Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

O SOL NÃO MARCA A ESPERA

Vladimir Kush


A entrada é manhosa. Brilha a calçada em ângulo obtuso. Polida. Gasta por passos perdidos na dor, na ansiedade, no medo, na alegria ou no alívio. A passada fica espontaneamente miúda – adivinha possibilidade do corpo resvalar e obedecer à gravidade lei.


Dentro dos muros, tudo é exíguo. No filtrado estacionamento, as ambulâncias entopem-se mutuamente. Impaciência no rosto de quem as conduz. Maqueiros correm nas vielas esconsas. Empurram macas. Numa, paciente idosa, entubada, desnuda nos ombros pela coberta escorregadia. Distância excessiva (per)corrida num final de manhã de gelo. Soalheira. Pingasse o céu, e, além do frio, a doente chegaria ao destino pior do que saíra.
 

Edifícios avulsos. Setas apontam «gias»: cirurgia, gastroenterologia, oftalmologia e mais do que outras tantas. Os necessitados de cuidados, idosos na maioria, arrastam-se nos becos com o desalento expresso no andar e no rosto. Aguardam em corredores apertados como se foram salas de espera. Circulam os ponteiros e nada muda – a espera continua.
 

O antigo convento dos Capuchos abriga hospital. Talvez não dure muito por ali. Ou não, que nem sempre é orientada pelas prioridades a gestão dos dinheiros públicos. Na degradação geral, coabitam administrativos, médicos, enfermeiros e auxiliares bons, maus ou rudes como noutro qualquer sítio. Madraços e dinâmicos misturados na salada dos funcionários públicos. Salários e progressões na carreira sem discriminarem a eficácia do trabalho cumprido.


Engaiolado entre edifícios, o “Pátio do Relógio”. Nele, a cisterna do antigo convento. Boca octogonal com um metro de altura encimada por relógio de sol em pedra. Gravada a data, 1586, e as iniciais do construtor. O século dezoito provado na riqueza ornamental dos azulejos obedientes à tradição azul e branca: lírios no centro dos medalhões, anjos, concheados e “asas de morcego”. E o relógio, beleza inesperada, marca as horas. Segue a teia solar sem que as esperas e o desespero nele sejam medidas.


CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 13:01
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7 comentários:
De zeka a 28 de Janeiro de 2010 às 16:00
Entrada manhosa. Aqui também?
Sociedade civil. ONG? Haiti. Não é aqui?
Greve de Enfermeiros. Ontem ouvi ser a pior competência saída das nossas Univer sidades. Hoje ouvi não estarem em saldo. São licenciados pagos como bacheréis.
Défice. Grécia. Agências de rating já se pronunciam sobre o nosso OE. Há mais vida para lá dos nºs. Belmiro andou com Alegre na escola e diz que não sendo Portugal produtivo & competitivo arrisca-se a ser uma aldeia de vinho & kiwis. Ainda bem... podia ser pior. Que cada um faça aquilo que é melhor, cutando menos e valendo mais.
Ontem também ouvi que saem dinheiros de Portugal para a fundação da Hilary. A nossa falta de visibilidade/credibilidade/assertividade. A falta de iniciativa local reflectida na crise: desemprego, salários e pensões baixas, impostos, corrupção, desigualdades. inJustiça/s. O Teixeira propõe-se reduzir o salário. O Catroga aumentou a reforma dele obs cena mente. Cavaco considerado dita dor.

http://www.youtube.com/watch?v=4hb6xjb2UcQ&feature=related
De zeka a 28 de Janeiro de 2010 às 16:04
Se não fossem Enfermeiros... ser iam bacha réis ;-)
De zeka a 28 de Janeiro de 2010 às 20:09
Uma entrada airosa (mais a sul)

http://figolampo.blogspot.com/2010/01/camarao-com-whisky-e-laranja.html
De zeka a 29 de Janeiro de 2010 às 15:08
Para que não conhece

Centro Hospitalar de Lisboa - Hospital de Stº António dos Capuchos, freguesia de São José
http://www.jf-sjose.pt/locais.php?cat_id=3&id=5

Com Serviço Social Hospita lar
http://www.cpihts.com/PDF/Ludovina%20Almeida.pdf

Com relógio cheio de história
http://escavar-em-ruinas.blogs.sapo.pt/51836.html

Há mais Capuchos na (nossa) terra
http://www.guiadacidade.pt/portugal/?G=monumentos.ver&artid=12265&distritoid=11
http://pt.wikipedia.org/wiki/Convento_dos_Capuchos_(Caparica)
http://www.conventodoscapuchos.com/ (c/música!)

De Maria Brojo a 31 de Janeiro de 2010 às 09:49
Zeka - de novo, percorri os links. Alguns sim, outros não me motivaram.
Grata pelas reflexões/informações que me acrescenta.
De António a 29 de Janeiro de 2010 às 09:51
a pedra horária e as cinegéticas paisagens monumentalizam a solenidade de um espaço reservado à esperança e à dor compartilhada em momentos de especial intensidade humana e afectiva, a que o poder de reparar tem o condão de azulejar as horas difíceis!

obrigado por mais uma excelente partilha!!

e, a quem por bem, sincero voto de boas melhoras!!!




De Maria Brojo a 31 de Janeiro de 2010 às 09:55
António - perante a razão que motivou a crónica, agradeço-lhe a leitura bem lida e o desejo de melhoras. Não foram diagnosticadas no horizonte, porém bem-vindas. A esperança e alegria, das quais não abdico, farão o resto.

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