicado por Maria Brojo às 07:32
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito

últ. comentários

Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...
De férias , para sempre. Fechou a loja... :-(
Curta as férias querida...Beijos
ABANDONODAVID MOURÃO FERREIRAPor teu livre pensame...
Ainda?Isso aí no Inverno é gelado ;-)

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds