Alexandra Raramente falavam pelo meio que a distância impunha: o telemóvel. Anunciava hoje que a queria amanhã. Havendo incompatibilidade de agenda, daqui a duas horas e meia estou aí, dizia. Ela assentia, ou não. E ele chegava duas horas depois. Ligava ao estacionar custou a espera? Serena, ela respondia: Já abri. Após o abraço e antes do beijo, ele pedia como favor exclusivo: calça, por favor. E ela, vestida de transparência mínima violeta encimada por triângulos de renda enlaçados no pescoço, surgia num vou-ali-volto-já acrescentando aos noventa e cinco centímetros de perna os
stilettos prateados. Descalçava-os entre dois goles de Moët et Chandon a loja Gourmet falhara a entrega do Cristal Brut Louis Roederer.
Enquanto a noite de sono deslizava, ele nela procurou a feminina curva da barriga. Na volta concâva onde era suposto encontrá-la, quedou o gesto. Não acordasse a não-amiga dormida, pousou na anca a mão. Mal ele sabia que setenta e duas horas atrás, outro ficara tão perplexo quanto ele. Semelhança que ela calou.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho e Paulo Simões Mendes