Peregrine Heathcote
"Na antevéspera do Ano Novo Judaico, Boris Sylberstein, patriarca judeu e a mulher, Sara, moradores num kibutz perto de Telavive, visitam um dos seus filhos na capital de Israel:
_ Jacobzinho, odeio ter que te estragar o dia, mas o Pai precisa de te dizer que a Mãe e eu nos vamos separar depois destes 45 anos!
_ O Pai enlouqueceu! O que é que está a dizer? ─ grita Jacob.
_ Já não conseguimos sequer olhar um para o outro. Vamos separar-nos e acabou-se! Liga à tua irmã Raquel a contar.
Apavorado, o rapaz liga para a irmã, que vive em Viena e conta-lhe a terrível notícia. Raquel fica em estado de choque, ao telefone:
_ Os nossos pais não podem separar-se de maneira nenhuma! Chama já o Pai ao telefone!
O ancião atende e a filha balbucia emotivamente:
_ Não façam nada até nós chegarmos aí amanhã, ouviu? Vou telefonar também ao Moisés para São Paulo, ao Salomão para Buenos Aires e à Ester para Nova Iorque e amanhã à noite estaremos aí todos. Ouviu bem Pai?
Desliga, sem esperar pela resposta do Pai. O velho pousa o auscultador no descanso, vira-se para a mulher e, sem que Jacob ouça, diz-lhe em voz baixa:
_ Pronto, Sara, vêm todos para a Ano Novo. Só que, desta vez, não temos de pagar as passagens!…"
CAFÉ DA MANHÃ
Sean Connery - Shahin Gholizadeh
Sean Connery. Vintage sugerindo prova a preceito. Não um vinho rafeiro que satisfaça almôndegas. Nem um tinto alentejano, reserva de honesta adega capaz de encher o palato e fazer valer uma sóbria entrada de salpicão e lâminas de queijo de Serpa. Que me desculpe o produto nacional, mas o Bond mais convincente de sempre pede um Louis Cristal Roederer de 88, ostras e cenário - degustação num final de tarde perfumado com alfazema e sombreado pelas tílias do centro de Saint Tropez (ali, os paparazzi não incomodam as anónimas gentes - fazem no porto a romaria).
James Bond, saído da pena do Ian Lancaster, pedia excelência na sedução e sagacidade na atitude. Sean Connery ofuscou o pedido: reunia corpo atlético bem servido de altura, olhar coruscante, sorriso raro e nunca escancarado, a pitada de distância que é terramoto na segurança feminina. Elas caíam-lhe nos braços, e ele, consumidor consciencioso, deixava-lhes no regaço a ilusão do homem perfeito, sexo perfeito, fuga perfeita. Por esta ordem. Certeza: maior que a cedência e beleza delas era a sabedoria dele. Quem resistiria? Não eu, Dio mio!...
As Bond Girls oscilavam entre extremos duma corda mantida vibrante pelo enredo. Perversas e funestas, delicodoces e boazinhas até doer. Manipuladas sempre, quer pelos agentes do mal, quer pelo Bond, James Bond, zeloso espião ao serviço do ocidente. Manias e vícios: beber - vodka martini shaked not stirred - e arruinar a banca de baccara dos casinos.
O Bond via Connery deve ter feito mais pela divulgação do gin que todos os vendedores. Esta é a receita da bebida deixada pelo Ian Fleming no primeiro livro, Casino Royale: “A dry martini," he said. "One. In a deep champagne goblet." "Oui, monsieur." "Just a moment. Three measures of Gordon's, one of vodka, half a measure of Kina Lillet. Shake it very well until it's ice-cold, then add a large thin slice of lemon-peel. Got it?"
CAFÉ DA MANHÃ
René Magritte
Homem que me perdoe, mas sedução é fundamental.
Precisa de carácter e verdade transbordantes como vulcão.
Que o olhar derrame lava e urgência.
Misturar nos gestos tango e valsa lenta.
Ter sorriso de que apeteça descobrir os mistérios, e rir com eles.
Possuir mais que órgãos e pele.
Que ao falar lembre poema de Larkin,
água límpida brotando do espírito,
fonte oculta de que apetece beber.
Espírito com olhos e nádegas.
E mãos. Nunca húmidas.
Serenas e ousando um regaço de mulher.
O olhar tem de ser corajoso e denunciar pitada de luxúria.
Puxar pontas da alma e passear no corpo da mulher.
Com vagar.
Postura ereta, jamais vergada ao peso da vida.
Queixo direito ascendendo de pescoço sólido, capaz de afrontar borrascas.
Costas largas sustendo manto invisível que envolva e inebrie a mulher.
Sedução é simplicidade.
Tem um quê de fugidia.
Enigmática.
É ave sem gaiola.
Quer largueza de espaço perfumado com hortelã e poejos.
Cheiro selvagem da terra vivo no corpo da mulher.
Aberto ao desejo.
Sujeito à lua e marés.
Arribando à praia e recuado, depois, ao mar.
Eterno e efémero.
Homem precisa ser revolto e fundear carícias,
suave ao lamber a pele.
Tem de ser barco, vela enfunada, âncora.
Embriagante como medronho.
Remar em vai-e-vem voluptuoso.
Sedução não vem nos manuais.
Não se alimenta de fantasias de catálogo.
Sedutor cria, não recicla o visto e feito.
Sedutor não é quem quer - não se aprende dom que a nascença esqueceu.
Pululam sedutores de pacotilha,
imitações, cópias de pérolas.
Fancarias para noites de verão,
desbotadas ao raiar da aurora.
CAFÉ DA MANHÃ
Luis Castellanos
Chegaram dias cálidos e o amor rodopia «sem rei nem roque». A culpa é da anunciada primavera, dizem, conquanto o apogeu das euforias amorosas arribe lá mais para o verão. A culpa será então do Sol, da praia, do mar, dos corpos desnudos e das noites esticadas até ao amanhecer. Mas o denominador comum entre os arroubos primaveris e as tropelias estivais é a luz derramada sem a timidez dos outros ciclos.
Não fora a teima científica de tudo fazer hipótese a carecer de prova, e nem levaria mais longe esta arenga. A luz é o que é - feixe de fotões isentos de massa e prenhes de energia eletromagnética. Deslocam-se á velocidade que o respeitável Einstein declarou como limite, e são responsáveis, entre outras «minhoquices», pelo efeito fotoelétrico, fenómeno de muito arranjo, mais não seja pelas miraculosas portas que abrem ainda mal nos adivinham. Descrição pouco romântica e sem nada a ver com beijos e frissons eróticos.
Que a luz nos põe bem-dispostos e dá aos latinos genica extrovertida que surripia aos nórdicos, sabemos. Distribui energia positiva, é tónico para a saúde física e psíquica. Parece provado que dias ensolarados e tépidos expandem a afetividade e fazem de nós anjos batendo asas em voo direto ao paraíso dos múltiplos prazeres. Razão da luz ser olhada como adubo emotivo. Logo, fertilizante da paixão. Logo, réu no tribunal interior em que movem ações punitivas os desiludidos a quem a derradeira maré vaza levou o devaneio estival. O recente grande(?) amor. O estupor que mostrou ser depois (a ênfase dramática dá majestade a finais medíocres).
CAFÉ DA MANHÃ
Jan Bollaert
"És bom demais para mim." Abundam relatos em que este dito pontifica. O olhar perplexo da vítima conserva a estupefação inicial. E já revirou, dissecou, especulou sobre razão e significado de tão absurda classificação na escala da bondade. Entre quem disse e ouviu tudo parecia encaminhar-se para elo romântico, com direito a «amassos» e ternuras e mimos e seduções várias. Até um dia... O tal em que a guilhotina caiu sobre o afeto nascente. E o remate... o mesmo! Bondade a mais, faísca a menos.
Quando eles ou elas dizem frase de aparência tão banal e elogiosa, a descodificação é simples -"és uma excelente pessoa mas como isqueiro falta-te gás!" Ou então "o que tivemos deu o que tinha a dar. Toca a «basar»!" Fica um remoendo e outro voando sem culpa à conta de, até no final, ter sido tão, mas tão bonzinho. Pois se até cuidou de não deixar na sarjeta a autoestima do preterido...
Nos amigos vitimados por tal veredicto, constatei denominador comum: entregam-se com tal denodo aos retoques do amor idealizado, apaparicando o alvo do afeto, que este de duas uma - ou abafa sob tamanha devoção ou se atemoriza pelo retorno a que se sente obrigado.
Sem que fuja um angström da verdade, nunca tal fatídico dito ouvi ou me saiu da boquinha que, longe venha o dia!, engelhará como leque. Sou demasiado frontal para isso. Depois, há aquela mania de não alinhar em caridadezinhas oportunistas. A substância do que penso, se de afetos se trata, terá de ser coerente com o discurso. Poderei polir, mas não emboneco. E se amigo que muito prezo, substitui a verdade pela casca de banana da "bondade mal-empregue" como mandamento do happy end, é lá com ele. Rio, ao vê-lo discorrer sobre a receita. À prática digo não.
CAFÉ DA MANHÃ
“Durante séculos, o papel da mulher incidiu sobretudo na sua função de mãe, esposa e dona de casa. Ao homem estava destinado um trabalho remunerado no exterior do núcleo familiar. Com o incremento da Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX, muitas mulheres passaram a exercer uma atividade laboral, embora auferindo uma remuneração inferior à do homem. Lutando contra essa discriminação, as mulheres encetaram diversas formas de luta na Europa e nos EUA.
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LENDA E REALIDADE
A lenda do Dia Internacional da Mulher como tendo surgido na sequência de uma greve, realizada em 8 de março de 1857, por trabalhadoras de uma fábrica de fiação ou por costureiras de calçado - e que tem sido veiculada por muitos órgãos de informação - não tem qualquer rigor histórico, embora seja uma história de sacrifício e morte que cai bem como mito.
Em 1982, duas investigadoras, Liliane Kandel e Françoise Picq, demonstraram que a famosa greve feminina de 1857, que estaria na origem do 8 de março, pura e simplesmente não aconteceu (1), não vem noticiada nem mencionada em qualquer jornal norte-americano, mas todos os anos milhares de órgãos de comunicação social contam a história como sendo verdadeira («Uma mentira constantemente repetida acaba por se tornar verdade»). Verdade é que em 1909, um grupo de mulheres socialistas norte-americanas se reuniu num ‘party’, numa jornada pela igualdade dos direitos cívicos, que estabeleceu criar um dia especial para a mulher, que nesse ano aconteceu a 28 de Fevereiro. Ficou então acordado comemorar-se este dia no último domingo de Fevereiro de cada ano, o que nem sempre foi cumprido.
A fixação do dia 8 de março apenas ocorreu depois da 3ª Internacional Comunista, com mulheres como Alexandra Kollontai e Clara Zetkin. A data escolhida foi a do dia da manifestação das mulheres de São Petersburgo, que reclamaram pão e o regresso dos soldados. Esta manifestação ocorreu no dia 23 de Fevereiro de 1917, que, no Calendário Gregoriano (o nosso), é o dia 8 de Março. Só a partir daqui, se pode falar em 8 de Março, embora apenas depois da II Guerra Mundial esse dia tenha tomado a dimensão que foi crescendo até à importância que hoje lhe damos. A partir de 1960, essa tradição recomeçou como grande acontecimento internacional, desprovido, pouco e pouco, da sua origem socialista.
(1) Se consultarmos o calendário perpétuo e digitarmos o ano de 1857, poderemos verificar que o 8 de março calhou a um domingo, dia de descanso semanal, pelo que, em princípio, nunca ocorreria uma greve nesse dia. Há quem argumente, no entanto, que, durante o século XIX, a situação da mulher nas fábricas dos Estados Unidos era de tal modo dramática que trabalharia 7 dias por semana. (Pesquisa efetuada por Maria Luísa V. Paiva Boléo) |
CONSAGRAÇÃO DO 8 DE MARÇO COMO O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Desde 1975, em sinal de apreço pela luta então encetada, as Nações Unidas decidiram consagrar o 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Se, nos nossos dias, perante a lei da maioria dos países, não existe qualquer diferença entre um homem e uma mulher, a prática demonstra que ainda persistem muitos preconceitos em relação ao papel da mulher na sociedade. Produto de uma mentalidade ancestral, ao homem ficava mal assumir os trabalhos domésticos, o que implicava para a mulher que exercia uma profissão fora do lar a duplicação do seu trabalho. Foi necessário esperar pelas últimas décadas do século XX para que o homem passasse, aos poucos, a colaborar nas tarefas caseiras.
Mas, se no âmbito familiar se assiste a uma rápida mudança, na sociedade em geral a situação da mulher está ainda sujeita a velhas mentalidades que, embora de forma não declarada, cerceiam a sua plena igualdade. O número de mulheres em lugares diretivos é ainda diminuto, apesar de muitas delas demonstrarem excelentes qualidades para o seu desempenho. Hoje as mulheres estão integradas em todos os ramos profissionais, mesmo naqueles que, ainda há bem pouco tempo, apenas eram atribuídos aos homens, nomeadamente a intervenção em operações militares de alto risco.
Nos últimos anos, o Dia Da Mulher é aproveitado por muitas delas, de todas as idades, para sair de casa e festejar com as amigas, em bares e discotecas, o dia que lhes é dedicado, enquanto os homens ficam em casa a desempenhar as tarefas que, tradicionalmente, lhe são imputadas: arrumar a casa, fazer a comida, tratar dos filhos.
Se a sua mulher, irmã, mãe ou avó ainda é daquelas que, não obstante as suas tarefas laborais no exterior, ainda encontra tempo e paciência para que nada lhe falte, o mínimo que poderá fazer será aproveitar este dia para lhes transmitir o seu apreço. Um ramo de flores, mesmo que virtual, será, certamente, bastante apreciado. Mas não se fique por aqui. Eternize este dia, esquecendo mentalidades preconcebidas, colaborando mais com elas nas tarefas diárias e olhando-as de igual para igual em todas as circunstâncias, quer no interior do seu lar, quer no seu local de trabalho. Quando todos assim procedermos, não haverá mais necessidade de um dia dedicado à mulher.”
CAFÉ DA MANHÃ
1.Beijo é igual a ferro elétrico: liga em cima e esquenta em baixo.
2.Não mando minha sogra ‘pro’ inferno porque tenho dó do diabo.
3.A velocidade que emociona é a mesma que mata.
4.Um falso amigo é um inimigo secreto.
5.Quem ama a rosa suporta os espinhos.
6.Se casamento fosse bom não precisaria de testemunhas.
7.Preguiça é o hábito de descansar antes de estar cansado.
8.Para que um olho não invejasse o outro, Deus colocou o nariz no meio!!!
9.O amor é livre; o sexo é pago.
10.Sogro rico é igual a um porco gordo - só dá lucro quando morre.
11.Cada ovo comido é um pinto perdido.
12.Cana na fazenda dá pinga... pinga na cidade dá cana.
13.Pobre é como cachimbo: só leva fumo!
14.Mulher é como remédio: agita-se antes de usar.
15.A calúnia é como carvão: quando não queima, suja.
16.A mata é virgem porque o vento é fresco.
17.Seja paciente na estrada para não ser paciente no hospital.
18.Se pinga fosse fortificante o brasileiro seria um gigante.
19.Mulher é como abelha: ou dá mel ou ferroada.
20.Quem inventou o trabalho não tinha que fazer!
21.Pobre só fica de barriga cheia quando morre afogado.
22.Mais valem as lagrimas da derrota do que a vergonha de não ter lutado.
23.Mulher deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem vergonha.
24.Aqui jaz a minha sogra: EU DESCANSO EM PAZ!
25.Aqui jaz a minha sogra que viveu enchendo o saco, não tendo mais o que encher, veio encher esse buraco!
26.O sol nasce para todos... a sombra para quem merece.
27.O cigarro adverte: o governo é prejudicial à saúde.
28.Dinheiro de pobre parece sabão... quando pega, escorrega da mão.
29.Chifre é igual dentadura: demora mas acostuma.
30.Mulher é igual a alça de caixão: quando um larga vem outro e põe a mão.
31.Campo de concentração é o melhor regime: não há ninguém gordinho.
32.Nosso amor virou cinzas porque nosso passado foi fogo.
33.Não sou notícia ruim mas ando muito e depressa.
34.Você prefere 2 mulheres ou uma mulher e 1/4?
35.Seja dono de sua boca para não ser escravo de suas palavras!
36.Homem é como basculante: quando velho, não levanta mais.
37.Mulher bonita e dinheiro só vejo na mão dos outros.
38.Mulher é como pizza: só é boa fora de casa!
39.Dizem que dinheiro é coisa do diabo; mas quiser ver o diabo, ande sem dinheiro.
40.Deus cura, o médico manda a conta.
41.Quem anda apressado passa por cima do que precisa.
42.Coceira na mão de pobre é sarna, na mão de rico é dinheiro.
43.Em casa minha mulher é o governo, minha sogra é o ministro da defesa e eu o ministro da despesa.
44.Sou pobre e feliz: uma das duas é mentira.
45.Mulher é como horóscopo: nunca dá certo, mas sempre se dá uma olhadinha.
46.Sou um eu a procura de um tu para sermos nós.
47.O amor é como a guerra: depois de declarado, não há mais paz.
48.Tentei enganar o diabo, ele nem percebeu, fui enganar a mulher, o enganado fui eu.
49.Ladrão em casa de pobre só leva susto.
50.A primeira ilusão do homem começa na chupeta.
CAFÉ DA MANHÃ
“Minha vida era um filme mudo em preto e branco, aí você apareceu e coloriu até o buraco negro onde habitavam meus sentimentos.”
"Pinto os cabelos de preto para os encontros amorosos e de branco para as reuniões de negócios."
“Vou colecionar mais um soneto Outro retrato em branco e preto A maltratar meu coração”
“A sombra do branco é igual à do preto.”
“O estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá.”
“Liberdade não é poder escolher entre preto e branco mas sim abominar este tipo de propostas de escolha.”
Theodore Adorno
“Infância - A vida em tecnicolor. Velhice - A vida em preto-e-branco.”
“Preto e branco é poesia é nostalgia, é atemporal.”
"... mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco."
CAFÉ DA MANHÃ
Maria Picassó
Se o mundo fosse uma sala de aula, a Espanha e a Itália seriam as meninas tagarelas «tasse bem», a França a aluna coquette, a China a marrona sem ajuda cujo sucesso só o sacrifício explica. O Japão dava para «cromo» sentado na primeira fila, a Inglaterra para o snobe de serviço. A Alemanha cumpriria o papel do disciplinado exemplar, mochila pejada de manuais, encostado á porta da sala de aula antes do toque da campainha. O Irão não engana: aluno metido consigo e de olhar arrevesado. Em todas as turmas há o gorducho pateta e rico, os EUA, claro!, os meninos pobrezinhos com direito a merenda à borla e a livros em segunda mão, da África, no caso. O grupo dos rufias dados a fanar o alheio e a fumaças proibidas seria da América Latina, os de Leste já foram os remediados com roupa de marca comprada na candonga.
Não há classe sem alunos mandriões de boné às avessas que gozam os atentos e recebem as más notas mascando chicletes num riso descarado, sem perderem o ar gingão. Não desligam o telemóvel, menos ainda nos testes - iam lá perder a cara zonza da professora que os apanha a receberem por ‘sms’ as respostas às perguntas? Não fazem trabalhos de casa, faltam às aulas para fintas e danças com a bola em que são exímios, curtem com as colegas que desviam para o shopping e partilham as «bejecas». Chegam atrasados às aulas de História e, por isso, repetem erros antigos. Medíocres em Matemática, nunca acertam as contas internas com as externas e das línguas estrangeiras aprendem o mínimo que desenrasque turista e engate miúdas. Uma vergonha de alunos! Porém, no papel de papagaios de boatos e anedotas que ridicularizem os outros não há pai para eles. Estes somos nós.
CAFÉ DA MANHÃ
Alberto Pancorbo
Antes, elas (re)miram-se ao espelho, pela frente, por detrás, de lado. Lá está!, ruminam, sorte malvada. Rios, quais rios?, oceanos de dinheiro gastos em massagens, agulhas de mesoterapia, elétrodos mais as tremuras e as coxas a insistirem na superfície lunar - minha querida, ou acendes velas e apagas, ainda vestidinha, as luzes, ou lá se vai o andor. Entretanto, eles cortam os pêlos do nariz e das orelhas, espremem os pontos negros, no banho esfregam, como condenados, a cabeça e os sovacos, encolhem a barriga até mal respirarem, verificam se são compatíveis os minutos sem inspiração com despir a mil à hora e aterrarem em cima delas que, salvo as sabidonas, tomarão por impetuoso o balanço, tão certo como quatro ser o dobro de dois.
Chegado o momento da verdade dos corpos, pela ânsia de satisfação do espírito que a carne comanda, nem eles nem elas se deterão no que antes fora temor. Depois, ah, sim!, depois, é que são elas. Eles atentam nas curvas, ou na ausência delas, que a roupa escondia. O peito e as pernas, de novo essas traidoras!, sem saltos e rentes ao chão, perdem da altura metade. E, ou são curtas, ou grossas de mais em baixo e falhas em cima; o rabo que os fascinou e parecia harmonioso, tanto desaparece como engrossa. Gostam de agarrar, é certo, mas menos era o bastante.
Se a noite for farta e preguiçar pela madrugada, não será à primeira, mas vem a hora do pijama. Ora, neles, este é momento decisivo. Um clássico de bandas e debrum nas virolas? Desportivo de malha de algodão? T-shirt e calças de treino? Tudo serve, assim condiga o estilo com o indivíduo. Porém, marretada que não merecemos é enfiarem eles dentro das calças a parte de cima do pijama. Está por nascer o amante capaz de aos nossos olhos resistir a prova tamanha. Inquietante case study este: julgarem as gripes semelhantes a melgas ou a pulgas que se infiltram, sorrateiras, pela cintura. Podem crescer literal e metaforicamente, que destas canduras eles não se livram. Adoráveis, pela santa ignorância que nos diverte. Bem-hajam!
CAFÉ DA MANHÃ
Mark Spain
Ao falar de uma cidade que julgo bem conhecer, anteponho pronome possessivo. A relação de posse - a «minha» Coimbra, Roma, Évora ou Nova Iorque - tão somente significa que amei do todo uma parte. O que nos lugares de afeto me prende é o meu modo de os ver: pessoal, subjetivo, por isso intransmissível. De igual modo, ao descrevê-los, perpassa o que deles sinto e pouco do que são.
A «minha» Londres começa para as bandas de Islington ao descer meia dúzia de degraus e apanhar o autocarro. De King’s Cross em diante, prefiro caminhada até Covent Garden que, se as horas bem tiver contado, encontro semifechado pelas nove e pouco da manhã. Por ali pauso na espera da azáfama renascida, olhando a chegada das caixeiras, as portas uma a uma abertas para infinitas saídas e entradas, os expositores que os ambulantes desembrulham e recheiam de quinquilharia ordenada. Um expresso depois, rumo a direito até à sala da National que o apetite escolha - o enleio na loja da galeria adio. O meio do dia encontra-me no cimo de Hyde Park ou descendo a Kensington para farta paragem em Knightsbridge. Petisco no Harrods, afastada a turba do almoço, e deixo Chelsea para a tarde. Aos domingos, preciso da paz de Notting Hill para o pequeno-almoço, de percorrer os cais-sul do Tamisa, deambular na Tate Modern que remato com as lambidelas do vento na travessia da Millenium Bridge.
Do «meu» Porto mais lembro o sol do que a chuva ou a morrinhada. Gosto, na Foz, do pequeno hotel de charme próximo da rotina da Agustina Bessa Luís e do bulício das lojas e das esplanadas soalheiras abrigadas por corta-ventos. E do Bule para almoçar. Nos dias de utilidade reconhecida pelo trabalho das gentes, está deserto. As madeiras sólidas, os angulados recantos para espera entretida com diálogo ou um copo, a sala sóbria, o avançado que estende além do jardim o olhar de quem come, os idos da água correndo pela parede de vidro são detalhes que degusto enquanto o palato agradece. A generosidade do pato lascado à mistura com o arroz que o refogado bronzeou, mais o serviço amavelmente eficaz e o gosto fiel da refeição nortenha, seduz-me. Na despedida bem-disposta pelo equilíbrio perfeito entre a qualidade e o emagrecimento da carteira, é renovado convite o sorriso iluminado pelo azul da chefe de sala - um metro e oitenta delgado encimado por cabelo louro e rosto lindo, mais provável numa passerelle do que em lugar de comer lembrando os hotéis turismo.
CAFÉ DA MANHÃ
Construída por António Augusto Carvalho Monteiro, em conjunto com o arquiteto italiano Luigi Manini, «conseguiram criar um lugar de magia e mistério divino, com uma combinação de estilos, incluindo românico, gótico, renascentista e manuelino».
Num artigo publicado no portal BoredPanda, o fotógrafo Taylor Moore acrescenta: «com cavernas subterrâneas, lagos, torres e jardins intermináveis este lugar é incrível para fotografar tanto de dia como durante a noite».
CAFÉ DA MANHÃ
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