
É soalheira a tarde. O recorte das latadas é definido pela abóbada azul. As hortenses entrecortam o limite do buxo confinado pela poda de mãos experientes nos dois primeiros meses do ano civil não é este pelo qual costumo reger-me. Selvagens ficaram os abrunheiros que disseminam rebentos encorpados nos canteiros longilíneos.
Olho para a tesoura de podar, herdada do avô, e reconheço precisar de ajuda. O João, zelador do jardim, não merece, no estio, empatar fins de semana a disciplinar o que as regas automáticas e as chuvas proliferaram. Por isso, lhe contrariei a boa vontade e espero o Sr. Mário na segunda. Veio ontem, a meu pedido, interposto pelo João. Podou os arbustos-parede na álea exterior e traseira do jardim. No final, premiu a campainha. Atendi. Que não, que dispensava a paga das horas de trabalho por trazer sem renda a quinta maior. Não possuindo a chave da casa de apoio, onde as ferramentas e uns sofás acoitam sestas, pediu autorização para mudar a fechadura. Que sim, que mudasse e fizesse serventia como bem lhe aprouvesse da pequena construção rodeada de pinheiros alpinos onze que restam dos catorze plantados pelo pai. O meu. Falecido e, no entanto, tão vivo na memória de quem o conheceu. O Sr. Mário entre eles. Homem alto e encorpado, sem vestígios de banhas, mais do que comigo pretendeu fala com a mãe. E falou. Foi recebido na sala reservada aos íntimos. Explicou os cuidados reservados ao Vale Dom Pedro que cuida e do qual arrecada, graciosamente, proventos. Bem-haja, disse a mãe. Acompanhei-o à porta, dei volta à álea esquartejada, agradeci o trabalho feito. Quantas horas despendeu? Qual a paga do já-feito? Que não, que nada esperava ou queria. Não insisti. A partir de segunda quero pagamento justo, rematei. Das duas da tarde em diante, as semanas são para nós. Ao dia, ou no fim será feito o pagamento. Escolha o Sr. Mário qual o modo que prefere. Ficou de dizer. E dirá, como a Leonor que, para a semana, substitui a Vitória na limpeza de escadarias, vidros e parapeitos de granito que a passarada transformou em W.C.
A Srª Ventura fica para a cozinha. Doçuras e pratos de substância é com ela, assim chegue a dezena de pessoas gostosamente esperadas. Porque não faço eu? Por me reservar rituais conhecidos no clã - o cabrito assado no forno, o arroz-doce, o leite-creme queimado que não entrego a ninguém. Porque uma tela aguarda forma e cor, é sensata a noção de limite temporal. Duas semanas restam para concluir a encomenda. Misturarei amor com óleos. A tela húmida tem, em Lisboa, parede à espera. Serão afectuosos os olhos que desculpam a inépcia de quem na montanha se deleita e antevê regresso ao mar.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho e Paulo Simões Mendes
Desde ontem:
O pensionista Sir Mick Jagger completa hoje 65 anos. De acordo com a lei britânica terá direito a uma pensão semanal (...)