Jay Anacleto Perderam-se tons que enriqueciam a paleta das emoções. Continuam as essenciais medo, surpresa, alegria, mágoa, ansiedade, fé, (des)ilusão. Ora, se até as emoções têm moda, são expectáveis reedições como nas malas, sapatos ou vestidos. A emoção de ser vítima(?) de rapto romântico é uma delas.
Raptar a amada é, nos dias que correm, tão espasmódico como fazer da rua para o décimo andar uma serenata. Por ora, entregamo-nos muito bem uns aos outros sem que mais seja pedido do que investimento num café, num jantar e num «copo». Por esta ordem. A cantada, antiga serenata, é preliminar, e não deve pecar por excesso nem por defeito. Duração justa e está feito, não se arquive a demanda por cansaço prematuro.
Nos idos do amor romântico com direito a cantigas de amigo, havia raptos e raptos. Que o diga D. Mécia, mulher de D. Sancho II. O povo português, linguarudo e que do enfeite faz defeito, não viu com agrado o arranjo matrimonial entre a viúva castelhana e o seu real primo. Da conjugalidade não haveria herdeiros, e se eram precisados para acalmia dos tumultos causados pelo mau governo e futura sucessão (ora aqui está uma das muitas vantagens do presente povo está-se marimbando para se quem manda procria ou não). O Papa anulou o casório e deu ordens expressas para o casal dormir separado.
Não conheço retrato de D. Mécia, tão pouco consta dos anais históricos se não tendo feito filhos era prestimosa no acto de bem aviar a receita. Importante foi D. Sancho II dar-se por satisfeito. Tão satisfeito que lhe raptaram a mulher do leito partilhado à revelia da proibição papal. Foi o cabo dos trabalhos! O rei partiu desabrido à cata dela para o castelo de Ourém que pertencia à rainha. Não é que os raptores o correram à pedrada? Perdeu Sua Majestade a mulher e o crédito dos súbditos. De D. Mécia mais não sei. Confio que tenha gozado bem o rapto. Muitas o fariam.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca