Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

NÁUSEA E COMÉDIA DE ENGANOS

  

Autores que não foi possível identificar

 

Outra reunião a milhares de quilómetros. Havia menos de semana, regressara duma. Mais do mesmo. Cruzou as pernas sob a secretária estilizada. Cansavam-na viagens restritas ao «vou-ali-volto-já» do costume – aeroporto, hotel, aeroporto. Por isso, a mala de cabina não saía do quarto, entre a cómoda e a porta. A de agora, marcada para depois do dia seguinte. Com tecnologia além do suficiente, qualquer vídeoconferência, rosto a rosto nos momentos cruciais das negociações, seriam bastantes. Mas não. Hierarquia superior ao departamento que chefiava insistia em privilegiar contactos directos, supostamente ganhadores nas múltiplas vertentes. De início, surpreendera-a listagem precisa quanto a procedimentos e imagem – minúcia no reflexo social, vestido e casaco ou saia e casaco, saltos, calças nunca. Sedução, competência, disponibilidade, altivez cordial como ditadores itens. Pela experiência, não ignorava a cobiça masculina. Em tempos, ocorrera-lhe ter sido a figura elegante mais decisiva na contratação do que a excelência do curriculum. Assomando o pensamento e a realidade quotidiana, libertava fúria.

 

Bem paga, habituara-se às mordomias nas idas e vindas: classe executiva, automóvel às ordens, hotéis estrelados até perder de vista. De novo, abdicaria da presença no aniversário do Manuel - confiava nos avós e no companheiro/pai para a certeza da felicidade do filho. Ligaria, ouvi-lo-ia à distância, cuidaria dos detalhes impossíveis de cumprir antes da partida. O T5, compra recente num condomínio de luxo, a decoradora, a manutenção do estatuto económico obrigavam-na a obedecer às imposições da empresa. Também o prestígio, a ilusão de, por modo este, a família, o Manuel, em particular, experimentar momentos únicos e despreocupados que os comezinhos não desfrutavam. Desculpas?

 

O voo fora rápido. Feito o check-in no hotel, soube da inusitada hora de espera até subir ao quarto. Nem reclamou do atraso: no tempo disponível, quis saber do Manuel. Conversar sem telemóvel. Enviar-lhe o vídeo retrospetivo dos catorze anos mediados desde o nascimento. Surpresa que a ocupara antes da viagem/trabalho. No lobby do hotel, acrescia detalhes. Olhar insistente interpôs-se. Sabia de cor a rábula. Irada, manteve a postura. Irónica, cumpriu o «abc» da resposta ao atrevimento masculino. Descruzou as pernas para outro cruzar aliciante. Num ápice, cartão magnético de quarto alheio ao lado do computador. Simples: ele estava ‘a pedi-las’. Aguardou. De soslaio, viu a figura desaparecer em passo gingado. Terminados os afazeres, desligou a máquina. Ergueu-se. Depositou a chave/oferta/assédio na mão junto ao homem que no bar matava espera ou náusea ou nostalgia. Pelo olhar de revés, persuadiu-o. Detetou perplexidade. Ergueu-se. Fora da vista, divertiu-a agitar o «abre-te Sésamo» da gruta que nem o arrogante nem o entediado possuiriam.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:42
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