Edward Martinez Investigou os sítios possíveis. Esgueirou a mão nas dobras e por debaixo dos sofás. Acocorada, depois estendida na madeira, rasou com o olhar o chão. Nem um recanto do espaço familiar foi deixado ao acaso. Ergueu no ar almofadas e lençóis. Nada. Intervalou a procura enervante mal dava conta da serenidade em défice, parar e iludir a ânsia era recurso comum. Encheu de água o reservatório, ligou a máquina e encaixou a cápsula anil do Vivalto. Durando o piscar do verde, desviou os pequenos domésticos da bancada de granito. Sacudiu a torradeira, ruminando que a suspeita raiava a insanidade.
Mais cheia a chávena que a conta, recostou-se frente à porta-janela costumada. Aroma trepado, dava por certo o declínio da ansiedade. Como sempre que a inquietude se insinuava, sorriu e deu graças pelo horizonte, pela doçura do entardecer de um dia afogueado. Por ali ficou, plácida, como se o perdido houvera sido encontrado. Faltava, porém, o naquela manhã procurado. A carícias sorrateiras não se havia furtado língua diligente. Raptara um brinco do par agora desirmanado.
Intrigava-a o cóio dos objectos perdidos. Multiplicados pelos milhões que a humanidade comporta, será que coisa perdida significa morte dos inanimados? Assim sendo, e porque os objectos não pecam, onde ficaria o paraíso dos sumidos da vista? Sorvendo em pequenos goles o café, abriu o pesado portão que flores, muitas, engrinaldavam. Celestialmente oleado, deslizou com suavidade. Aventurou passos. Organizados em canteiros que o buxo debruava, no primeiro encontrou peúgas em falta nos pares. No segundo, quedavam papéis em resmas. No último dos canteiros, encontrou pendurados em heras brincos que línguas desirmanaram. Por isso luzia a hera. E lá estava, no paraíso dos perdidos-por-achar o brinco que a língua na loucura da noite raptara.
CAFÉ DA MANHÃ Hoje: A ler: Paula Capaz e o António Costa Santos.
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