Sábado, 8 de Abril de 2006

GENÉRICOS


Ossi Hiekkala

O Evangelho segundo Judas. Apócrifo como convém. Misterioso. De origem sinuosa, quiçá real. Caminhar sobre as águas e a travessia do Mar Vermelho. O sobrenatural recheando às mãos cheias o Antigo e o Novo Testamento. Sendo, então, objectivo dos crentes divulgar o Cristianismo, a estratégia dos apóstolos consistia em legar registos maravilhosos. O tempo a isso era propício – o miraculoso atraía clientes como o milho atrai os pombos. Sinal do nosso tempo, é haver um maduro, cientista no caso e com pré milionário, que não se lhe dá fazer triste figura a explicar o jamais acontecido. Oportuna divulgação à conta da National Geographic. Uns finórios é o que são!

Interdição de fumar a menores de dezoito anos e limitações apertadas aos fumadores em locais de restauração e hotelaria. Bem visto!, embora a decisão mais asseada fosse a de proibir o fumo aos menores de oitenta e cinco. A ideia não é diminuir a percentagem de AVCs e doenças pulmonares obstrutivas crónicas? Ora bem...

Futebol. A descrição pungente do Lobo Antunes. Para ele o futebol é paixão, família, rede social de inserção. Dizia: “longe vão os tempos em que um jogador benfiquista o era para a vida. Usava na lapela do casaco o distintivo da águia, mais sagrada que o «fumo» usado no braço se morria alguém de família. Eu, que de futebol nada sei salvo ter afeição pelo Sporting, curtição pelo Benfica, nostalgia da Académica e respeito pelo Futebol Clube do Porto honrando assim o meu pai, dou por mim angustiada quando jogam os dois primeiros; o último é mais na base do “que se lixe!”

Na mesma semana, obrigar o miocárdio a esmifrar contenção perante um Ronaldinho arrancando à dentada pedaço da águia e intervalar somente um par de dias até um Sporting-Porto, é atentado maior à boa-forma e lucidez do que explicar o diálogo de Eva com a serpente p’rá National Geographic. É evidente serem chuchados num serão três maços entre um jogo, uma parábola e saudável fornicação.
publicado por Maria Brojo às 10:42
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
1 comentário:
De Arrebenta a 8 de Abril de 2006
A Rainha da Sucata


Andam por aí umas vozes em sobressalto com o que se escreve na Net, e, à cabeça, com a crescente influência das temáticas, abordadas nos “blogues”, sobre a Opinião Pública Nacional. Cumpre-me aqui dizer que sou novo nos “blogues”, e suficientemente antigo, na Opinião Pública. E como me estou, à cabeça, aparentemente – depois, verão que não... – zenitalmente borrifando para os “blogues”, vou, pois, começar pela Opinião Pública.

Ora, em qualquer país pretendido civilizado, a Opinião Pública não é mais do que um misto de emoção e raciocínio difuso, que leva a que as sociedades exerçam, em conjunto, as suas auto-análises, os seus direitos espontâneos de aprovação e desagrado, e uma necessária catarse colectiva, fruto dos sabores e dissabores do Rumo da História.
Os períodos de Opressão e de Distensão medem-se, pois, pelo vigor e maturidade que essa Opinião Pública manifestar.
Na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves, criatura que nunca frequentei, nem sequer sabia que escrevia, mas que, naquele panorama do Ridículo Nacional, apenas me fazia, de quando em vez, sorrir, entre as suas apalhaçadas oscilações entre o negro azeviche e o louro caniche, dizia eu, centra-se, num dado momento da sua despedida, sobre a perniciosa influência dos blogues na tradicional “Imprensa Impressa”: de acordo com ela, “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, e (as vírgulas atrás são todas minhas) acabou por se tornar num magistério da opinião (d)os jornais”, os quais nunca foram sacos de gatos, sempre souberam recolher o óptimo, e nunca constituíram um prolongamento do magistério dos Interesses Ocultos Predominantes.

É óbvio que em todos os jornais, como em todos os "blogues", como em todos os programas de televisão de carácter rasca, -- terríveis eixos do mal --, “existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, (as vírgulas continuam a ser minhas), ou um mero espírito ocioso e rancoroso”, que pode ser vário, como os nomes de Satã.
“Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”, as quais deveriam continuar a ser privadas, porque o exercício da cobrição, que tantas vezes levou a que um mau texto aparecesse nas parangonas da Crítica, fruto de uma noite mais ou menos bem passada, ou de uma jantarada em lugar eminente, poderia, e deveria, pelos mais elementares deveres do Pudor, nunca ultrapassar a atmosférica fronteira do Secreto e do Invisível. Para mais, parece que, nos blogues, escancarada janela rasgada sobre o Tudo, já não existe aquela claustrofóbica sensação das escassas três ou quatro janelinhas, onde a iluminação da Crítica Impressa revelava ao profano o pouco que se fazia, e, logo, podia aspirar a existir. Parece que nos blogues, dizia eu, se fala agora abertamente de tudo e de todos, e não apenas dos amigos, dos que nos assalariaram o texto, ou dos que nos pagaram para sermos gerentes da sua irremediável Insignificância.

Compreende-se a angústia da Clarinha: com a ascensão dos “blogues” e o declínio dos jornais, anuncia-se também o fim do monopólio das palas postas nos olhos dos burros, e daqueles que tinham o exclusivo poder de as pôr.
Clara Ferreira Alves manifesta-se inquieta pelo seu Presente, e teme pelo seu Futuro. Mais acrescento eu que o que está em jogo é, sobretudo, o seu PASSADO e o de todos os que se lhe assemelham, porque a Cabala, que, durante décadas, tão habilmente geriram, se está agora a desmantelar por todos os lados.

Nos “blogues”, nada mais existe do que quem diariamente fale de tudo e todos, sem defender quaisquer sistemas que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado, e, sobretudo, quem o faça GRATUITAMENTE, ou seja, por mero Dever Cívico, por vontade de intervir, por caturrice, ou tão-só pela amistosa gratidão de poder Partilhar.

É verdade que com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada, e já estar a vislumbrar-se o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita. Talvez seja isso a Comunicação Global. Em breve, também aí se fará a separação do Trigo do Joio, e passará a vencer quem melhor escrever e mais for lido, dispensando-se as tradicionais encomendas das almas.

Penso, publico, sou lido, e logo existo. Tudo o resto é vão.

Ah, e isto não é um texto para resposta, sobretudo qualquer tipo de resposta, como dizia o Vasco Pulido Valente, que metesse “na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo.

Muito obrigado.”

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