Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

QUANDO A ALIANÇA PASSEIA


Sorayama

Homens casados. Mulheres que não arranham mandamentos afirmam à boca cheia que macho de parceria legitimada pela sociedade ou pela igreja não tem sexo. Em termos práticos significa que deles deram baixa na lista de candidatos a amásios. E que baixa! Homens e mulheres casam que se fartam. Elas, porque o tic-tac biológico a cada ano mais se esganiça ou porque os “sonhos são para cumprir, bolas que também mereço, ou não me chame Mariazinha”, são danadas para o tule, mais o vestido e a lua-de-mel, mais o fel da conta festiva. Eles, porque a pressão social, de início louvaminheira, começa a enviesar o olhar quando já lá cantam uns anitos. É aquela coisa da casa num oito, roupa suja entremeada com pêlos espalhados no chão sem a desculpa de terem um Serra da Estrela, dos lençóis arreganhados do uso e fedendo a uma mistura de nicotina, água de colónia e vinagre balsâmico. Um belo dia, acordam zonzos, olham em redor e ficam um bocado naquela: “Pá, reconhece, não dás conta disto. Atraca-te ou estás fodido!” E casam.

Os ingénuos julgam que o matrimónio lhes confere aura de préstimo e inacessibilidade que os torna mais apetecíveis. Os pragmáticos sabem que a aliança passeia facilmente até à algibeira, logo, o regabofe não cessa. Esquecem que também o mercado deles estreitou. Primeiro: as «amigas» de outros tempos só por desespero vencerão o despeito remanescente das sms não respondidas, do atraso dele para a estreia do Quebra-Nozes e o ar de vómito no primeiro jantar romântico em casa delas, ao deparar com verdes e grelhados numa instalação minimalista. Das sobrantes e liberais há as que não se importam de servir de microondas, as que exigem ilusões sem defeito, e as que mal vêm a santa aliança fogem como diabo da cruz só de pensarem em fins de semana sozinhas, programa só quando o telefone toca e na clássica “a minha vida é um inferno, não tarda separamo-me.”

Se as livres e desimpedidas fogem ou só por acaso caem na conjugação carnal, se as profissionais do ramo não bastam, quem resta então? As que adoram diversificar a ementa, sejam casadas ou equivalentes!

CAFÉ DA MANHÃ

A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca
publicado por Maria Brojo às 10:00
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