Autor que não foi possível identificar Está difícil identificar defeitos e virtudes. Falta lista exaustiva dos aspectos a banir e dos que merecem incentivo. Falta catálogo de bons e maus comportamentos, boas e más pessoas, como apoio fácil para educar as crianças e interagir socialmente.
No passado, havia o rol de pecados classificados e graduados por importância - veniais e capitais. Dos primeiros, ninguém se lembra, os segundos subdividiam-se nos cometidos contra o espírito e contra o corpo. Uns e outros banalizaram-se, e, agora, só os óbvios merecem crítica e penalização social, ainda que sob a alegação de doença ou de hedonismo menos adequado.
A lista dos pecados foi substituída por um código tácito sobre o que é suposto ou não fazer. Alguém que não se escapula aos normativos sociais é um tédio - pecado capital contra o espírito. Vieram as regras de boa educação que nos enformaram, saíram empobrecidas as regras básicas da identificação do defeito e de virtude. Para baralhar, qualidades e defeitos são sócios de longa data e altamente promíscuos.
Indo a factos:
- ser teimoso fornece perseverança para cumprir objectivos;
- saber mentir tanto desliza para a vigarice como para a diplomacia inteligente;
- ser compassivo tanto dá para a tontice como para santidade com direito a beatificação e imagens votivas.
O manto dos diáfanos defeitos e virtudes a todos abriga. Respiramos numa atmosfera de incorrecções menores. Tudo muito leve e sem contra-indicações.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Célia Bernardo e António Eça de Queiroz