Alain Aslan Seria tão difícil assim? Só queria um homem divertido, que não se levasse demasiado a sério, que fosse terno e a inspirasse. Abominava o tipo de homem cujo propósito é entrar nos vestiários dos ginásios e revelar-se em toda a sua glória aos outros homens, e, de seguida, dominar a fêmea.
O António fora a doença de que ainda convalescia. Ela, que nunca fora de esperar sentada a concretização dos sonhos, não tinha, agora, vestígio de ânimo para encetar caminhada. Para quê, perguntava-se, se no final o resumo é desassossego e peúgas alinhadas na gaveta? Joana sabia passado o tempo de Lolita e não lhe apetecia reavê-lo. O rosto de trinta e oito anos perdera algum brilho, embaciado pelo naufrágio de sonhos e ilusões. Ganhara pragmatismo e concluíra que o sexo só a perdia se contaminado com volatilidade amorosa. O sexo arquiva-se, o amor não.
As tardes de domingo sempre lhe haviam sido insuportáveis. Já em criança era assim. Os últimos trabalhos de casa, a farda do colégio à espera no cabide, a sombra parda da segunda-feira oprimindo-a. Por isso a segunda era cinzenta, a terça cor-de-rosa, a quarta azul, a quinta cor-de-laranja, a sexta esverdeada, o sábado castanho e o domingo amarelo. Como o sorriso da tia Rosinha, doce como limão. Hoje, girava no carrocel infernal das memórias do António. Aos domingos à tarde, não havia remedeio. As amigas casadas passeavam os filhos, bicicletas, bolas e resmunguices dos maridos. Afivelado o sorriso da felicidade burguesa. Desencantadas, mas normais. Não uma coitada como a Joana - a menina sabe, aquilo é tempo a mais para ruminar no que não deve; faltam-lhe os filhos e que fazer, percebe?
E percebia. Bem demais. A imagem inquieta que de si devolvia. A cada semana, empalidecido o amarelo dos domingos. Sem querer.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho e Paulo Simões Mendes