Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

TEORIA DO BISCATE


John Pitre

Transcrevo um texto exemplar escrito pelo James Stuart. Sobressai a diferença no entendimento masculino e feminino do mundo dos afectos. Mais não comento – a metaleitura a cada um pertence.

“Joana e João casaram-se há alguns anos.
Joana tem um amante, João tem conhecido diversas "amigas".
Joana partilhou o segredo da sua relação extra-conjugal com Julieta, sua irmã mais velha e melhor amiga.
João nunca revelou a quem quer que seja os seus "casos", nem sente necessidade disso.
A relação de Joana com o seu amante é de longa data, confunde e perturba os seus sentimentos, leva o assunto a sério.
As ligações de João com as sua "amigas" são passageiras e indiferentes, "biscates" que desde sempre teve e que não lhes dá muita importância.
Quando a Joana se encontra com o seu amante sempre avisa Julieta disso, para que se comprometa com eventual cobertura para se justificar ao marido da ausência.
Quando o João visita alguma das suas "amigas" é sempre casualidade de noitadas com os colegas, após jantares de confraternização, deslocações profissionais, coisa incerta.
Certo dia Joana não estava em casa quando João chega. Este telefona a Julieta para indagar do paradeiro de Joana.
Julieta confirma terem estado juntas toda a tarde a fazer compras no centro comercial com o seguinte detalhe: "ela deve estar quase a chegar, e até te comprou uma prenda, mas não lhe digas que eu to disse, pois é surpresa".
Joana sempre transportava consigo um saco com uma prenda preparada para a eventualidade de João chegar a casa antes dela.
Quando esta abre a porta de casa, dá conta do ruído que vem da sala, é o Benfica-Porto no seu início, ou seja, ainda empatado a zero. O arrepio que sentiu, substituído por um nervoso só miudinho, depressa se extinguiu com a saudação de João:
"Olá querida, já sei que foste às compras com a Julieta, ela disse-me"
Joana estende-lhe um saco com a prenda, uma gravata nova, pelo que João sem sequer primeiro descobrir o embrulho abraça-a ternamente enquanto o Benfica sofre o primeiro golo.
João, descontente com o jogo mas feliz da mulher, prepara ele próprio um jantar romântico que terminou num serão de sexo apaixonado até adormecerem, abraçados, ali mesmo no sofá da sala.
Desde esse dia que Joana sofria com remorsos, um sentimento de culpa que a impedia de sorrir, falta de ânimo, desesperada e desiludida consigo própria.

Encheu-se de coragem, isto é, determinação, chegou o tal dia em que decidiu contar tudo ao marido, após terminado o seu "amantizado" por razões também diversas que se confundem com saturação e acaso, preparou o discurso e estudou a confissão sujeita ao perdão implorado, dignificado pela verdade do arrependimento.

Esperava em casa enquanto o relógio já marcava umas onze horas da noite e João nada de aparecer. O seu telemóvel estava desligado, pelo que Joana opta por chamar Júlio, seu melhor amigo e colega de secção. Júlio estava de férias no Brasil mas atendeu apesar da diferença horária que o transtornou. Este aconselha-a a telefonar ao José, outro colega, também compincha de noitadas e jogatanas. José atende e informa que está na tasca do costume e que o João estava por ali ou esteve, que o tinha visto ainda há cinco minutos junto do Júlio e do Joaquim. Estando Júlio no Brasil como podia estar na tasca junto do João? Joana, zangada, telefona ao Joaquim e fica a saber que este está em casa e nem sequer saiu por causa de um "campeonato de lerpa" em que o João participa e até está a ganhar, mas que de momento não pode vir ao telefone porque desceu com o Júlio há pouco para comprar mais cervejolas na estação de serviço onde trabalha o Jerónimo e que deve estar num instante de volta, mas o campeonato ainda vai a meio, foi só intervalo para reabastecer.

Joana prime o botão vermelho do telemóvel ainda antes de Joaquim terminar quando roda a chave na porta e aparece o João, com um cheiro inconfundível e brutal a perfume barato, de mulher... e uma história requintada onde o Júlio volta a aparecer, após ambos terem saído tarde do serviço e depois ido não sei onde prestar auxílio à sogra deste que por sinal é distribuidora de águas-de-colónia falsificadas e teve um furo no pneu do carro, mas que depois se perderam no caminho e o telemóvel ficou sem rede.

Desfecho:

Hipótese 1

Joana tratou de ouvir o João enquanto a história lhe parecia cada vez mais inverosímil, até que se despe totalmente à sua frente e o convida para um duche em conjunto. A roupa que João trazia nesse dia desapareceu sem que este a reclamasse e por outro lado a tal gravata nunca saiu do embrulho.

Hipótese 2

Joana não entende porque todos os homens se encobrem uns aos outros como se a uma irmandade pertencessem, desinteressadamente e naturalmente sem sequer urdirem esquemas ou planearem enredos, logo se enrolam em fábulas trapalhonas de simples detecção. João confessa a verdade e pede perdão enquanto Joana não se descose, representa o seu papel de ofendida e trata de aproveitar essa vantagem até ao dia em que é descoberta, tendo como consequência um divórcio litigioso.

Hipótese 3

Após acalorada discussão onde pratos e panelas estrilharam, o comando remoto da televisão saiu projectado pela janela da marquise e telemóveis ficaram definitivamente sem rede, João viu-se obrigado a refazer a sua história mais próxima à verdade, ou seja que tinha saído mais tarde do emprego, sem o Júlio porque este está de férias no Brasil (Joana confirma esse dado, coisa que estranha a João porque não se recorda de lho ter comentado antes), portanto sozinho saiu do escritório e pretendia regressar a casa directamente. Mas entretanto e de repente lembrou-se de que havia um "campeonato de lerpa" combinado na casa do Joaquim para essa noite (Joana franziu o sobrolho). Então realmente passou na tasca para avisar "a malta" que não ia aparecer pois tinha uns assuntos para tratar. A mudança de pneu no carro da sogra do Júlio realmente aconteceu, coisa que demorou não mais do que um quarto de hora (ao retirar o pneu sobressalente da bagageira, entornou acidentalmente umas amostras de perfumes), auxílio que prestou momentos antes de entrar em casa (as mão ainda sujas confirmavam a verdade), na esquina do quarteirão. Joana decide aceitar a história, embora não convencida de todo e sem explicação para o facto de Júlio ter sido incluído desnecessáriamente. Seguidamente confessou ao marido o seu segredo, confirmou o seu arrependimento e João acabou por lhe perdoar (algumas semanas depois) sem que alguma vez tenha revelado os seus "biscates".”

Texto gentilmente cedido pelo autor e publicado no Szerinting.
publicado por Maria Brojo às 08:19
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito

últ. comentários

Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...
De férias , para sempre. Fechou a loja... :-(
Curta as férias querida...Beijos
ABANDONODAVID MOURÃO FERREIRAPor teu livre pensame...
Ainda?Isso aí no Inverno é gelado ;-)

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds