Domingo, 5 de Julho de 2009

APRESENTO-ME!

Autor que não foi possível identificar

 

Nota prévia – transcrição do e-mail/testemunho de uma leitora que permitiu a divulgação por mim solicitada. É de ler e ir além.


“Apresento-me!
Na hora de conhecer o "habitat" a que estava destinada, dei luta á parteira e "berrei" dias seguidos, quem sabe, para contestar o que já me estava destinado.
Foi "marca" que deixei desde a primeira hora - porque ainda hoje, quase com meio século na bagagem, sinto a revolta dos porquês da vida, questiono tudo e todos, pergunto-me para onde vou com tudo isto, quem sou e quem serei.

 

Consta que só o embalar e o rezar baixinho de uma freira me acalmava, enquanto me tinha nos braços... mas desses momentos de nada me lembro!
Primeiro sinal de que com afecto e meiguice se consegue algo de mim!
Infância gira apesar de um Pai exigente, uma Mãe submissa, fui rebelde e muito traquina e "abri o caminho" para mais 3 irmãos. O sentido de humor e um sorriso ainda hoje evidente, também ajudaram!

 

Enfrentei e tentei quebrar as regras impostas de um Pai inflexível, e depois parti para longe, porque viver em casa, era um sufoco. A vida era nessa altura para mim, muito mais do que confrontos entre duas personalidades muito fortes a partilharem um espaço confinado, e onde através de olhares, sentir que do lado da Mãe pouco ou nada podia esperar.

Mochila às costas fui parar a terras de sua Majestade!
Aprendi cedo a construir os "alicerces" de uma vida de adulta. Trabalhei entre servir a mesas, ser modelo na Escola de Belas Artes de Londres, estafeta, secretária, tradutora, empregada de limpezas...perco a conta dos lugares que preenchi. 
 

Casei e tive filhos.

Lutei por termos uma vida estável, o necessário para manter o equilíbrio, sem que no entanto esta não tivesse constantemente passado "rasteiras" e obrigado a "andar com a casa às costas" vezes sem conta. Percorri sempre esta "gincana da vida para peritos" como uma concorrente assídua.
Contornar a torre do desemprego, passar pela curva apertada de não ter um tecto, saltar muros de noites e dias aflitivos, decifrar códigos da angústia e procurar os "deuses" para perceber o porquê.

 

Vivi com o suficiente e sobrevivi sem nada.
Parceiro quase sempre ausente, porque havia que fazer pela vida e necessidades, fomos crescendo por caminhos diferentes. Enquanto um trabalhava para o sustento, o outro mantinha-se de guarda aos "projectos" de vida, agarrando esta e outra oportunidade como ajuda complementar.

 

Deixei para trás o meu sonho em prole de tudo isto e vesti a "farda" de uma guarda de segurança com turnos permanentes, de um futuro sem sustos para as filhas que amo acima de tudo e todos.
 

Irrequieta, imaginativa, sempre consegui sair de vários "fundos" do túnel da vida e desvendar a luz uma, duas...dezenas de vezes.
Ajudas foram sempre poucas, e dos "estados governantes" pouco ou nada recebi.

Porque me é impossível manter os sentimentos quando a ausência é uma constante, a separação das emoções e o divórcio dos afectos era inevitável.
Continuamos amigos e "unidos" por um factor comum: as filhas e o compromisso de mantermos a responsabilidade de as "lançar" para uma vida com as ferramentas necessárias para o projecto de cada uma.
 
Apesar de tudo isto senti-me sempre "jovem" - nunca o peso do tempo da minha existência, nem me deixei influenciar por os ditos padrões da minha faixa etária.
Regressei às raízes para voltar a reconstruir as ambições que tinha.
Mantive a plataforma para que ambas as filhas pudessem ter o que nunca tive. Assegurei-me que podiam andar pelos seus próprios pés, sem andarilho ou guarda-costas.

Esperei pacientemente pelo meu momento. Tirar um curso, poder financeiramente ter segurança e conforto nesta vida que não foi fácil.


Conheci também alguém que me voltou a despertar a paixão, abanou o meu intimo e me fez sorrir para o conforto do prazer. Amo-o perdidamente sem nada exigir ou pedir - vivo este capitulo um dia de cada vez e dou tudo o que sou e tenho sem ter expectativas de nada.
Recarreguei a vontade e a esperança - arregacei as mangas e fui à luta para um dia me sentir mais realizada.

 

E eis que aparece a "crise", essa onda de circunstâncias e mares poluídos, que nos atira contra as marés da incerteza e angústia e que sem dó nem piedade nos retira tudo, menos talvez a esperança, e destrói projectos, sonhos, mais uma vez. Ambos desempregados, sem recursos nem casa própria, num labirinto onde a "idade" arruma-nos para o lado e as "megeras poupanças" acabaram.

 

Voltei ao nada, ao vazio, sem ter respostas nem forças. Olho-as nos olhos e sinto a injustiça de não ser capaz. De ter falhado mais uma vez, do desgaste, da pena, da incógnita tormenta do que será o amanhã...deste cansaço sem poder voltar atrás e retirar algum sofrimento da vida para conseguir vencer o momento.
 
Li o seu blog, e senti vontade de desabafar...
Parabéns e prometo voltar a visitar o seu blog quando a necessidade do conforto da palavra escrita, me der essa oportunidade!”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 11:18
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
6 comentários:
De António a 5 de Julho de 2009
quem escreve assim revela a lucidez necessária a superar dificuldades, mesmo se tormentosas!

e bem merece superar quanto a vida se encarregou de tramar e enredar, uma vez que dispõe da principal arma que nos alenta a vida: esperança !!

mas uma esperança prática, não exclusivamente idealista, e sobretudo recheada de valores, sendo primeiros os respeitantes à situação dos entes queridos mas a própria condição pessoal, afectiva e profissional igualmente entre os primeiros, se faz favor, ou melhor, sem favor algum!!!

continuação de coragem, de ternura e de entreajuda e boa sorte para o presente e para todo o futuro, junto a quem mais ama

;->>>
De zeka a 6 de Julho de 2009
Olá, Viva!
Corajosa apresentação. Mãe Coragem.
Desabafar é procurar forças renovadas e vencer a tentação do desânimo. É gritar esperança.
Está entre 'acompanhantes' que não são indiferentes aos anseios testemunhados. Foi ouvida em onda solidária: vá dando provas de que continua connosco!

http://sol.sapo.pt/blogs/julieta/archive/2007/02/24/Quem-espera_2C00_-sempre-alcan_E700_a_3F00_.aspx
De Teresa C. a 6 de Julho de 2009
António e Zeka - é bom sentir o vosso apreço perante este testemunho. Impossível o «deixa passar» sem que a sensibilidade se ressinta.
De jotaeme a 6 de Julho de 2009
Esta transcrição que fazes no teu espaço, é uma autêntica lição de vida, que acontece com mais frequência do que talvez pensamos! Altos o baixos de seres humanos que querem viver mas com níveis de dignidade e verdade, mas que obstaculos constantes fazem des(esperar) por melhores dias...
Contraste flagrante com o modo como por exemplo Berlusconni vive a sua vida com critérios próprios em que esses valores não contam...para um 1º ministro...mafioso!
Jorge madureira
De Teresa C. a 8 de Julho de 2009
Joataeme - mas aqui temos o relato de uma mulher a sério. De Pessoa a sério. Por isso me comoveu o que li e decidi trazê-lo aqui.
De nês:) a 14 de Julho de 2009
Excelente!
Metade da força desta senhora anda meio mundo a precisar! Coragem até ao último suspiro.

Obrigada por partilhar estes pequenos tesourinhos que por vezes cruzam as nossas caixas de e-mail.

Um bem-haja *

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