Domingo, 21 de Junho de 2009

“VÊ SE ME ERRAS, TÁ?”

Matthew Carlton

 

Há mulheres assim _ iluminam, pelo sorriso franco, quem delas se abeira. A Thalita, é uma delas. Vinte e quatro anos. Dezassete no Brasil; os restantes em Portugal. Mãe, fisioterapeuta, desde há nove anos por cá, e um irmão. Aos vinte e seis, num acidente de mota, pendulou, em coma, entre viver e morrer. Venceu a guerra. Amputações, placas metálicas no lugar de ossos e articulações. Reaprendeu a falar. Nunca perdeu a lucidez.

 

A Thalita vive, em Caxias, com o namorado português. Admira-o. Ama-o. Ele, pacato. Ela, fogosa. Linda dentro e fora. No sorriso que não economiza, exibe dentes perfeitos. Alvos. Não se pinta. Não precisa. Nos olhos de amêndoa verde, escorre optimismo e bem estar. Mesmo quando as dúvidas a tomam de assalto. Mesmo quando a tragédia familiar constrói nela coragem. Perante ela, mulher que noutra colhe alegria e verdade, é impossível a frieza.

 

Vejo-a, melhor dito, visito-a, semanalmente. Presta-me, obsequia-me, serviços básicos - mãos, pés e sobrancelhas conforme o prioritário. Enquanto trabalha, adivinha-me e fala de si – o elo cúmplice permite muito. Ouço-a. Não maça. Não se impõe. Sabe do mútuo gostar. Permite-lhe análise duma mulher mais velha e não da mãe.

 

Na semana passada, mencionou um bar onde ia sem parceiro. O namorado saiu com os amigos e dispensou-a. Ela aproveitou para um serão entre mulheres. Ouvir música, dançar. Beber. Não foi a primeira vez. Semelhante a razão. A repetência do lugar, a beleza, o saber ser e estar em alegria aproximou-a do gerente. Inquieta, recolheu à casa vazia. Pressentiu o inaugurar duma atracção. Adormeceu sozinha.

 

Proporcionado o momento, contou ao namorado. Que o queria. Que sentira a falta dele. Que o sexo semanal era rotina gasta. Que experimentara uma Thalita que desconhecia e da qual lhe queria falar.

Ouviu-a.

_ Quero preservar o amor que sinto por ti. Vou partilhar apartamento com uma amiga. Namora-me. Faz-me voltar.

 

Ao ver na dona dos pés um trejeito de cansaço após um telefonema recebido, disse:

_ Na próxima, vê se me erras, «tá»? Dizemos isto no Brasil. Foi o que sentiu?

_ Tal qual!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 00:32
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10 comentários:
De António a 21 de Junho de 2009
difícil !

escolhas, destinos, vidas, afectos em balanço e em expectativa, cumpridos e por cumprir ... !!

há um ponto em que a determinação (quando se a tem) decide tudo... tal como a moeda ao ar...!!!

como saber ?

sorte, Amor, destino - mais o rolo compressor e uma réstia de dúvida: será mesmo melhor assim?? e para quem???

allez ;->>>
De Teresa C. a 22 de Junho de 2009
António - surpreendeu-me na Thalita o pensar maduro, coerente e corajoso. Jovem mulher que da infelicidade faz sorriso e vontade de ir além. Sem amarguras ou lamentos.
De Sobral da Costa a 21 de Junho de 2009
Suspenso ...
De Teresa C. a 22 de Junho de 2009
Sobral da Costa - obrigada pela visita.
De Sobral da Costa a 23 de Junho de 2009
De nada Tereza. O seu blog é muito bom, eu voltarei mais vezes.

De Caio Reinaldo a 21 de Junho de 2009
Bom demais seu blog, visita o meu!
http://cangablog1.blogspot.com/2008/06/blog-post_6521.html
De Teresa C. a 22 de Junho de 2009
Caio Reinaldo - obrigada pelas suas palavras, mas demais mesmo é o seu. Original na forma e nos conteúdos. Parabéns.
De C a 21 de Junho de 2009
Parabéns!
De Teresa C. a 22 de Junho de 2009
C - obrigada pela visita e pelo comentário.
De zeka a 24 de Junho de 2009
Balanço:

Thalita tem 24 anos.
(No Brasil 17 mais 7 em Portugal)
Mãe há 9 anos por cá.
Irmão.
Aos 26, acidente.
.....
Algo deu errado?

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