Autor que não foi possível identificar Não gosto da espanholada. Distingo-os dos espanhóis a quem reconheço qualidades e hábitos culturais que nos faltam. Porque o fado se virou contra mim e durante uma semana tive a companhia de alguma espanholada, relembrei as razões que desde miúda até ao alvorecer da idade maior me tinham afugentado do nosso parceiro ibérico. A espanholada cacareja sem detença, é (in)dignamente pirosa, e no regime tudo incluído enfarda, bebe, refastela-se para, de seguida, recomeçar a sequência. A "portugesada," neste detalhe, é semelhante.
Pois ontem, os hermanos de quem lhes atribui o estatuto não estiveram com meias-medidas: entornaram o leite português, pretextando concorrência desleal com os «leiteiros» donos das vacas fronteiriças. Um descaro! Como se alguma vez lhes tivéssemos pisado a fruta que nos impingem ou deixado apodrecer o pescado nos congeladores dos supermercados. Não o fizemos por sermos os bravos do pelotão europeu, dispostos a sacrificar a economia nacional para que a União dos vinte e muitos tenha significado e consistência.
No Verão que o Outono chegado desalojou, cometi a veleidade de me aventurar pelas terras de Don Quijote. Em vez de passeio, diria tortura pelo calor e pela mania dos «hermanos» satisfazerem o ritual nacionalista da «siesta» que tudo cerra até depois das cinco e meia da tarde. Tive de aguentar a secura até, lentamente, devagar, devagarinho, abrir portas o comércio. Pelas ruas, nem vivalma que por mor dos antepassados me antecipasse botella de água.
Quando o Torrente Ballester publicou Crónicas do Rei Pasmado, de imediato percebi que, como sempre, sabia de que falava.
CAFÉ DA MANHÃ Leonor Barros Manuel S. Fonseca