Rolf Armstrong No tempo em que as tias solteiras permaneciam virgens até o fim chegar, as crianças não interrompiam conversas de adultos sem permissão. As tias eram mesmo irmãs do pai, da mãe ou dos avós. Amigas da família eram tratadas por Senhoras Donas Fulanas de Tal. Sendo íntimas da casa e solteiras o estado civil comandava as referências sociais , era admitido Isabelinha ou qualquer diminutivo afectuoso.
As tias solteiras estavam, por inerência do estatuto, confinadas às prendas domésticas, mais do que às profissionais, e à vigilância do respeito conforme ao bom nome do clã. Se os rebentos da estirpe pisassem ramo verde, tinham por certa a censura e correspondente admoestação. Nas mãos delicadas e férreas, detinham saberes que abrangiam compotas, remover a ferrugem dos linhos e a feitura de queques de Stº António polvilhados com açúcar branco o amarelo servia para usos menores. No vestir submetiam a moda ao pudor. Esmiuçavam figurinos, iam a Coimbra comprar tecidos ao José Novais, à modista de sempre confiavam as parcimoniosas colecções Primavera-Verão, bem como as outonais. Botões e outros arrebiques eram pensados ao detalhe.
Fosse pela secura prematura dos úteros, ou para esvaziar o saco maternal, amavam, inibindo, as sobrinhas. Às mulheres outras reservavam afecto polvilhado de má-língua doméstica. Silenciavam amores perdidos e ilusões murchas. Apertando a nostalgia, abriam os álbuns de fotografias, detinham-se nalgumas, acabando por indiciar que, afinal, a estada no sanatório havia aliviado mais do que os pulmões. E, pelo brilho do sorriso e nos olhos, a sobrinha, no caso eu, percebia que a doença tratada longe da clausura familiar fora bem-aventurança que abrira lábios e coração.
CAFÉ DA MANHÃ Às vezes o Amor
Esta semana ouvi uma das mais bonitas declarações de amor. Pena que não tenha sido eu o destinatário, mas tudo a seu tempo. (...) António Eça de Queiroz