Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

A CASA E OS ESPÍRITOS


Kimberly

Há coleccionadores de selos. Numismáticos obsessivos. Criteriosos ajuntadores de louças, móveis, vidros, de jóias, roupas, vinhos e adereços vintage. Entendo: cada objecto enlaça memórias ou fantasias historiadas que ao possuidor encantam. Um selo do Estado Novo representando um traje, cena rural ou figura respeitável, quiçá venerada à época, é documento que transcende a época e o contexto. Seduz pela estória da posse, seja herança de familiar cujo percurso terreno foi particularmente aventureiro ou por razão outra, especial - ter constituído empreitada caprichosa garante cativeiro nos misteriosos ficheiros cerebrais.

Não constando da minha matriz a tendência coleccionadora, restrinjo objectos nos espaços que sei meus. Em Lisboa, é fácil – há muito enfiei num camião móveis, linhos, pratas, rendas, loiças preciosas(?) e cristais. Repousam, bem tratados, no sótão da casa beirã. No apartamento sem vista para o rio, há minimalismo que somente as paredes contrariam. Disputam-nas obras, algumas ocultas, que são parte do ser que transporto. Acrescento-as. Terem chegado por último, em nada as diminui. São estórias novas que decorrem de horizontes a cada passo descobertos. Por isso tão decisivas no meu percurso como as anteriores que olham de soslaio, pressinto, as recém-chegadas. E eu feliz, espreitando-lhes os diálogos mudos. As boas-vindas desconfiadas. O encolher dos esticadores - fossem humanas e o mesmo fariam com os ombros. Mas acabam por se entender. Dormem na minha ausência. Mal chego, retomam a forma e lambem as cores. Somente comigo tagarelam Ouço-lhes os recontos. Escutam os meus.

Na casa da Beira sou mais tolerante com os objectos. Ilumina a caixa de rapé do bisavô, que conheci, a luz do candeeiro sob a qual compunha músicas o avô. Vigiam as refeições retratos em tamanho impressivo da bisavó cujo nome herdei, da trisavó apertada no corpete com folhos, o do marido que espatifou o que pôde e, ainda assim, sorri acima da barba negra, tão dandy como o laço de pintas debruado a cetim. Porque de alguns conheci feitios e manias, de outros sei de cor arrojos e algumas, poucas, vergonhas sussurradas entre as paredes de granito, respeito-lhes os haveres passados de filhos em filhos. E filha sou. É ido o tempo de neta aninhada no colo dos avós. Hoje, preservo e limpo e acarinho as memórias em objectos. Minimalismo, na casa dos espíritos queridos, seria ultraje. Por isso assisto a Vitória na sabonária anual. No fim, resplandecem rostos e coisas. Entram risos novos. A casa e os espíritos riem com eles.

CAFÉ DA MANHÃ


A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão </b>
publicado por Maria Brojo às 08:57
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