Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

DONA JOALINA (RÁDIO PROVÍNCIA IV)

Autor que não foi possível identificar

 

Caramulo em fundo. Longe. Muito longe se medidos os quilómetros. Perto, se contados os 90 minutos para lá chegar. No terraço, repartido entre cenário de montanha maior e horizonte vasto de que o Abel Manta compôs aguarela mestra, o calor de estio não chega ao amanhecer. Somente passado o meio do dia, se faz impor. Antes, é a frescura abobada por azul limpo.

 

Num dos cadeirões exteriores, ela estica as pernas. Pés pousados no recorte em grade protectora. Pensar esvaziado do mais que entupa o instante. Ouve voz conhecida:
_ ********, o café!
E ela, em roupão fino, voa pela escadaria, galga o empedrado de granito, salta evitando as poças da rega, abre o portão pequeno. Meia centena de metros de uma casa à outra. Ela espera-a no jardim emoldurado por cedros. Altos. Partilham conversa, risos e café na cozinha. Porta escancarada.

 

Entre as duas mulheres, uma geração de intervalo. Ela viúva há quatro demorados anos. O marido presente nos detalhes do espaço. Sem nostalgias bacocas. Conservada a presença que a cidade e arredores respeitava. Gostado por todos - efusivo, simples, culto, solidário e amante da convivencialidade. Sucediam-se automóveis à porta. Gentes atraídas pelo Homem com Mulher à altura.

 

Na terra pequena, outrora vila, a separação de estratos sociais era rígida. Ela, filha de um funcionário no Clube dos Industriais. Olhos verdes, cabelo negro. Ele, personagem maior. Separado da mulher/esposa que o regime salazarista impedia de partir, livre, para a vida. Quinze anos de diferença. Ultrapassaram moralismos hipócritas. Viveram, com escândalo e reprovação geral, anos muitos. Casaram, após o 25 de Abril. O filho comum, fruto do pecado legal, filho de amor perante Deus, testemunha a harmonia da família.

 

A Dona Joalina resiste à solidão. Colmata-a através dos muitos amigos que a procuram e mimam. Procura a ******** e fala. Exorciza a solidão que resiste aos convites e à vinda das gémeas/netas. Riem ambas.  Partilham intimidades. Assomam lágrimas pelas alegrias comuns. E tantas são…

 

Quem numa sociedade fechada, operária e rural, afronta o «diz que disse» por amor, sem ais ou lamúrias, tem direito a preservar os lábios carnudos como os pêssegos do jardim. Viçosos os olhos de parra de videira nova na Primavera do caminho.

 

CAFÉ DA MANHÃ
 

publicado por Maria Brojo às 10:04
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Olá. Posso falar consigo sobre a sua tia Irmã Mar...
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