Autor que não foi possível identificar Lembras aquele final de praia varrido por zangados sopros marítimos que levantavam a areia seca e da húmida faziam pouco? De como as ondas esmorecidas na areia revolteavam? Era a última dezena dos dias de Agosto. Tempo de acabar deambulações e desfrutar o estio restante no lazer urbano. Voltámos à cidade.
Meava a manhã de Domingo ao acordarmos. Sonolentos, referenciávamos o espaço cujas coordenadas esbateramos. A porta ali, armários além, a janela ao fundo mal tapada por cortinas em desalinho. Quando regressamos não chega um suspiro para nos identificarmos com o sítio de sempre. Como se na ausência o silêncio e o pó se apossassem do espaço, moldando-o ao seu bel-prazer. Silêncio enganoso porque feito dos ecos das conversas antigas; dos sons que habitaram a casa e que de modo inaudível para os humanos se ligaram uns aos outros continuando diálogos inacabados que a nossa entrada abrupta interrompeu. A casa, num superlativo embaraço, suportou a invasão usurpadora do aparente vazio que a habitava. Sem que isto um ao outro verbalizássemos, largámos tudo e saímos para a cidade.
As paredes e os vidros e os muros e o betão dos viadutos, as ruas desertas, o alcatrão luzente à beira de mais um grau que o fundisse, refulgiam num riacho de calor espesso. Afluente daqui, outro dali, enchiam, impetuosos, a rua. Tão depressa dávamos as mãos como as largávamos ao darmos como incómodo o equilíbrio térmico entre os nossos corpos amantes. Regressámos à obscuridade caseira. Abandonámos a urbe tórrida e fugimos para outra tão tórrida quanto ela mas possuindo azul líquido no fim de cada rua. La Valleta. Mistura de cidade Europeia na arquitectura e nos costumes das gentes - e do Magreb pela cor amarelada da pedra que o entardecer torna sumptuoso.
Permutados azuis, o mar num tom escuro e o céu turquesa esbatido de anil, abandonámos a penumbra fresca do Phoenicia. No Café Cordina debicámos pastizzi até ouvirmos o nosso, e da noite, riso.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho