Vargas As imperfeições do corpo quebram os tédios da beleza inumana. A exposição inerente à mulher não ajuda a disfarçar mazelas; no masculino, pernas arqueadas, adiposidades várias, pêlos disseminados, rabos de tábua e pés grandes como sapatas de ponte viram clandestinas por via da farda fato-e-gravata. Compõe e ajuda muito.
O estio é delator malvado. Assassina alegremente o que encobre no resto do ano. O Mané que o diga... Há vinte e cinco anos atrás, indo ele, indo ele a caminho de Torremolinos e das nórdicas aves-do-paraíso esparramadas no areal, encontra amigo que há tempo não via por conta de um doutoramento emperrado. O Mané baixo e fofo, o outro esguio e alto. Os dois buscando Dulcineias de ocasião. Sendo que na engenharia do engate o doutorado também era mestre, deduziu que sendo várias as donzelas tentadas, alguma roeria a corda do recato e cairia no laço. Por Rocinante, cabriolet vistoso e Jaguar E-Type. Uns figurões!
Na praia as loiras turistas arrasavam no contraste com as pudicas latinas. A estratégia deles era simples. O garboso aproximava-se dos bandos de perdição e entabulava conversa arranhando finlandês ou flamengo de praia. Para «fechar», possuía arma letal: uma fotografia dele enquanto cavaleiro taurino. Legendava-a, sorrindo melífluo Me bullfighter. Me! E elas caíam no motel mais próximo. Um despacho.
Para o paciente Mané ficavam as sobras. Pernas muito curtas e em arco, desproporcionando o tronco extenso. Tudo resumido a metro e sessenta bem medido. Avançando no areal, sussurrava o amigo: deita-te Mané, deita-te. Vai escolhendo e diz qual queres! Depois, para elas My friend, bullkiller, very good bullkiller. E riam muito, coitadinhas
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Paula Capaz e António Costa Santos