Segurelha Canela Noz-Moscada
Duas picantes e outra nem por isso. (...)
Mais dicas além das que constam aqui: a primeira é sexy, dona das pernas do século XX, a segunda foi pioneira em «brinquedos» eróticos, a terceira adoçou-nos a infância.
Que os “barra bravas” não arruínem a festa última deste campeonato do mundo.
A torcida dos “barra bravas” da Argentina é considerada perigosa. Carateriza-a o apoio incondicional ao futebol do seu país, cânticos mesmo quando está perdido o jogo. Contudo, é responsável pela violência antes, durante e depois dos confrontos futebolísticos, pelo narcotráfico e ilegalidades várias que afetam toda a Argentina. Desejo boa sorte à "Seleção das Pampas".
CAFÉ DA MANHÃ
Naza Naza – “Macaw Parrot”
A arte abstrata figurativa de Naza (Maria Nazaré Rufino) foi exposta nas principais galerias e museus das Américas do Sul, Central e do Norte e da Europa. Ao criar o conceito "Realismo Abstrato", esta pintora brasileira movimenta peças de um jogo ímpar através de linhas e formas com as quais cria “janelas cósmicas”.
Obras de Naza integram coleções de líderes, celebridades, corporações e o “who’s who?” do jet set internacional. Alguns dos colecionadores dos trabalhos de Naza: presidentes Bill Clinton, Barack Obama, Fernando Henrique Cardoso. ‘presidenta’ Dilma Rousseff, Neyde e Viviane Senna, Ivana Trump, Brigitte Bardot, Academia de West Point, Banco do Brasil e (…)
(...) Na arte contemporânea, a emotividade criativa e técnica latino-americana confronta sem laivos de humilhação a europeia.
Nota – para ler na íntegra, aqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Fabiam Perez – “Black Suit, Red Wine” Fabian Perez – “Proud to Be a Man, III”
"A espaços, quando a saudade bate, reúnem-se os(as) velhos(as) amigos(as).
Os pretextos são muitos: o aniversário do final da guerra, o funeral de velho chefe de que alguém se lembrou ou simplesmente... por coisa nenhuma.
Têm todos esses encontros em comum ocorrerem sempre à volta de mesa farta. Como um hino ao declínio hormonas e ao Outono das ideias. O prazer, que andava antigamente pelo baixo-ventre, sobe agora para as papilas gustativas.
Nos homens, desce o que nem preciso mencionar e sobem as sobrancelhas como que semeadas em dia de vento. Comparadas a rigoroso transferidor, as curvas da felicidade são aferidas pelo estado civil. Nos casados, de bojos mais proeminentes, infere-se a inveja pelos que ainda têm o grisalho dos cabelos sobre a testa.
Nas mulheres, arredondam-se os rostos levemente inchados. As saias, justas, contorcem-se em prodígios de costureira. Os perfumes, outrora aromas suaves, viraram opiáceos intoxicantes entre maquilhagens mais carregadas que bateria nova. Os decotes são agora menos discretos pelo milagre da elasticidade das lãs.
Por muito velhos que estejamos, conforta-nos ver que fulano está pior do que nós e sicrano muito mais magro depois de operado. Agradecemos e retribuímos a piedosa mentira do 'estás na mesma', com um sorriso confuso de quem não sabe se isso é bom ou mau, mas tomando-o como bom.
Abraçamos aqueles de quem gostávamos e gostamos. Os seus rostos fazem-nos corar pela memória de histórias do tamanho das nossas vidas num doce prazer de estar triste a que os românticos insistem em chamar de nostalgia. Diz-nos a razão, como sal que tempera a emoção, que não voltaremos a ser, ter ou haver, o que já foi e passou.
E perguntam-nos sempre aqueles que nunca nos ligaram nenhuma 'então, o que fazes agora?' como se o quer que fizéssemos agora, interessasse sequer ao menino Jesus quanto mais aos inquiridores; internamente ocorre-nos a vontade de responder: _ 'o que é fraco dura muito!'
Na mesa ao lado, numa tétrica conversa de sénior, enumeram-se quarenta nomes, dos quais, alternativamente, os presentes, vão confirmando os óbitos.
Entre suspiros roubados ao silêncio da memória, os homens compitam em murmúrio - diz quem sabe que fulana, ainda tem muito boa mama - e bebem mais um copo para esconder o sorriso e o que sabem mas não dizem.
De igual modo o fazem as mulheres, com os olhares. Em explícita cumplicidade, mais mordaz que alcali forte, um olhar basta para demonstrar como é cáustico o riso histriónico de fulana e parola a gravata estampada de sicrano.
Com ou sem discurso do promotor ou homenageado, etilizados pela saudade e exacerbação de memórias, permutam-se abraços longos de despedida, confortados na promessa de 'para o ano de novo aqui sem saberem que baixas haverá na foto de família, por lesão ou perdidos em combate."
Texto de Júlio Gonçalves, autor do livro “Caixeiro-Viajante”
CAFÉ DA MANHÃ
A Clockwork Orange Self Portrait of the Artist, 1889, Orsay Like the Simpsons
Desde o início do Mundial de Futebol 2014 que desejava final entre um país da América Latina e um Europeu. Antes do Argentina/Holanda, a minha simpatia ia direta para a “Seleção das Pampas”. Não tinha reserva alguma, salvo a atrás referida, contra os da “Laranja Mecânica” nem contra o fabuloso filme de Kubrick estreado em 1971 nem contra os conterrâneos de Van-Gogh nem contra a pintura flamenga nem contra os grandes homens que deixaram impressivo legado ao mundo nem contra o povo dum país que amo e me fascinou. Bem pelo contrário, a Holanda encantou-me enquanto país de postal ilustrado que é semelhante a dizer pelos belos clichés que a publicitam: canais, moinhos de vento, campos e o mercado das flores em Amsterdão, os tamancos de madeira e a cerâmica de Delft a que não resisti, as vestimentas tradicionais, o queijo Edam. Mas houve mais. Senti-me próxima de Rembrandt, de Johanes Vermeer, de Piet Mondriam , de Vincent Van-Gogh no que à pintura concerne. No pensar o tempo, colei-me a Erasmo de Roterdão, Espinoza, René Descartes, aos escritores Harry Mulisch, Cees Nooteboom (“Os Distúrbios de Paris” e “Nas Montanhas dos Países Baixos”). Lembrei as vítimas da Segunda Guerra Mundial documentada por Anne Frank no seu diário e na casa onde se abrigou dos invasores alemães.
De regresso ao «mundo da bola» que, por ora, canibaliza notícias de importância maior, aguardo (in)tranquila a final domingueira.
CAFÉ DA MANHÃ
Argentina Holanda
Fernando Chamarelli
Foi o cântico que durante mais de uma hora após o jogo de ontem neste Mundial 2014 os adeptos alemães entoaram nas bancadas perante um Brasil em lágrimas, trucidado a 7-1 por uma divisão panzer. Mal haviam passado dez minutos de jogo, o descalabro: nos pés da seleção germânica, a bola penetrou quatro vezes na rede brasileira. O uso, antecipado como festivo, de máscaras de Neymar distribuídas pelos milhares de brasileiros presentes no estádio de Mineirão acabou como serventia para esconder mescla de tristeza, vergonha, fúria. Sentimentos opostos aos de 2002 quando, na final, os ‘canarinhos’ liderados por Ronaldo derrotaram a Alemanha e tiveram direito ao «caneco». Ontem, o segundo frente a frente destas seleções.
Uma nova palavra, retomando o significado de tragédia da seleção brasileira em mundiais, nasceu ontem - «Mineiraço». Lembrou a inventada no Mundial de 1950 – «Maracanaço», flutuavam ainda no ar cinzas, estavam quentes os canhões da Segunda Guerra Mundial. No congresso de 1946, a FIFA escolheu o Brasil como anfitrião do Mundial de Futebol de 1950. Nenhum país europeu foi candidato pelo envolvimento na reconstrução pós-guerra. Único quesitoimposto pelo anfitrião: adiar um ano o pontapé inicial para construir o Maracanã. Excluídos Alemanha e Japão tidos como responsáveis da guerra e das consequências brutais. .Excluiu-se a Argentina por razões políticas. O Reino Unido, a Escócia, Portugal e a Índia decidiram a não comparência, alegando os asiáticos a proibição de jogarem descalços. (…)
Nota - texto publicado na íntegra aqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Wojtek Siudmak Wojtek Siudmak - Reincarnation
Quando temos a sorte de ter interlocutor curioso sobre temas vários, que sabe ouvir e argumentar, o afazer é não permitir a queda em saco roto de pitada do diálogo. Em cavaqueira amável como sempre, foi colocada a pergunta que deu título a esta croniqueta. Na resposta, fui engrenando raciocínios e factos. Vieram à lembrança as bolas de sabão, esferas perfeitas. Porquê? _ Obedecem ao princípio da energia mínima para que tende o universo. Mal comparado, tem a ver com a reação da economia em tempos de crise: poupar, gerir adequadamente recursos. Na verdade, e de volta às bolas de sabão, a forma esférica é a mais estável (requer menos energia) de todas as formas geométricas encontradas na natureza.
Numa esfera, todos os pontos da superfície estão à mesma distância do centro. Além disto, os planetas obedecem à combinação de dois fatores: a força da atração da gravidade e a sua massa. Todos os corpos se atraem entre si. Tal como afirmei aqui, a gravidade é tanto maior quanto maior for a massa do planeta. Tomando a Terra por exemplo, essa é a força que nos mantém no chão, que explica a queda dos objetos, que mantém os oceanos presos à superfície e impede os gases da atmosfera escaparem para o meio interplanetário.
Há muito tempo, aprendi que, no início, a jovem Terra tinha muito pouca massa e mais parecia uma pedra gigante de formato irregular como os asteróides. No entanto, a atração gravitacional juntou mais massa ao planeta. O mesmo sucedeu com os demais integrantes de sistema solar. Logo, a redondeza dos planetas tem por origem a força da gravidade. Problema: estes não possuem forma esférica perfeita. As Leis do Movimento de Newton logram ajudar ao definirem que um corpo em movimento tende a continuar em movimento. A matéria no equador do planeta viaja com velocidade suficiente para gerar dilatação nessa zona da Terra. A forma achatada nos Pólos depende da massa, tamanho e velocidade da rotação. Surge daqui a forma da Terra ser como a de uma maçã (já foi cientificamente defendida a semelhança com uma pera).
Viajemos pela nossa infância. As crianças aprendem a desenhar uma estrela com número variável de pontas. Têm razão: este é o formato que apresentam ao nosso olhar. Infelizmente, a verdade é menos poética. (...)
Nota - texto publicado integralmente aqui
CAFÉ DA MANHÃ
Manuela Pinheiro - Eça de Queirós, 2000 Autor que não foi possível identificar
“O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espetaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros
não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem atos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.
Quando numa crise se protraem as discussões, as análises refletidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.
O que nos magoa é ver que só há energia e atividade para aqueles atos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho. Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de (…)
Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora', 3 de março de 1867
Nota: texto publicado integralmente aqui.
CAFÉ DA MANHÃ
Philip Hawkins – Cock of the North Kim Corpany – Silver Star Spurs Western Cowboy
Sou do tempo em que o único canal televisivo entretinha gentes remediadas com matinés inocentes onde pontificavam coboiadas romanescas. Havia tiros e corria sangue, verdade, embora o preto e branco dele fizesse caldo de borra de cigarro. Ingredientes quase certos eram diligências fáceis presas dos mauzões, paisagens desoladas com cilindros de ervas secas enrolados pelo vento, xerifes e bandidos. Forcas quando calhava. Depois, havia a bendita certeza do filme acabar bem com o pistoleiro nos braços duma donzela em bom recato ou no quarto de refinada jovem prestativa em qualquer saloon. Já a tarde ameaçava sono quando a matiné era finda. Pequenada contente, mãe bordando, pai ouvindo relato de futebol, tarde de domingo invernoso bem passada.
Ora, dá-se o caso de ter sido questionada sobre a razão das já tremeliques pontes pênseis de madeira nos filmes do faroeste só darem de si após o comboio dos «bons» passar, feita antes marcha-atrás. A bandidagem era obrigada a estacar e os malvados da frente caíam na ravina funda como algumas gargantas que ‘eu cá sei’.
Recorri aos Spaghetti werstern ou Bang-bang à italiana vistos e revistos nas matinés da TV – acabada a exibição do lote de filmes em stock, eram repostos os velhinhos a cintilar como estrelas cadentes. Pois a meu ver, resposta simples: (…)
(…) Tudo muito desembaraçado e coisa e tal, todavia com, no mínimo, dois senãos:
_ não recordo o nome de um único western em que surgem situações como a questionada;
_ será que a quantidade de movimento nada tem a ver com o facto?
«Franchement» vos digo não estar com a menor vontade de consultar canhenhos que me reavivem memórias estafadas.
CAFÉ DA MANHÃ
Na Rua do Duque, o nº 20 vê de baixo a Rua do Alecrim.
Ali, o entardecer desce cedo pela arquitetura alta e pobre. Numa sexta-feira, rondando as vinte horas do dia, é iniciada a enchente de automóveis e gentes. As varandas da Casa de Pasto, permitem reter imagens/testemunhos. Em destaque, a sinalização do lugar pelo luminoso porco branco.
O interior do restaurante dividido em salas, permite convívios mais aconchegados ou alargados consoante o tamanho da sala escolhida para degustar a plêiade de entradas e propostas da pièce de resistance da refeição. Decoração entre o kitsch e Arte Nova. Pontifica como forro das paredes a minha amada Chita Dona Maria. Trazida da Índia pelos portugueses, foi rainha como tecido decorativo pelas classes sociais em que o dinheiro escasseava devido ao preço módico. Hoje, refinou e é moda na classe social com maior poder de compra. A variedade de motivos pictóricos confere alegria, muita cor a ambientes elaborados ou minimalistas.
Porque as casas de banho de qualquer lugar público que visite são, para mim, importantes, não resisti a fotografar a destinada ao sexo feminino. Originalidade a rodos. O extenso e iluminado painel representando nabos grelados é divertido. Não resisti à captação de imagens.
Na casa de banho masculina, cenouras pendentes são o mote. Provocação deliciosa.
Sala de fumo. Vitrais simples não impedem olhares apreciadores de saguões de antanho. Perco-me ao vê-los. As cadeiras cuja origem presumo ser um teatro conservam os números em esmalte. Ambiência decadente conforme era apanágio da zona. Sedutora.
CAFÉ DA MANHÃ
Ai cais do Sodré
ai cais do Sodré
mais vale parecer
que ser o que é
ai cais do Sodré
ai cais do Sodré
nem todo o sapato
te serve no pé (…)
Antigamente, era o «Deus-Médico». Determinavam, com precisão quase matemática, o tempo de vida que restava ao doente e «davam» uns tantos meses ao «desiludido dos médicos» (negociável se o doente fosse rico ou filósofo...)
Ainda há cinquenta anos passavam as receitas em latim.
Na província, recebiam os honorários em galinhas, queijos da serra e tudo o mais que os doentes, desesperados, de fé inabalável no Senhor «Dótor» e na Nossa Senhora de Fátima, como que compreendendo que a saúde se compra e vende. Nos seus corações, cabiam todas as fés do mundo: no bruxo Alexandrino, na bruxa da Ladeira, nas medicinas alternativas, nos homeopatas e nos Senhores «Dótores».
A medicina evoluiu. Deve-se à engenharia que lhes pôs os raios X à disposição, que lhes fez as máquinas para “verem” os tecidos moles como as TAC e as RM que lhes cedeu laboratorialmente uma plêiade de parametrização biomédica. Assim, o diagnóstico matou o de «olho clínico» que passou a ser científico e de tal forma translúcido que põe em questão a necessidade do veredito do homem de bata branca.
lhes Auxiliares de Diagnóstico como se fossem coisa sua, mística, transcendental. Nunca mais deram um passo ou emitiram uma opinião, sem a panóplia completa de exames laboratoriais que, compiladas, não precisam de médico algum para determinar o que se passa com o paciente. Já nos tempos de estudante, brincávamos com os colegas de medicina. Dizíamos: se os engenheiros precisam de 5 anos para fazer coisas tão diversas como pontes, edifícios e máquinas, porque precisam os médicos de estudar 6 anos, uma única coisa que é o corpo humano? Estudam 6 anos a mesma coisa?!
Presentemente, a Internet tem tudo que os médicos sabem e tem também tudo que eles não sabem. Experimente-se perguntar a um clínico todas as funções da tiroide ou das cápsulas suprarrenais e é vê-los a regurgitar expressões incoercíveis como se lhes tivessem espreitado por debaixo das saias. Alegarão, por certo, uma súbita chamada de urgência do hospital onde nunca trabalhou.
Desde que as Seguradoras classificaram o valor de cada ato médico, assistimos a um ping-pong de clínicos saltando de umas Seguradoras para outras como pipocas. Porquê? Porque todo o ato médico é antes de tudo um ato comercial!
Sejamos realistas: se uma família investiu milhares na educação de um filho para ser médico não é para ele passar as dificuldades de um mineiro, um empregado de escritório ou um operário fabril. O meu filho é cirurgião – dirão – mesmo que passe a vida a tirar quistos e apêndices o que um bom enfermeiro faria na perfeição.
Quando, no calor do 25 de Abril, os comunistas falaram em privatizar a medicina, os senhores Doutores exclamaram: “Isso é só até o Presidente da República ter a primeira constipação.” Há uns anos, o Reitor da Universidade de Medicina do Porto adaptou, no final duma palestra de duas horas aos novos médicos, uma frase lapidar cuja essência data do século XIV: “Não obstante os enormes desenvolvimentos da medicina, (essencialmente após a 2ª Guerra Mundial – acrescentou) o certo, é que continuamos todos a morrer a 100%.”
Em todas as profissões há bons e maus; consensualmente, assume-se que por cada 30 formados haja um, verdadeiramente brilhante. A alguns desses, que com inestimável privilégio, tive a oportunidade de conhecer, médicos investigadores, cirurgiões, endocrinologistas e epidemiologistas, presto a minha admiração e reconhecimento. Tinham em comum aquele respeito antigo pelos doentes, pela última novidade científica e elevavam acima das suas cabeças o juramento de Hipócrates. Distintos médicos em tudo merecedores do epíteto.
Mas na generalidade, porém, se os médicos soubessem mais, ou melhor, do que o comum dos mortais, durariam pelo menos, mais uns anos. Contudo, vivem apenas o tempo de qualquer outro mortal mesmo recorrendo, corporativamente, uns aos outros. Recentemente, no nosso país, desde que o Ministro Macedo lhes abriu caça, que é o termo, descobrindo todo o tipo de trafulhices, à média de três por dia apanhados pela Polícia Judiciária, médicos, farmacêuticos e delegados de propaganda médica, não tiveram outro remédio senão desaparecerem dos Centros de Saúde ou demitirem-se dos Hospitais.
Nas Urgências, passamos a dizer ‘Spassiva’ (obrigado em Ucraniano) ou ‘Gracias’ em Castelhano aos médicos que nos atendem com todo o profissionalismo e deferência que todo o ser humano merece. Não é preciso esperar meia hora pela auxiliar que empurre a maca nem pela enfermeira que ponha o cateter nem pelo aparelho de eletrocardiograma que, porque único, está no segundo andar. O médico estrangeiro faz tudo sozinho (e bem) sem a cagança, do médico português, este último, calçado com ‘crocs’, bata imaculada e estetoscópio ao pescoço. O médico português revê-se no Dr. House em ambiente hospitalar. Atenderá sem em primeiro lugar e sem qualquer pudor, o homem de fato que lhe vem oferecer o ingresso no Congresso do Algarve onde poderá levar aquela amiga que há muito traz debaixo de olho.
Os Senhores “Dótores” começam agora a enfrentar uma classe de doentes com formação e computador debaixo do braço. Estes, leram a última literatura científica sobre o problema que os atormenta e discutem a opinião do clínico em base científica; subtilmente, olham para o «canudo» exposto no consultório e reparam a nota final com que o clínico se formou.
Os doentes de agora já não são os velhinhos crentes no Doutor-Deus, nos quais se perpetrava todo o tipo de experiências como cobaias no melhor estilo de Joseph Mengele, mas sim, jovens biólogos, químicos e outros, que contestam as panaceias e os placebos que habitualmente se receitavam. Questionam a eficácia do ácido clavulânico mais amoxicilina prescrito para um espetro tão vasto como a queda do cabelo, o streptococcus aureus, o reumatismo, as dores na alma, a osteoporose, a unha encravada, a inflamação na válvula mitral ou erradicação da helicobacter pylori. Tudo porque foi este o nome do medicamento deixado pelo delegado da propaganda médica nas costas da chapa com o próprio nome do médico pousada sobre a secretária.
Os novos doentes questionarão o porquê e a eficiência real da inibição da produção de químicos orgânicas causadores da perturbação que os atormenta. Questionarão até o simples e recorrente abuso de linguagem do ‘perder peso’, expressão comercialmente impactante mas prenhe de desprezo pelas noções básicas de volume e densidade aprendidos no 3º ano dos Liceus (ao que quer que isso corresponda nas escolinhas de agora.)
Os médicos começam a ter dificuldade em culpar o omnipresente tabagismo como o alfa e o ómega de todos os males porque alguns doentes, ‘hellás,’ deixaram mesmo de fumar. Estarão os médicos portugueses ao nível dos novos doentes do Séc. XXI? Ou será melhor aproveitarem a greve a 7 e 8 deste mês para um ato de contrição?
Crónica de Júlio Gamelas Gonçalves, autor do livro "Caixeiro-Viajante"
CAFÉ DA MANHÃ
Carl Warner - Paris Boulevard Carl Warner – Cart Balloons
Um estudo da universidade de Missouri-Columbia, nos Estados Unidos da América, demonstra que as plantas conseguem ouvir quando estão a ser comidas e que se defendem contra os intrusos devoradores lançando óleo repelente.
Há quase 30 anos atrás, o botânico sul-africano Lyall Watson afirmou que as plantas sentem e se emocionam. Cientistas provaram que as plantas não só respondem ao som crescendo na sua direção - a voz feminina é mais propícia ao crescimento dos vegetais que a masculina -, mas também comunicam entre elas enviando mensagens químicas pelo ar.
E o que dizem as plantas umas às outras? Segundo os pesquisadores devem ter muito para falar, incluindo a partilha do espaço disponível para crescimento e onde situarem as raízes. O som pode realmente oferecer um canal de transmissão particularmente eficaz mas de curto alcance. Quando uma outra planta “lê” a mensagem, reage aumentando suas defesas naturais contra gafanhotos, lagartas e outros invasores.
Desde 1960, cientistas suspeitam que haja mais nas plantas do que aparentam. Vários pesquisadores, tais como Cleve Backster, descobriram que testes de polígrafo detetam emoção nas plantas. Uma equipa da Universidade de Oxford afirmou que relva e pés de ervilhas sabiam quando plantas vizinhas enfrentavam uma seca. Embora tendo água suficiente, fecharam os poros das folhas quando as vizinhas sofriam falta de água. Depois de algumas horas, aparentemente perceberam que não estavam em perigo e abriram novamente os poros.
São Francisco exorcizando demónios em Arezzo Francisco Goya - Saint Francis Borgia performing an exorcism
“O Papa Francisco deu apoio ao exorcismo na Igreja Católica, depois de um grupo de padres que reclamam salvar pessoas expulsando os espíritos malignos ser reconhecido oficialmente pelo Direito Canónico.
De acordo com o jornal oficial do Vaticano, o «L'Osservatore Romano», a Associação Internacional de Exorcistas, composta por 250 padres que alegam combater as forças do mal em mais de 30 países, viu os seus estatutos aprovados pela Congregação para o Clero. A decisão dá reconhecimento legal à prática do exorcismo.”
De acordo com a Bíblia, Jesus realizou cerca de meia dúzia de exorcismos. Em Mar 16:17, lemos – “E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demónios; falarão novas línguas, sendo todo crente em Cristo Jesus capaz e autorizado por Cristo a expulsar demónios.” Entre todos os leigos que acreditam e procuram mais saber sobre exorcismos constam principalmente médicos, enfermeiros, psicólogos, advogados, professores e membros das forças de segurança.
Segundo testemunhos do ritual católico, os demónios respondem com mentiras às inquirições do padre sobre, entre outras, a identidade do demónio e/ou a causa da possessão. Apesar da resistência do(s) malino(s), o sacerdote exorta-os a largarem o corpo do possesso invocando Deus, Jesus Cristo e a corte dos anjos. Após horas extenuantes de invocações e rezas, é dita possível a libertação do domínio e haver «cura». Voltando a possessão demoníaca a atormentar o paciente, este busca alívio na psiquiatria, conquanto a maleita não conste dos diagnósticos psiquiátricos.
Quem professa crença nestas possessões descreve, por vezes, sintomas comuns a várias doenças mentais, como histeria, mania, psicose, epilepsia, esquizofrenia ou dissociação de identidade. Existe ainda a demoniomania ou demonopatia em que o indivíduo acredita ser possuído por um ou mais demónios. A ilusão do exorcismo é atribuída ao efeito placebo e ao poder da sugestão. Alguns dos supostos possuídos são narcisistas ou sofrem de baixa autoestima, agindo com o propósito de ganho de atenção.
CAFÉ DA MANHÃ
Alex Alemany
Um trabalho da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa concluiu que 97% da poluição marinha corresponde a resíduos de plástico e destes 27% são elementos que incluem fragmentos de sacos de plástico descartáveis, que permanecem na natureza e, ao dividirem-se em pequenos fragmentos, são confundidos com alimentos pelos animais que os ingerem.
Os ambientalistas da Quercus vão instalar um "estendal" de 466 sacos descartáveis encontrados nas praias nacionais, número que as estimativas apontam para a utilização anual de cada português, enquanto na Europa a média desce para 198. Los Angeles é, desde o início deste ano, a primeira metrópole que baniu sacos de plástico. Na Europa, a Irlanda suspendeu a distribuição gratuita de sacos, a França anunciou que vai seguir o mesmo caminho, a Itália substituiu os descartáveis por biodegradáveis e Espanha deixa ao cliente a opção de escolha do material, em quatro possibilidades.
Neste Dia Internacional dos Sacos de Plástico, o “estendal” em frente à Assembleia da República pretende alertar os deputados para o problema ambiental e económico da utilização de sacos de plástico, e visa propor a suspensão gradual da sua oferta nas lojas. Para a Quercus, as lojas devem decidir as medidas para substituir a oferta de sacos, do uso de sacos reutilizáveis ou de papel, à instalação de eco-caixas (que não oferecem sacos) ou a aplicação de uma taxa por cada saco.
Hoje, o PS e Os Verdes apresentam propostas para reduzir os sacos de plástico e promover a reutilização, com os socialistas a defender um sistema de desconto mínimo sobre o preço dos produtos vendidos ao consumidor, não inferior a 0,05 euros (cinco cêntimos), por cada cinco euros de compras, quando o cliente prescindir dos sacos de plástico gratuitos. Em meados de Abril, o Parlamento Europeu aprovou medidas no sentido de reduzir, em pelo menos 80%, a utilização de sacos de plástico até 2019.
Compostos por resinas tóxicas derivadas do petróleo, os sacos de plástico levam, em média, 500 anos a decompor-se. Embora possam ser separados para reciclagem, apenas uma ínfima parte chega a este fim – estima-se que menos de 2%. Outro problema é a reutilização dos sacos para acondicionar o lixo orgânico. É uma nova função quase inevitável para os sacos que trazemos do supermercado ou até mesmo para os que compramos especificamente com esse fim e, por esse motivo, existem à disposição do consumidor sacos biodegradáveis.
Nota: uma das fontes utilizadas no texto foi esta.
CAFÉ DA MANHÃ
Da exposição infanto-juvenil "Das Histórias Nascem Histórias", concebida por
Fernanda Fragateiro sobre o universo literário de Sophia de Mello Breyner Andresen
"Das histórias nascem histórias" é o título do projeto que Fernanda Fragateiro fez baseando-se em duas histórias de Sophia de Mello Breyner Andresen, "A Floresta" e "A Menina do Mar".
Eu e os meus irmãos fomos nas férias do Natal ao Centro Cultural de Belém ver a exposição.
A parte principal da exposição é constituída por uma espiral com 2,5 m de altura e 5 m de comprimento. A parte interior da espiral é azul e a Fernanda Fragateiro desenhou aí algas e animais marinhos. A parte exterior possui um fundo branco e sobre ele fez desenhos da floresta e de anões. Ao entrar na espiral senti que estava dentro dos livros de Sophia Andresen, num mundo de magia e alegria ou num conto de fadas.
Dois atores leram um pouco das duas histórias; eu já tinha lido os livros e adorei a menina de cabelos verdes, olhos roxos, de vestido feito de algas (...)
Nota: texto publicado na íntegra aqui.
CAFÉ DA TARDE
Ron Pfister Victor Dubreuil
O seguinte texto foi publicado recentemente no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha. Reflete sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Faz uma análise sobre o capitalismo atual que está a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cu", e é escrito por Juan José Millas.
“Se bem entendemos - e não é fácil -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco pode fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que ganhes mais caso suba, apesar de te deixar em maus lençóis se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército protegido pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres. E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um porco com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger quem te vendeu, recorrendo a um esquema legal, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.”
Texto adaptado do escrito por Juan José Millas, enviado por Jaime Brojo Esteves
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