Terry Rodgers O reboliço da casa deixava-a ansiosa, dispersa. Perdia o alinhamento das tarefas por cumprir será que pus na mala do Tiago os calções azuis, na da Ritinha as fitas para o cabelo e na caixa dos medicamentos as gotas para os olhos do Pedro? Desliguei o gás e os aparelhos eléctricos? Estou tonta. Já nem a certeza tenho! Vou verificar; o contador da água desligo no fim. E cirandava descartando urgências.
Olhou o relógio. "Atrasado, para variar; deve ter-se lembrado de ir agora ver o ar dos pneus, verificar o nível do óleo e atestar o depósito; quando chegar e vir a bagagem rabuja. Cava as rugas más dos conflitos ou da ira. Repete que não cabe tudo na bagageira e aposta que das chinelas, calças, bikinis e vestidos não usaremos nem metade; se julgam que vão por um mês desenganem-se! Uma vez instalado, revolverá os pólos, e perguntar se me esqueci «daquele», qual deles?, o branco! Perante os três pólos brancos, não reconherá o «mais beige«, o «aquele», o amuleto capaz de tramar a partida de ténis ao convencido do Matos.
Transpirada, afundou-se no sofá. A correria gritada dos miúdos picaVA o espaço. Sentia-se farta de pensar em tudo. De esperar - por ele, pela partilha de tarefas, pela determinação comum em alimentarem o amor que, um dia, os fizera especiais num mundo agreste. Estava cansada; continuaria cansada em cada um dos quinze dias seguintes que prolongaria até o ano acabar. As ilusões adiadas dividiam-na em duas: uma que se elevava com elas, outra que desejava permanecer. Não era a resignação que a impedia de voar; antes um afecto profundo, embora mais ténue a cada dia.
Levantou-se, ajeitou o cabelo, acalmou os miúdos e abriu a porta num sorriso aéreo que só ela entendia adorava antecipar-lhe a chegada. Não se enganar. Depois, beijá-lo. O hoje era assim. Amanhã? Não queria saber.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Célia Bernardo e António Eça de Queiroz