Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

AS PONTAS DOS DEDOS QUADRADAS



Tinha as pontas dos dedos quadradas. Na espera pela vez, encostada ao balcão, era impossível despegar delas os olhos. Forma igual à das teclas que dedilhava com lentidão. A cada meia dúzia de dígitos, olhava para o ecrã. Apoiava o rosto na mão e aquietava-se. O casal em atendimento espreitava o monitor na esperança de entender o imbróglio – deviam estar há muito na mesma posição por pendularem entre um pé e o outro. Espreitei também. Nada. Apenas silêncio.

Passado um ror de tempo, a única funcionária e dona das extremidades dos dedos quadradas, agarrou no auscultador e marcou um número. Que faltava um código, que ela não o sabia, só o Sr. Carlos, que ele só entrava às duas, que antes nada podia fazer. Entretanto, a senhora da limpeza, fardada a verde e cinza, espanejava o computador do lado. Sem nada ter limpo de facto, à parte levantar e poisar uns papéis, acenava confirmando a informação. Deu por encerrado o trabalho na área esquerda e aproximou-se da zona reservada à funcionária. Abespinhou-se: que limpasse noutra altura, que com ela por perto não conseguia trabalhar, que passasse o pano no lado do Sr. Carlos. “Já está Dona Umbelina e olhe que assim não pode ser; tenho mais salas para cuidar e à uma começo por aqui!” Perguntou-me as horas ignorando o relógio da parede fronteira. Consegui abafar o pasmo e responder: “uma e dez.” A Dona Umbelina, essa continuava a olhar para o monitor.

Às tantas, diz para o casal: “falta-me um código. Sem ele nada feito. Voltem às duas por favor. Sou nova aqui e o Sr. Carlos é que sabe.” O ar lamentoso da Dona Umbelina impediu o casal de vociferar deselegâncias. Consciente do que me esperava, coloquei a questão. Ouviu-me sem um pestanejo – “até as pálpebras tem paradas”, pensei. Que ia tentar mas não prometia nada, que se fosse preciso um código arrevesado teria de esperar pelo Sr. Carlos. E foi. E não esperei. Condoída pela culpa estampada no rosto de meia-idade da Dona Umbelina, desejei-lhe um resto de boa tarde. Devolveu-me sorriso aliviado.

CAFÉ DA MANHÃ


A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão
publicado por Maria Brojo às 09:03
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

últ. comentários

Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...
De férias , para sempre. Fechou a loja... :-(
Curta as férias querida...Beijos
ABANDONODAVID MOURÃO FERREIRAPor teu livre pensame...
Ainda?Isso aí no Inverno é gelado ;-)

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds