Olivia de Berardinis "És bom demais para mim." Abundam relatos em que este dito pontifica. O olhar perplexo da vítima-ouvinte é resposta. Revira, disseca a frase. Especula sobre o significado da absurda classificação na escala da bondade.
Entre quem disse e ouviu tudo se encaminhava para elo romântico, com direito a «amassos» e ternuras e mimos e seduções várias. Até um dia... O tal em que a guilhotina caiu sobre o afecto nascente. E veio o remate - bondade a mais, faísca a menos.
Quando dizem a frase, aparentemente banal e elogiosa, a descodificação é simples -"és uma excelente pessoa mas como isqueiro falta-te gás!" Ou então - "o que tivemos deu o que tinha a dar. Toca a «basar»!" Fica um remoendo e o outro voando sem culpa à conta de, até no final, ter sido tão bonzinho. Pois se até cuidou de não deixar na sarjeta a auto-estima do preterido...
Nos amigos vitimados por tal veredicto, constatei denominador comum: entregam-se com tal denodo aos retoques do amor idealizado, apaparicando o alvo do afecto, que este de duas uma - ou abafa sob tamanha devoção ou se atemoriza pelo retorno a que se sente obrigado.
Sem que fuja um angström da verdade, nunca tal fatídico dito ouvi ou me saiu da boquinha - sou demasiado frontal para isso. Depois, há aquela mania de não alinhar em caridadezinhas. A substância do que penso obriga à coerência com o discurso. Posso polir, mas não emboneco. E se amigo que muito prezo substitui a verdade pela casca de banana da "bondade mal-empregue" como mandamento do happy end, é lá com ele. Rio, ao vê-lo discorrer sobre a receita, conquanto à prática diga não.
CAFÉ DA MANHÃ A ler: Marta Botelho